Novos Voos - Take Two

quarta-feira, junho 30, 2004
Como o vento


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Quase sempre, as nossas histórias, de tantas malhas com que são tecidas, tornam-nos quase nós, nós-cegos que nem os próprios são capazes de desatar. Novelos aos quais se procuram pontas inutilmente. Puzzles diferentes uns dos outros, aos quais faltam sempre a peça que nos permite completá-los.
Uma vida é como um quadro sempre inacabado. Falta a última pincelada, que não seremos nunca nós a dar. Aliás, a nossa vida é muito mais aquilo que os outros fazem dela, do que nós próprios.
E no entanto, nascemos para ser livres. Devíamos ser livres. Não ter amarras no corpo, nem mordaças no pensamento.
Como o pássaro que voa de asas libertas de pesos.
Como canta a poesia.
Como o vento.

Como faz o vento

Eu nasci como nasce a brisa, à beira do mar
amigo do sol e da chuva aprendi a voar.

Como faz o vento
assim eu quero viver.
Como faz o vento
o vento que anda e é livre entre nos.

E cresci buscando nos versos que a poeira escondeu
e arrastando as folhas que o outono varreu.

Não nasci para ser a pedra, mármore que cobre um morto,
a terra surprende a árvore e eu vou de porto em porto.

Abre menina abre a tua porta e deixa-me entrar,
ninguem vai saber nada e eu vou madrugar.

E assim sem olhar para tras hão de ver-me passar,
nada vos deixo, ninguem me espera..., posso ir e voltar.


(Juan Manuel Serrat - Adaptação de Alexandre O'Neil)

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/30/2004 02:49:00 da tarde | Permalink | | ( 3)Comentários
terça-feira, junho 29, 2004
Deusas, Rainhas ou Sonhos de uma tarde de Verão
Hoje, como diria o Eça, está um calor de ananases. Os neurónios, poucos, recusam-se a laborar. Não se conseguem concentrar de modo a que o detentor deles apresente aqui algo de minimamente apresentável.
Pronto, só saiu isto assim, sonhos de um dia de Verão:

Miragens Louras...
0008.jpgscarlett_johanssen_11.jpg239799.jpgmb037.jpgmadsev01.jpg
Peta...Scarlett...Charlize...Maria...Virginia...

...Ruivas

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...Julianne...Nicole...



...e Morenas

isabelle_adjani1.jpgsitepic.php?size=4&id=956011.jpgsophie20.jpgDivers31.jpg
...Isabelle...Angelina...Andie...Sophie...Monica

Proclamei-te rainha.
Há-as mais altas do que tu, mais altas
Há-as mais puras do que tu, mais puras
Há-as mais belas do que tu, mais belas
Mas tu és a rainha
Quando vais pela rua
ninguém te reconhece
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguem repara
na alfombra de ouro rubro
que pisas ao passar,
a alfombra que não existe.
E, quando surges,
todos os rios marulham
no meu corpo, os sinos
abalam o céu,
e um hino enche o mundo.
Apenas tu e eu,
apenas tu e eu, meu amor,
o escutamos.

(Pablo Neruda in Os versos do Capitão)

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/29/2004 04:01:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
segunda-feira, junho 28, 2004
Luz Cósmica


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Rhone by Van Gogh



Pudessemos um dia
voar os dois
Em voo compassado
E paralelo
Como duas estrelas
cadentes
Em perfeita sintonia
E num repente
Nos uníssemos
Fundindo-nos
Num abraço
em que os dois
Não soubéssemos
do outro
o limite físico
da pele.
Dar-se-ia então
Uma explosão cósmica
de energia
Em que a noite
escura e
dura de betão
se transformaria
No mais brilhante
E assombroso dia

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/28/2004 04:20:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
sábado, junho 26, 2004
Negação
Percorro pela milésima vez a álea atapetada pelo rosa arroxeado das flores mortas dos jacarandás.
Sento-me no velho muro à sombra de um deles a pensar na precaridade dos sentimentos que nos invadem. De como a frase "A verdade de ontem, é a mentira de amanhã" tem para mim cada vez mais sentido.
Repenso novamente O'Neil:

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto
.

