Novos Voos

Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Espelho, espelho meu...
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Flying Machine - Mirror, mirror

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Terça-feira, Outubro 16, 2007
Da Música (2) - The Freewheelin' Robert Zimmerman
Quando Robert Zimmerman lançou o seu primeiro LP, nada fazia prever que, em breve, o homem que foi buscar para seu apelido artístico, o primeiro nome do celebrado poeta Dylan Thomas, se tornaria num dos grandes nomes da música do século XX.
Com efeito, tratava-se de uma colectânea que reunia umas poucas “covers” de canções folk, às quais juntou uma ou duas de sua autoria, com muito pouca relevância.
Mas o que viria a seguir, seria memorável. “The Freewheelin’ Bob Dylan”, juntava uma colecção de canções inspiradoras, algumas das quais se tornariam verdadeiras “bandeiras” de uma geração engajada e politicamente evoluída, que entendia que tinha o direito a ser ouvida. Uma geração que abandonaria os salões onde dançava o rock and roll ao som de Bill Haley e Elvis Presley, e viria para as ruas protestar contra as guerras, as desigualdades e a discriminação racial.
O disco, editado em Novembro de 63, reunia, entre outras, canções como “Blowin’ in the Wind”, “Don’t think Twice, it’s alright”, que na década seguinte, e até terminar a guerra do Vietnam, foram entoadas vezes sem conta, em manifestações com lugar em Washington ou S. Francisco, em Londres ou Paris, e alvo preferencial de “covers” dos mais diversos artistas.
Numa época em que os Beatles conquistavam a América, e toda a gente ligada ao show-business queria encontrar quem fizesse sombra aos Fab Four, Dylan sabia que seria ele a “next big thing”. E disse-o em voz alta.
De um momento para o outro, o rapaz que dedilhava sofrivelmente viola acústica e tocava uma harmónica que trazia pendurada nos ombros, o jovem de cabelo rebelde e voz roufenha, tornava-se num ícone mundial, e os seus poemas, entravam para a galeria dos poetas obrigatórios nas universidades americanas.
Curioso, no meio da riquíssima história de Dylan, é o facto de, tendo sido algumas das suas canções, hinos daquela geração contestatária, nunca ele ter tomado parte em qualquer manifestação daquele tipo, ao contrário de outros nomes, como Joan Baez ou Donovan Leitch.
Quinta-feira, Outubro 04, 2007
Alegadamente
Muito corrente no discurso do meu avô era aquele “ninguém alguma vez viu o dia de amanhã “. Comum, como o meu avô, a frase resumia a incerteza no futuro.
Eu entendia-o, e sabia que a expressão, contendo em si uma fatalidade, não encerrava nada de excessivamente trágico, tratando-se meramente de uma generalidade.Sabia que, apesar de tudo, no dia seguinte o céu e a terra permaneceriam no mesmo lugar. Até um dia…
Porém, os tempos agora são outros, de incertezas muito mais latas, e não se poderá garantir que o que hoje é obstinadamente branco, amanhã não será por decreto, garantidamente preto. Hoje, nada se pode afirmar com absoluta certeza. Ou para ser preciso, hoje, nada se pode afirmar. Hoje, por exemplo, creio que Pereira nunca afirmaria
E é assim que recentemente e irresistíveis, os termos derivados do verbo “alegar”, surgem a dominar o nosso léxico e o nosso dia-a-dia.
Como exemplo, título de uma notícia de um jornal:
A polícia apanhou os “alegados” ladrões em flagrante delito, durante um assalto a uma bomba de gasolina em Freixo de Espingarda às Costas
Perguntar-se-á porque é que, tendo sido os gatunos em flagrante, o jornalista teve o cuidado de os adjectivar de “alegados”. A explicação é simples: provavelmente, na manhã seguinte, quando forem presentes ao juiz, este, “alegadamente”, deixá-los-á sair em liberdade.
Este enriquecimento discursivo, herdado naturalmente dos livros de Direito, para quem noticia e que antes estava sujeito a ser contradito, surgiu como um alívio, como o acessório perfeito para poder noticiar sem correr o perigo de ser levado à barra por editar notícias “não exactas”.
Sou, eu próprio, um apoiante sem reservas da utilização destes abençoados termos, que, para além de enriquecerem o estilo, enobrecem o discurso, porque salvaguardam a exactidão das afirmações, e não raro, dou por mim a utilizá-los.
Eis uma lista de algumas das minhas mais recentes afirmações, nas quais tenho recorrido aos alegados termos:
- Alegadamente, os programas da Julia Pinheiro, estão cada vez mais histericamente imbecis, e, também alegadamente, os programas da TVI cada vez mais direccionados a uma camada de população pretensamente descerebrada.
- Alegadamente, o caso Casa Pia nunca existiu.
- O Woody Allen é, alegadamente, um génio, e a Scarlett Johannsen está, alegadamente, cada vez mais …
- Kate MacCann, é alegadamente uma boa mãe, porque dá aos filhos espaço para que cresçam sozinhos.
- Alegadamente, o Miguel Sousa Tavares, tem noites
- Alegadamente, o “House” sem a Jennifer Morrison, é como uma jarra sem flores.
- Alegadamente, e quando as coisas vão de mal a pior, o Governo sodomiza intelectualmente o povinho, quando todos os dias repete que trabalha para a nossa felicidade.
- O Nelson Ned será uma das cabeças de cartaz na Parada da Sic. Alegadamente, tratar-se-á de uma parábola acerca da qualidade dos programas da estação de Penim e respectivas audiências.
- Alegadamente, o Rui Santos é o ser humano que utiliza mais palavras para expor uma simples ideia (nem sempre muito bem explicada).
- Alegadamente, Pinto da Costa nasceu no Porto e não em Palermo.

