13,45 - Mas que raio de ideia que eu tive, esta de ir almoçar à nova tasca do Almerindo. Nunca tinha visto ninguém ter “feijoada à transmontana” como prato do dia em pleno Verão. Mas como já tinha comido duas azeitonas e pão, não tive lata para me levantar. Enfim, acho que a tarde na piscina, não vai ser como idealizei.
14,00 - Já estou na piscina. A tanga aperta-me um bocado, e na parte de trás, enfia-se por onde não devia e faz umas comichões do caraças. Não me dou nada bem com a lycra. Só queria estar dentro de água, a ver se me passavam as comichões, mas o estupor da feijoada só me vai deixar ir ao banho daqui a duas horas.
14,05 - Tive um baque! Qualquer coisa me dizia que o dia não ia correr pelo melhor, mas nunca imaginei que ia encontrar o Cristóvão na piscina. Bom, o pior não é o Cristóvão. O problema é que ele anda quase sempre com a Peida Gadocha atrás. Ora quando o topo, o tipo estava com uns olhos daqueles género desenhos animados, a saltarem-lhe das órbitas e a olhar para cima. Infelizmente só me apercebi tardiamente sobre a razão daquele olhar aterrado. É que a Peida Gadocha já vinha pelo ar, em voo da prancha de 5 metros. A visão foi tão aterradora que também eu paralisei. Quando reagi, estava já com um duche tomado. Só tive tempo de pensar: “Desta é que me dá uma congestão”, e ver um velhote que todas as tardes faz o pino encostado a uma parede durante meia hora e depois passa 2 horas a nadar de um lado ao outro da piscina - uma vez contou-me que eram ordens do médico para activar a circulação e se manter em forma, embora eu ache que ele sai de lá todos os dias um bocado mais engelhado do que á chegada - a fazer os 10 últimos metros da piscina, mais rápidos da vida dele, e acabar com uma cabeçada na borda. O homem nem soube o que lhe aconteceu, deve ter tido mais ou menos a mesma sensação de um gajo apanhado por um maremoto. Felizmente que àquela hora a piscina estava quase vazia, senão as consequências podiam ter sido trágicas.
14,10 - O vigilante da piscina está danado. Diz que vai ter que voltar a encher a piscina e que vai propor à Administração, normas de peso para a utilização das pranchas.
Já me limpei. Estou debaixo de um chapéu de sol de barriga para baixo. Não quero conversas com o Cristóvão. Ainda bem que ele está entretido a discutir com o vigilante.
14,12 - Estou a sentir tudo revoltado cá dentro. Será um sintoma de congestão? Vou a correr para o WC.
14,18 - Parece que estou mais aliviado, mas, pelo sim, pelo não, vou ficar a ler o jornal de barriga para cima.
14,20 - Tenho que ir outra vez ao WC. Terá sido da feijoada?
14,25 - Já não sei como hei-de estar. Felizmente, parece que o Cristóvão se foi embora e levou a Peida Gadocha. Com avarias daquelas, não me admirava que fossem ambos proscritos da piscina. O velhote ainda está zonzo, e continua sem saber onde está. Já telefonaram para o lar para o virem buscar. Acho que não volta a fazer o pino tão cedo.
14,30 - O empregado dos WC já olha para mim com desconfiança. Espero que ele não vá à casa de banho da ponta, porque está entupida e ainda vai julgar que fui eu (e fui, mas não tive culpa nenhuma).
14,45 - Quarta vez! Isto é um verdadeiro flagelo. Será que vou passar a tarde a entrar e sair do WC? Parece desinteria. Já me sinto completamente desidratado e nem posso ir ao banho! Vou-me mas é vestir e voltar para casa. Sacana do Almerindo! O que é que o gajo terá posto na feijoada?
15,15 - Arrisquei e tomei um duche. Também bebi uma água com gás e parece que estou melhor. O Almerindo assim, há-de arranjar muitos clientes! Agora vou-me vestir e a seguir vou ver se consigo comprar um fato jeitoso para levar ao jantar de 6ª feira. Gostava de um de alpaca e acho que a Elisa ia gostar. Uma vez o Adérito comprou um que era tão brilhante, que quando ia à missa ao Domingo, parecia um daqueles santinhos que brilham no escuro. Perguntei-lhe se aquilo não seria alpaca espelhada, mas ele respondeu-me com má cara que eu não percebia nada de moda.
16,00 - Acabei de encontrar o Jacinto. Disse-lhe que ia comprar um fato, e ele disse que tinha em casa um “Jorge Armando” novinho, de um azul marinho espectacular, nº 50. Pois! Jorge Armando! E azul marinho! Hum!! Disse-lhe que era pena não me servir, porque visto 48. Ele disse que não havia azar, que a Alice - é a mulher dele, que diz que faz uns biscates de modista - fazia os arranjos que fosse preciso. Bem podia ter ficado calado. O último a aceitar um arranjo num casaco feito pela Alice, foi o Simões. Mal saiu à rua, uma velhota virou-se para ele e disse: “Tadinho de quem é aleijadinho! Mas o casaquinho fica-lhe bem”.
18,00 - Não consegui arranjar nada de jeito, mas em contrapartida tive uma surpresa. Ia para casa preparar o jantar, e encontrei a Elisa, que vinha a subir a rua com um top com um palmo d altura e uma saia do tamanho de um cinto (não muito largo), e que me fez sinal que queria falar comigo. Aquela mulher, até á distância faz subir a tensão a um homem, e se se chega muito, um tipo está sujeito a dar-lhe um ataque qualquer.
Pois a novidade era que a partir de 2ª feira ia trabalhar à noite para a esplanada que abriu na rua de cima, e que ia usar a fardinha de empregada de bar que uma vez me tinha mostrado. “
Lembras-te?“ perguntou ela, com aquela voz que parece que me faz festas em todo o lado.
Bem, se é aquela em que estou a pensar, aquela esplanada vai ser um sucesso...enquanto se mantiver aberta. Só espero que o dono não a deixe cantar, senão, bem se pode preparar para pagar indemnizações à vizinhança inteira, pelo menos enquanto a polícia não encerrar aquilo por o tipo exibir espectáculos eróticos em espaço não qualificado e sem licença camarária.