De esperança louca. Que se perde rápido como um suspiro.
O malmequer vai sendo desfolhado lentamente: Amas-me? Não me amas?.
Já sei a resposta antecipada, para quê então a roleta russa?
Vou-me.
Em casa espera-me a Nina Simone. Essa ao menos canta-me sempre:

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s’oblier qui s’enfuit dejà
Oublier le temps des malentendus
Et le temps perdu à savoir comment
Oublier ces heures que tuaient parfois à coups de pourquois
Le coer du bonheur

If you go away
On this summer's day
Then you might as well take the sun away
All the birds that flew in the summer sky
When our love was new
And our hearts were high
And the day was young
And the nights were long
The trees stood still for the night birds song
If you go away,
If you go away,
If you go away,
Escrito por: VdeAlmeida, em 6/26/2004 07:44:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quinta-feira, junho 24, 2004
Brasa


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O teu beijo queima-me os lábios como brasa
Incendeia corpo e alma, e tudo arrasa

"Entreabro as minhas
coxas
no início dos teus beijos
"
(Mª Teresa Horta)

"Um beijo, mas afinal que é isso?
Um juramento feito de mais perto, uma promessa
Mais precisamente, uma confissão que se quer confirmar
Um ponto rosa no i do verbo aimer
É um segredo que usa a boca como uma orelha,
Um instante infinito que faz um som de abelha,
Uma comunhão com sabor a flor
Uma forma de se respirar um pouco o coração
E de se provar a alma na ponta dos lábios
!"
(Edmond Rostand)

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/24/2004 10:11:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quarta-feira, junho 23, 2004
Ontem matei o amor


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Ontem matei o amor
Dei-lhe um tiro
Mesmo no meio da testa
Foi uma morte sem dor
Mas para confirmar
Que morrera
Ainda o estrangulei
E meti-o dentro
de um saco
Que com cuidado pendurei
Do lado de fora
da varanda
Hoje fui lá p'ra confirmar
Que se mantinha suspenso
O desgraçado tresanda!

Agora estou aqui sentado
na cadeira de baloiço
Bem na frente do alpendre
À espera que apareça cá
Um que dê menos trabalho
E não me obrigue a matá-lo
Porque já ando bem cansado
Do trabalho que o amor dá

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/23/2004 08:49:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
terça-feira, junho 22, 2004
Instante


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Naquele instante.
Só naquele instante
Me perdes no meio
de afagos imprudentes
Quando soluça o corpo
em vagas de desejo
Soltas os ais e eu
gemidos de prazer
Explode o coração
em gritos estridentes
E sinto a tua carne
Vibrante
Entre os meus dentes
Naquele momento
Em que é vida
e é morrer
Em que unos
estalamos em agonia
E o universo
Todo se estilhaça
Varrido por uma força
exorbitante
Quando a noite negra
se transforma em dia
É ali que tudo
então se acaba e recomeça
E é naquele preciso
e aguardado instante
Que tanto
em ti estou
mas tão distante

(Foto de José Marafona)

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/22/2004 09:11:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
segunda-feira, junho 21, 2004
Adolescência II - Marília


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Depois do episódio do ribeiro, a Marília tornou-se no alvo preferencial dos meus sonhos juvenis. Mesmo que na manhã seguinte não me lembrasse do trama nocturno, a natureza encarregava-se de me fazer notar que as fantasias não tinham nada de etéreo.
Continuámos a ver-nos até ao fim das férias, mas de cada vez que se sucedia o encontro, desviava o olhar envergonhado. Parecia receoso que me conseguisse ler os pensamentos, ou que descobrisse que sonhava indecentemente com ela. À distância, não consigo descobrir o porquê de todo aquele meu estranho e insensato embaraço.
Foi com algum alívio que voltei à cidade e recomecei as aulas. Pensava eu que teria muito para me ocupar. Puro engano. Os sonhos continuavam com a mesma interveniente.