E por aí adiante…
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
Da Música (1) - Tributo aos Pink Floyd

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Pink Floyd - Comfortably Numb

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Quinta-feira, Setembro 27, 2007
A entrevista

“And there she was, standing with those two big watermelons shaking and bouncing, threatening me“.
Assim começa, de forma quase ameaçadora, o primeiro romance de George W. Bitch, intitulado “How Woody Woodpecker managed to kill Wally Walrus”. O livro é o relato feito na primeira pessoa, por um rapaz da província, órfão, acabado de chegar à grande floresta de betão. O autor dá conta dos primeiros embates do jovem, atlético graças aos baldes de cimento carregados durante os árduos dias de ajudante de pedreiro numa pequena vila da raia, com a vida nocturna em bares de frequência duvidosa, e a transformação que se vai operando no ingénuo rapaz, que passa vertiginosamente do vinho tinto e bagaço para as margaritas e shots, e da rapariga anafada e faces afogueadas com a qual mantinha um namoro ligeiro e vigiado a poucos passos pela sogra de pêlo na venta (literalmente), para relações extremamente profundas com moças esguias e esbranquiçadamente louras, oriundas da Eslovénia ou Lituânia.
O choque é duro, e o livro espelha de forma brutal, a evolução do jovem, em páginas de leitura quase hipnótica.
Chegámos ao local da entrevista, um pequeno bar junto à Estação de Santa Apolónia, e aguardámos mais de 2 horas pelo celebrado autor.
Chegou ao pé de nós um senhor (?) de meia idade muito perfumado e envergando um irrepreensível fato Versace em tons rosados, camisa D&G de seda branca, muito justa, e aberta até um pouco mais abaixo do peito impecavelmente depilado, e uma echarpe púrpura cujas pontas lhe batiam nos joelhos. Acercou-se e disse:
- São os jornalistas da “Livros da Semana“? ao mesmo tempo que colocava na mesa um cartão pessoal impresso e debruado a dourado, em que se evidenciava o nome de George W. Bitch, e o empurrava em nossa direcção com o dedo do meio da mão direita muito esticado, movimento que nos pareceu de gosto dúbio.
Sentou-se, e dobrou as pernas, ao mesmo tempo que puxava a calça, ligeira e cuidadosamente para cima, gesto que deixou à vista uma canela alva e tão árida como o peito, e, sem meias, uns sapatos Prada, com um tacão que lhe fornecia mais uns cinco ou seis centímetros.
- Vamos a isso que se faz tarde - acrescentou com um movimento de mãos afectado e demonstrativo de algum enfado.
Recuperados do choque - estávamos à espera de um tipo mal lavado, de gabardina amachucada e fumador compulsivo - iniciámos a entrevista.
- Lemos atentamente o seu livro, e pareceram-nos evidentes as influências do “noir" americano. Talvez um pouco cru como Henry Miller. Sente-se um novo Henry Miller?
- Ai filho, isso é porque nunca me viu à noite quando saio para me divertir. Sinto-me muito mais Anais Nin ou o Truman Capote!
(nesta altura, pedimos a interrupção da entrevista por uns minutos, para podermos tomar um copo de água e meio Xanax de 5mg)
(continua)
Terça-feira, Setembro 25, 2007
Let The Good Times Roll


