Era o dia ideal para assistir ao filme há muito aguardado. Dirigi-me ao centro comercial onde se localiza o cinema eleito, uma vez que pretendia também aproveitar a deslocação para visitar uma discoteca/livraria que se situa no mesmo.
Pedi um bilhete para a última fila, junto à coxia. Respondeu-me a senhora que só lhe restavam por vender dois dos desejados papéis, um na primeira fila, o outro na penúltima, a segunda cadeira a contar do corredor. Optei por este.
Como o filme ainda demorava a começar, decidi-me dar uma volta pelo Centro. Eis que começo a ver uma série de pessoas, rapazes novos na sua maior parte, envergando camisolas do Benfica. Suspeitei que fosse dia de jogo na Luz, ali mesmo ao lado. Entrei numa tabacaria e comprei um jornal desportivo e uma revista especializada em cinema. Confirmei no jornal que o jogo começava algumas horas depois. Descansei. Se o horário de fim fosse coincidente com o do filme, o trânsito seria catastrófico. Suspirei de alívio!
Este espectáculo do futebol, tem-se, nos últimos tempos, tornado estranho. Antigamente os adeptos iam para o estádio munidos de bandeirinhas. Depois apareceram os bonés, os cachecóis. A vez das camisolas com o nome do jogador preferido nas costas, veio a seguir. Até que chegou a vez de uns estranhos chapéus com as cores do clube favorito, e cada um mais estranho que o outro. É o de bobo da corte, o de viking, e mais algumas estravagantes variações dos mesmos. Confesso alguma dificuldade em usar qualquer tipo de chapéu, o calor mata-me, até admiro a coragem de quem o faz. Mas aqueles?
Muitas vezes passeio abstraído nos meus pensamentos, e nem reparo em quem por mim passa, mas daquela vez o indivíduo apareceu-me à frente e não tinha como ignorar. Estatura baixa, envergava uma camisola vermelha cujo cós, a barriga proeminente afastava um palmo das calças, deixando assim antever aquele bojo com um enorme umbigo no meio. Mas o que me chamou a atenção foi a cara. O prognatismo fazia com que o lábio inferior quase tocasse o nariz, este, por pouco inexistente. Era um daqueles narizes tipo boxeur, achatado e minúsculo, tanto, que na altura pensei que se usasse óculos, se veria em trabalhos para os conseguir segurar. Entre os dois, o lábio e o nariz, um bigode que ao contrário do normal, se espetava para os lados, parecendo dois pequenos piaçabas sem cabo, virado cada um para seu lado. Na cabeça, um dos tais chapéus, vermelho e branco, de viking, enorme.
Nota: A foto é só para exemplificar como era o chapéu do sujeito
Uma sonora gargalhada soltou-se-me contra minha vontade. O indivíduo que naquele preciso momento cruzava o olhar com o meu, percebeu ser o objecto do riso. Embatuquei e corri para o wc. Olhei-me ao espelho, as faces, que as lágrimas humedeciam estavam rubras. Tinha sido superior a mim. Tentei parar de rir duas ou três vezes com pouco sucesso. Lavei a cara e já recomposto, dirigi-me ao cinema.
Sentei-me e abri a revista. Quando as luzes se estavam quase a apagar, um vulto parado à minha frente fez-me levantar os olhos da leitura. Era o tal sujeito. Olhava-me com olhos velhacos, um ligeiro sorriso, quase um esgar. Percebi de imediato o motivo da satisfação. O lugar dele era precisamente à frente do meu. Sentou-se pesadamente, o enorme chapéu na cabeça.
Começou a projecção. Fazia esforços desesperados para ver alguma coisa do filme, mas nada. Ainda por cima, fui chamado à atenção pelos espectadores da fila de trás para estar sossegado na cadeira porque queriam ver o filme.
Eu também queria, bolas!
No lugar junto à coxia, um rapazola, sorria com ar de gozo. Apercebeu-se do meu drama. Naquele dia eu não ia ver o tão aguardado filmes. Só estava ali a perder tempo. Pedi ao engraçadinho do lado licença para passar. Quando mo permitiu, passei por ele e ao mesmo tempo ferrei-lhe uma valente pisadela. Soltou um sofrido grito de dor, acompanhado de um palavrão. Para aprender a não gozar com a desgraça alheia.
Chegado cá fora suspirei conformado. Se queria ver o filme teria que escolher outro dia.
Nunca mais vou ao cinema em dia de jogo!