Marília era órfã de mãe e o pai seguira o caminho de muitos outros, a França, deixando-a aos cuidados da avó. Esta não se preocupava muito com ela, deixava-a correr livre, e assim ela, que já de si tinha um espírito independente, quase selvagem, foi crescendo sem constrangimentos nem grandes pudores, apesar do ambiente retrógrado em que vivia. Cá longe sabia pouco da sua vida, não queria denunciar o meu interesse especial nela, mas soube um dia que o pai, com a morte da velhota a tinha levado com ele.
Supus então que não mais a veria. Foi por essa época que a sua imagem se começou a esbater na minha memória até quase se transformar numa velha fotografia a sépia, muito debotada, das suas feições quase só uns vagos contornos.

Até que um dia voltando à aldeia, a reencontrei. Acho que quando a encarei todo o meu sangue me afluíu ás faces. Beijou-me suavemente, o que me deixou ainda mais acanhado. Tinha-se transformado numa adolescente muito bonita, os seios já não eram incipientes, as pernas eram perfeitas e os olhos continuavam a ser aqueles olhos-vitrais de cor indefinida que filtravam emoções como o cristal separa as cores em arco-íris. E depois, aquela boca sempre muito vermelha e molhada por uma língua que parecia não ter sossego...
Nesse ano criámos alguma intimidade, notava que lhe não era indiferente, mas havia da minha parte, uma quase inconsciente vontade de não estar a sós com ela, talvez adiando o que adivinhava seria inevitável.
Já lhe notara alguma estranheza e até irritação por esse meu cuidado, e nesse dia não quis continuar aquele jogo. Aceitei um desafio dela e saímos para o campo. Falávamos de tudo e de nada e quando abandonámos a estrada para seguir por um caminho velho, pedregoso, pegou-me na mão como que para se segurar. Parecia mais leve que habitualmente, ria deixando ver os dentes branquíssimos, bonitos e muito alinhados e atirando a cabeça para trás o que lhe fazia ondular os longos cabelos de reflexos acobreados. Trazia um vestido justo, claro, quase branco, que lhe emprestava um ar angelical.
Sentámo-nos numa fraga e de repente gerou-se entre nós um silêncio estranho. Disse-me então:
- Sempre gostei de ti, mas tu sempre fugiste. Meto-te medo?
- Nunca dei por isso, deve ser inconsciente,- respondi-lhe corando por saber que não era verdade. Nem coragem tive para lhe dizer que também eu há muito gostava dela.- Mas não, não sinto medo. De ti ou contigo.
- Eu sei o que receias, mas comigo não há cobranças, não há compromissos. Gosto e pronto.
Fiquei sem saber bem o que lhe responder, até porque me parecia que nem percebia bem a profundidade do que me dizia.
Pegou-me na mão e puxou-me para o meio de um campo de girassóis, altos, enormes, que havia ali mesmo ao lado.
- Já reparaste? Aqui no meio, se nos deitarmos por cima das folhas velhas que cobrem o chão, mesmo que passe alguém, não nos vê. E deixou-se cair arrastando-me. Agarrou-se a mim e de repente, caído de costas, com os cabelos dela a taparem-me quase por completo a cara, só por breves nesgas divisava o azul do céu. E sentia a sua língua que, ora quase forçava a sua entrada na minha boca, ora me molhava os ouvidos como se me sussurrasse palavras húmidas de desejo. Aquela boca sabia a morangos silvestres.
A textura da pele, já lha conhecia. Dos sonhos. Tinha-lhe adivinhado a suavidade do veludo. Não usava perfumes, tinha um cheiro a lavado de fresco, perturbador, que me despertava todos os instintos mais primários. Num ímpeto puxou-me uma das mão para a tepidez húmida que se escondia por baixo do algodão fresco das cuecas. Depois, já não me recordo de mais nada...Só sei que reparei que não era o primeiro homem da vida dela, coisa a que não dei qualquer importância.

Nos dias sequentes, pelo meio de brincadeiras mais ou menos inocentes, aprendi muito com ela. Eu, adolescente de cidade, estudante, cheio de verdades muito minhas que tinha tornado quase dogmas, vi muitas certezas cairem por terra perante a sua simplicidade cortante, afiada quase como a lâmina que corta o pulso. Mostrou-me que, nessa altura, a distância que ia de Lisboa á aldeia, era muito menor do que aquela que ia de Paris a Lisboa. Isso disse-me ela quando lhe aflorei a questão da virgindade perdida. E houve muito mais, mas isso fica para a próxima.