É Hoje!
Domingo, Setembro 09, 2007
Todas as manhãs

Todas as manhãs
tropeço nas raízes antigas
da árvore que se ergue
à minha porta

Todas as manhãs
tropeço nas raízes antigas
da árvore que se ergue

Todas as manhãs
tropeço nas raízes antigas

...Todos as manhãs

Estimo todas as manhãs
e as surpresas que todas me reservam

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Sexta-feira, Setembro 07, 2007
J'attendrais

Apesar dos cálidos destemperos dos dias, o meu corpo pressagia já o aproximar do Outono, e com ele, o percorrer solitário das veredas da saudade.
Há muitos anos, nos meus vintes, numa conversa de café, alguém me perguntou se nunca tinha saudades. “De quê”, indaguei. “Dos anos de rapazito, sem qualquer tipo de responsabilidades, sem ter que cuidar de sujar o bibe, ou as mãos na terra húmida”. Que não, respondi firmado naquelas certezas e arrogâncias - dureza, talvez? - próprias da idade. Que então, na minha perspectiva de vida só podia existir presente e futuro.
Com o decorrer dos anos fui-me fragilizando nestas convicções - ou fragilizando-me, tout court, e as saudades começaram a ter uma presença maior do que a que desejaria. Desde as dos cheiros da carqueja, dos tojos e das torgas, que me inundavam quando atravessava o pinhal que já não existe, ao sabor estranho da sopa de beldroegas, de que me fui habituando a gostar. Ou das vezes em que, adolescente, deixava cair propositadamente o lápis, de forma a, ao apanhá-lo, atrevido espreitasse as belas pernas, sempre cruzadas, da pequena professora A, que além da firmeza dos traços do desenho geométrico, me fornecia também um espicaçar extra da libido, que, naquela idade, nem se carece. Aliás, esta figura de mulher, foi predominante nos meus sonhos húmidos de adolescência, com as suas coxas roliças severamente espartilhadas por saias justas, a sua franja e as tranças negras sempre impecavelmente enroladas sobre as pequenas orelhas e a sua boca sugestivamente carmim. Nem se contam as vezes que aquela boca me inspirou nas composições das aulas de português. Com ela, quase esgotei o escasso léxico.
Num dia gélido de Novembro, sentado numa esplanada envidraçada de Saint Germain, lembrei-me dela e dessa descuidada declaração de intenções. Lá fora passavam apressadas as parisiennes - desde que as conheci, sempre achei que a professora A tinha tipo de parisienne, com aquela elegância nonchalant e sexualidade à flor da pele muito própria - e eu olhava-as distraidamente, enquanto ia apreciando o meu chá de menta. Por vezes, entrava um novo cliente e um houve, que me pareceu vagamente familiar. Sentou-se quase a meu lado e desdobrou o Le Monde, enquanto pedia um beaujolais noveau. Nessa altura tive a certeza de que era mesmo o Cohn-Bendit, e estranhei que o jornal não fosse o Canard Enchaîné. Estive quase a levantar-me para lhe perguntar se dava razão a Willy Brandt quando afirmara que um jovem esquerdista, daria sempre um bom social-democrata quando chegasse á meia idade, porém a minha natural timidez impôs-se .
Mas principalmente, aquele fortuito episódio trouxe-me a noção da realidade, de como aquela cidade é um local onde se encontra quase toda a gente, como descrevia Hemingway no seu Paris é uma festa. E sobretudo, como tenho sempre saudades de 68.
Foto de Ard
Segunda-feira, Setembro 03, 2007
E la nave va

Escaldava-me a areia debaixo dos pés. A experiência dava-me uma ideia muito aproximada sobre os efeitos daqueles rituais primitivos em que o candidato caminhava sobre um rasto de brasas. Nunca consegui descobrir das virtudes de tais iniciações, e aparentemente, a perspectiva de um dia as vir a entender cada vez se dilui mais.
Quando por fim descansei à sombra dos chapéus de sol da esplanada, com uma fervilhante água tónica à frente, sobressaltei-me ligeiramente com a pergunta “Nunca mais escreveste nada no blog?”. Era uma pergunta retórica, uma afirmação condimentada de alguma censura, que o tom com que foi feita, não permitia dúvidas. O pior é que estava sozinho, pelo que a questão só me poderia ter sido posta por aquela pequeníssima parcela do cérebro que ainda se recusa a adormecer ao sol.
Mas fosse qual fosse o interlocutor, tinha a consciência que a afirmação era inquestionável. A única questão a pôr a mim próprio era se valeria a pena perder tempo com algo que, se durante um tempo dilatado me deu algum gozo fazer, de há uns tempos para cá se tem tornado quase um fardo. Poderia dizer, recorrendo a um romantismo exacerbado que não possuo, o que já vi escrito nalgum sítio por onde um dia me perdi, “que um blog é como um livro, e este, como um filho, e um filho nunca é um fardo, nem se abandona “. Mesmo quando ele nos assalta a casa. Claro que o argumento é vulgar, quase imbecil, mas será só mais um no mar de vulgaridades em que mergulhamos durante o verão, pelo que decidi atendê-lo.
Mas para voltar a dedicar alguma atenção ao apêndice, teria que, seguindo a norma do Príncipe de Salina, “mudar alguma coisa para tudo permanecer na mesma”. Ou para melhor, se possível. E face à claridade que inundava a praia, decidi que a primeira coisa a fazer, era iluminar o blog, que aquele negro em fundo não se coadunava, nem com a época, nem com a minha disposição.
Feito isto, resta abandonar as areias escaldantes e ver se consigo pôr novamente o navio a navegar.
Quinta-feira, Agosto 02, 2007
A minha tarde
13,45 - Mas que raio de ideia que eu tive, esta de ir almoçar à nova tasca do Almerindo. Nunca tinha visto ninguém ter “feijoada à transmontana” como prato do dia em pleno Verão. Mas como já tinha comido duas azeitonas e pão, não tive lata para me levantar. Enfim, acho que a tarde na piscina, não vai ser como idealizei.
14,00 - Já estou na piscina. A tanga aperta-me um bocado, e na parte de trás, enfia-se por onde não devia e faz umas comichões do caraças. Não me dou nada bem com a lycra. Só queria estar dentro de água, a ver se me passavam as comichões, mas o estupor da feijoada só me vai deixar ir ao banho daqui a duas horas.
14,05 - Tive um baque! Qualquer coisa me dizia que o dia não ia correr pelo melhor, mas nunca imaginei que ia encontrar o Cristóvão na piscina. Bom, o pior não é o Cristóvão. O problema é que ele anda quase sempre com a Peida Gadocha atrás. Ora quando o topo, o tipo estava com uns olhos daqueles género desenhos animados, a saltarem-lhe das órbitas e a olhar para cima. Infelizmente só me apercebi tardiamente sobre a razão daquele olhar aterrado. É que a Peida Gadocha já vinha pelo ar, em voo da prancha de 5 metros. A visão foi tão aterradora que também eu paralisei. Quando reagi, estava já com um duche tomado. Só tive tempo de pensar: “Desta é que me dá uma congestão”, e ver um velhote que todas as tardes faz o pino encostado a uma parede durante meia hora e depois passa 2 horas a nadar de um lado ao outro da piscina - uma vez contou-me que eram ordens do médico para activar a circulação e se manter em forma, embora eu ache que ele sai de lá todos os dias um bocado mais engelhado do que á chegada - a fazer os 10 últimos metros da piscina, mais rápidos da vida dele, e acabar com uma cabeçada na borda. O homem nem soube o que lhe aconteceu, deve ter tido mais ou menos a mesma sensação de um gajo apanhado por um maremoto. Felizmente que àquela hora a piscina estava quase vazia, senão as consequências podiam ter sido trágicas.