Por hoje, só que ainda estremeço violentamente quando passo por algum campo de girasssóis

Fever

You give me
You give me fever

Never know how much I love you
Never know how much I care
When you put your arms around me
I get a fever that’s so hard to bear
Listen to me baby, hear every word I say
No one can love you the way I do
’cause they don’t know how to love you my way

(Peggy Lee)


Escrito por: VdeAlmeida, em 6/21/2004 07:36:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
Quando fores...


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No fundo de uma gaveta
Lá bem no fundo,
escondida
Tenho uma poesia
Escrita a eito
Para te dar quando fores
Para que saibas
Que mesmo fugida
Vais ficar para toda a vida
No canto que escolheste
Nesta porção que é só tua
E que se me abriga no peito

"Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia...
...Todo o anjo é terrível
."
(Rainer Maria Rilke)

Foto daqui

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/21/2004 12:49:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
sábado, junho 19, 2004
Os 60 Anos de Chico Buarque


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Perfaz hoje 60 anos, o genial autor de "Construção", de "A Banda", e de muitas outras canções, das mais valiosas do património do MPB.
Parabéns ao Chico Buarque e que a vida permita que ele nos continue a presentear com a sua arte.

Construção
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/19/2004 07:59:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários


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Sento-me na escarpa abrupta
E ouço o vento que me traz a tua voz
Doce, carinhosa, que me suspira desejos
E a saudade cava-se, profunda
Dilacera-me a alma, rasga-me o coração
É uma dor lancinante e doce
Cortante e ao mesmo tempo terna
Que doi fundo mas sublima a paixão
Vejo o mar e parece-se com o meu amor
Imenso, forte, imperecível
Olho o céu e acenas-me com uma nuvem
Ver-te-ei amanhã? Ou depois?
Ah!será então um dia inesquecível

Ao som de Billie Halliday, Stormy Weather

Pintura de Giacomo Balla

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/19/2004 01:15:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
Uma pequena homenagem...
...a quem devo muitos momentos de alegria inacreditável


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The ministry of silly walk

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/19/2004 12:20:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
sexta-feira, junho 18, 2004
Memórias de Viagem...
...por terras do Foie-Gras

Collonges-la-Rouge- Castelo.JPG


Collonges la Rouge, a aldeia vermelha - Castelo Medieval

Collonges-Rua%20Principal.JPG


Collonges - Rua Principal

Sarlat-Medieval.JPG


Sarlat - Vila medieval

...E da Lavanda

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"Cachent-ils des éclairs dans cette lavande où
Des insectes défont leurs amours violentes
Je suis pris au filet des étoiles filantes
Comme un marin qui meurt en mer en plein mois d'août
"
(Andre Breton)



Escrito por: VdeAlmeida, em 6/18/2004 08:25:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quinta-feira, junho 17, 2004
Adolescência


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Hoje lembrei-me de ti, Manel. E da Marília. Éramos vários, mas tu eras o mais chegado. E ela, a única rapariga. Coisa em que, na altura, nem reparávamos.
Há muito que não sei de ti. A vida separou-nos definitivamente a partir desse ano, e poucas mais vezes percorri esses campos e nessas alturas, por um qualquer acaso da vida, estavas longe. Soube muito tempo depois que tinhas sido apanhado a forçar a caixa de esmolas de um cruzeiro que fica num caminho ermo. Não me admirei, o teu sentido do correcto era já nessa altura muito lato, sempre achei que fazias as coisas menos boas com uma estranha inocência e nunca levantei um dedo acusador para te condenar.