14,10 - O vigilante da piscina está danado. Diz que vai ter que voltar a encher a piscina e que vai propor à Administração, normas de peso para a utilização das pranchas.
Já me limpei. Estou debaixo de um chapéu de sol de barriga para baixo. Não quero conversas com o Cristóvão. Ainda bem que ele está entretido a discutir com o vigilante.
14,12 - Estou a sentir tudo revoltado cá dentro. Será um sintoma de congestão? Vou a correr para o WC.
14,18 - Parece que estou mais aliviado, mas, pelo sim, pelo não, vou ficar a ler o jornal de barriga para cima.
14,20 - Tenho que ir outra vez ao WC. Terá sido da feijoada?
14,25 - Já não sei como hei-de estar. Felizmente, parece que o Cristóvão se foi embora e levou a Peida Gadocha. Com avarias daquelas, não me admirava que fossem ambos proscritos da piscina. O velhote ainda está zonzo, e continua sem saber onde está. Já telefonaram para o lar para o virem buscar. Acho que não volta a fazer o pino tão cedo.
14,30 - O empregado dos WC já olha para mim com desconfiança. Espero que ele não vá à casa de banho da ponta, porque está entupida e ainda vai julgar que fui eu (e fui, mas não tive culpa nenhuma).
14,45 - Quarta vez! Isto é um verdadeiro flagelo. Será que vou passar a tarde a entrar e sair do WC? Parece desinteria. Já me sinto completamente desidratado e nem posso ir ao banho! Vou-me mas é vestir e voltar para casa. Sacana do Almerindo! O que é que o gajo terá posto na feijoada?
15,15 - Arrisquei e tomei um duche. Também bebi uma água com gás e parece que estou melhor. O Almerindo assim, há-de arranjar muitos clientes! Agora vou-me vestir e a seguir vou ver se consigo comprar um fato jeitoso para levar ao jantar de 6ª feira. Gostava de um de alpaca e acho que a Elisa ia gostar. Uma vez o Adérito comprou um que era tão brilhante, que quando ia à missa ao Domingo, parecia um daqueles santinhos que brilham no escuro. Perguntei-lhe se aquilo não seria alpaca espelhada, mas ele respondeu-me com má cara que eu não percebia nada de moda.
16,00 - Acabei de encontrar o Jacinto. Disse-lhe que ia comprar um fato, e ele disse que tinha em casa um “Jorge Armando” novinho, de um azul marinho espectacular, nº 50. Pois! Jorge Armando! E azul marinho! Hum!! Disse-lhe que era pena não me servir, porque visto 48. Ele disse que não havia azar, que a Alice - é a mulher dele, que diz que faz uns biscates de modista - fazia os arranjos que fosse preciso. Bem podia ter ficado calado. O último a aceitar um arranjo num casaco feito pela Alice, foi o Simões. Mal saiu à rua, uma velhota virou-se para ele e disse: “Tadinho de quem é aleijadinho! Mas o casaquinho fica-lhe bem”.
18,00 - Não consegui arranjar nada de jeito, mas em contrapartida tive uma surpresa. Ia para casa preparar o jantar, e encontrei a Elisa, que vinha a subir a rua com um top com um palmo d altura e uma saia do tamanho de um cinto (não muito largo), e que me fez sinal que queria falar comigo. Aquela mulher, até á distância faz subir a tensão a um homem, e se se chega muito, um tipo está sujeito a dar-lhe um ataque qualquer.
Pois a novidade era que a partir de 2ª feira ia trabalhar à noite para a esplanada que abriu na rua de cima, e que ia usar a fardinha de empregada de bar que uma vez me tinha mostrado. “Lembras-te?“ perguntou ela, com aquela voz que parece que me faz festas em todo o lado.
Bem, se é aquela em que estou a pensar, aquela esplanada vai ser um sucesso...enquanto se mantiver aberta. Só espero que o dono não a deixe cantar, senão, bem se pode preparar para pagar indemnizações à vizinhança inteira, pelo menos enquanto a polícia não encerrar aquilo por o tipo exibir espectáculos eróticos em espaço não qualificado e sem licença camarária.
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