Não sei porque me lembrei hoje, talvez porque me tenha cruzado com um bando de pássaros que percorriam livres o céu, tal como nós, miúdos, a subir veredas, a galgar paredes, pequenos "capitães da areia", usufruindo de uma sensação de liberdade única. Eu, nunca mais a senti na vida.
Recordas-te que andavas sempre de pé descalço, o que me arrepiava? Era tempo de férias, a terra fundia tudo e ao princípio eu não entendia como eras capaz de poisar os pés nus naquele braseiro, esquecia-me que sempre assim tinha sido. Nem me apercebia das calosidades que te protegiam, que estranharías era se usasses sapatos. Eu lá pensava nisso. Depois, fui-me apercebendo das nossas diferenças. Mas nunca tal nos afastou. Eras o meu companheiro desde que raiava a aurora, até à hora em que a minha avó, já de lanterna acesa a alumiar o alpendre, me chamava para o jantar.
Recordo-me dos nossos assaltos às videiras e figueiras que bordejavam os caminhos poirentos. Da alegria das nossas fugas, através dos campos cujo verde se ia desmaiando pela calor exagerado, mas ao qual resistiam as alegres papoilas. Recordo-me dos teus calções remendados mil e uma vez e da tua camisa quase no fio. Mas também dos teus olhos vivos e do teu riso descarado, quase obsceno. Da tua cara tingida das amoras silvestres acabadas de colher.
Acho que ainda tenho nas narinas o aroma desses dias, um cheiro acridoce a estevas e rosmaninho.
Recordo-me daquela vez em que, inadvertido me pendurei nas traseiras do autocarro que
passava junto a nós e de como, ignorante das leis da inércia me desprendi, caindo
desamparado no alcatrão. Foste tu que me transportaste a custo nos teus braços franzinos até casa, onde a minha avó me acolheu com ar de natural preocupação quando me viu desfalecido e pior quando deu conta do fio de sangue que me ia escorrendo do ouvido. Estive naquele estado de torpor durante três dias, lembras-te? Acho que foi a primeira vez que me cheguei á entrada do tal túnel, sabes? aquele de que poucos regressam.
Mas esse foi só um episódio triste.

Não apaga as saídas furtivas pela madrugada para "ir aos pássaros", coisa em que eras mestre.
Nem principalmente as nossas idas ao rio para banhos que duravam um dia inteiro. Eram sempre no açude que ficava na sombra do grande salgueiro, mesmo por debaixo da ponte romana. Nem sei se ainda existe a árvore, mas lembro-me do seu cheiro e dos mergulhos cada vez mais atrevidos e perigosos que dela ensaiávamos. O embate com a água era sempre ruidoso, gritado e cantado e as letras das canções nem sempre de índole muito decente. Era tudo tão intensamente vivido que nem nos lembrávamos da fome, até que ela batia com a força devida a um adolescente e então lá íamos à merenda sumária, preparada clandestinamente na penumbra da madrugada precedente. Recordo-me que na primeira vez que fomos, fiquei surpreendido por não teres calções. Nem tu, nem os outros. Depois, para não destoar acabei por tirar também os meus, apesar da vergonha inicial.

Foí aí que aconteceu o episódio mais marcante com a Marília. Nunca tinha ido, e na primeira vez que se decidiu, ao ver-nos nus, fez o mesmo, com aquele despudor que a inocência guarda em alguns. Puxou o vestido leve pela cabeça, sacudiu fora dos pés as sandálias de tiras, tirou as cuecas de algodão brancas e deitou-se atrevidamente à água. Foi a primeira vez que vi uma rapariga nua. A Marília pouco mais peito tinha que nós, e do corpo moreno e elegante, destacava-se o negro do púbis quase imberbe ainda, mas já bem visível. Para mim, virgem no assunto, a Marília nua era qualquer coisa. Recordo-me que te disse que achava que estava a ter um ataque de coração, de tal forma o coração me parecia querer saltar do peito. Deste uma risada, lembras-te?
Foi quando me apercebi que, no meu corpo, não era só o coração que reagia àquela visão.

Acho que foi nesse dia que começou verdadeiramente a minha adolescência.



Escrito por: VdeAlmeida, em 6/17/2004 09:46:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quarta-feira, junho 16, 2004
Ausência de mim, segredos de outros


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Hoje estou longe,
vago
Não me sinto
Ou sequer
me pressinto
Estou numa espécie
de vazio
Uma dormência
Total ausência,
letargia indolor
E um latejar de têmporas
Perladas de suor
Um dia quente
Mas sem cor

Por isso, e como ontem deixei aqui o meu "Segredo", hoje ficam os "segredos" de Teresa Horta e de David Mourão Ferreira.

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
(Teresa Horta)

Nem o tempo tem tempo
Para sondar as trevas
Deste rio correndo
Entre a pele e a pele
Nem o Tempo tem tempo
Nem as trevas dão tréguas
Não descubro o segredo
Que o teu corpo segrega.
(David Mourão Ferreira)


Foto daqui





Escrito por: VdeAlmeida, em 6/16/2004 10:01:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
terça-feira, junho 15, 2004
Veludo


5739.jpg


Veludo,
Negro veludo
e pétala de rosa
Húmida pelo orvalho
da madrugada
Segredo que me guardas
E desvendas em noites
de primavera
encantada


Foto daqui

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/15/2004 10:09:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
segunda-feira, junho 14, 2004
Do desejo


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Do desejo disse Florbela:

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te...


E Neruda:
Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem
Sou mais pequeno que um insecto
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centímetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo espiral...


Ou Maria Teresa Horta:
Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo
Que eu sinta de ti a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins
deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura
Ó meu amor a tua língua
prende
Aquilo que desprende de loucura


É então fácil falar dele quando se gerem as palavras de maneira superior e se sabe denunciar na perfeição cada sentimento/emoção.
Que poderia mais dizer eu que já não esteja dito?
Talvez que:

Percorres-me o corpo
com as tuas mãos
Esguias, leves como pétalas,
frescas
O arrepio sobe-me
fino de desejo
Dobro-me e vejo-te,
acaricio-te a face
Suave e bela,
na qual te deposito
breve, um beijo
Pousas-me no ombro,
a cabeça perfeita
Espalhas pelo meu peito
os teus cabelos
Sinto na minha
a tua pele de seda
Vejo como me olhas
E consegues-me fazer
Sentir que sou um deus,
Que sou eu o eleito







Escrito por: VdeAlmeida, em 6/14/2004 09:11:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
sexta-feira, junho 11, 2004
Vermelho


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A casa tem uma porta vermelha
Da cor do teu coração,
Estival.
Do meu não, que o meu é branco
Da cor do gelo, da neve
Glacial


Foto do


Escrito por: VdeAlmeida, em 6/11/2004 06:47:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quarta-feira, junho 09, 2004
História sem Moral
Julio foi condenado a 15 anos de prisão por um crime, diz, que não cometeu. O cariz de tal crime não será enunciado, por desprezível
Os primeiros 5 anos foram passados na sua cela individual, pequena, com uma minuscula janela gradeada, onde mal cabia o enxergão onde dormia, com uma saída diária de meia hora para um pátio, onde passeava e trocava esporádicas palavras com os companheiros de reclusão. Fora a altura das refeições, o tempo passava lentamente, e isso para ele, que sempre fora homem de mil e uma distracções era o que mais o torturava.
Até que um dia um clarão intenso de luz veio iluminar a sua vida. Descobriu que tinha uma companheira de cela. A princípio mal deu por ela, mas quando conseguiu, à custa de algum sacrifício pessoal, arranjar uma lupa, confirmou a sua feliz suspeita: havia uma pulga que o acompanhava na reclusão.
A partir desse dia foi como se iniciasse uma nova vida. Passou a dedicar à sua companheira toda a sua atenção e o pequeno animal correspondia. Começou a ensinar-lhe pequenas habilidades, até que, com alguma paciència lhe conseguiu arranjar uns pequeníssimos sapatos de sapateado e lhe foi ensinando uns passos de dança. Aos pouco foi-lhe fazendo um mínusculo chapéu, uma ainda mais minuscula bengala e um asas-de-grilo a condizer. Aos poucos a coreografia foi-se tornando mais complicada, até que, ao fim de vários anos, o pequeno ser já era protagonista de um número muito bem conseguido, de grande qualidade artística.
Faltava então a Júlio um ano para sair em liberdade. Esse tempo foi passado em grande impaciência pelo homem, desejoso de mostrar ao mundo a sua obra. A pulga, dormia descansada na caixa de fósforos que o dono lhe tinha arranjado como casa e apurava-se nos ensaios.

No dia da libertação, Julio exultou. Pegou numa pequena mala com as poucas coisas que possuía, meteu a caixa de fósforos com o seu animal amestrado numa algibeira, e saíu rápido da prisão, mal se despedindo dos companheiros, a quem nunca desvendara aquilo em que se empenhara nos ultimos dez anos da sua vida. Correu para o café mais próximo e sentou-se ao balcão.

Chamou então a atenção de um individuo que ocupava o lugar ao lado e disse-lhe, ao mesmo tempo que abria a caixa de fósforos deixando sair a sua pulga, a qual imediatamente adquiriu uma postura erecta, indicativa de que o espectáculo se iria iniciar:

- Amigo, já reparou? Olhe aqui esta pulga!

O outro apurou a vista e exclamou:

- Olha! Pois é!

E foi então que apoiou a unha sobre o pobre animal e...TCHACK!
Escrito por: VdeAlmeida, em 6/09/2004 09:32:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
terça-feira, junho 08, 2004
Olhares


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Escreveu Sophia de Mello Breyner Anderson:

"Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor
"
in Obra Poética III

...E Luís de Sepúlveda:

"(...)A Mabel.
Com a passagem do tempo aprendi a esquecer as suas palavras olhos, a dimensão dos seus adjectivos lábios, a nítidez das suas mãos substantivos. Com a passagem do tempo, passou o tempo sobre os meus passos, e eu fui-me enchendo de esquecimentos que me foram esquecendo. A cidade de que falei já não existe, nem as ruas, nem a loja das mudas, nem as gravatas largas como remos, nem as palmeiras anãs, nem a atmosfera proustiana livre de decadências. Tudo sucumbiu. A música, o salão de bailes, o cão inclinado junto do gramofone. Tudo se perdeu, perdi. Perdeu-se há que tempos o inchaço do meu olho, mas permanece o hematoma da alma e alguma coisa falta, Mabel, alguma coisa falta, e por isso uma pessoa anda pela vida fora caminhando como um insecto coxo, como uma lagartixa sem rabo, ou coisa assim
."
in Encontro de Amor num País em Guerra

Interrogo-me sobre o que escreveria eu. Como se descreve o vazio? Pode-se?
Então prefiro responder com as palavras de Paul Eluard:

"Os meus altos estavam à minha altura
Andei por todas as minhas ravinas
E não duvido nada da banalidade da minha vida
Os meus amores cresceram num jardim jardim
As minhas verdades e os meus erros
Pude pesá-los como se pesa
O trigo que multiplica ao sol
Ou então o que falta no celeiro
Dei à minha sede a sombra de um pesado abismo
À minha alegria dei o poder compreender a perfeição
Da forma de uma jarra
"
in Últimos Poemas de Amor

Foto daqui

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/08/2004 09:35:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
segunda-feira, junho 07, 2004
Vem para mim


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Vem para mim,
Mas olha primeiro o mar.
Traz-me o seu azul
Reflexo no olhar
(com o cheiro da maresia)
De relance deita uma mirada
Rápido ao sol e
assim reterás o amarelo.
(com um aroma de canela)
Peço-te mais,
Que me tragas
o arroxeado do poente
(olorado por lilases)
E o verdejante dos vales
na Primavera
(com o sabor do alecrim).
Queria também
nos teus olhos
O terno e quente
alaranjado
(mais o cheiro do jasmim)
Com que se pinta o céu
Na alba de mais um dia
Desejado.
Contigo, vem o vermelho,
(com um aroma de violetas)
Nesses rios
que te escorrem do peito,
aberto em borbotões.

Vem para mim
Com esse corpo
esguio e anilado
Meu arco-íris
Sentido, vivo,
Belo e só por mim sonhado
Vem para mim
Com esse teu cheiro
De mil aromas feito
A amor amado

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/07/2004 10:22:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
domingo, junho 06, 2004
Todos diferentes...

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2b_italiangirl.jpg1_afghangirl.jpg

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...Todos iguais

Companheiros

Quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não tereri escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros

(Mia Couto)

Fotos daqui



Escrito por: VdeAlmeida, em 6/06/2004 04:49:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
sábado, junho 05, 2004
High Fidelity


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Revi o "High Fidelity" pela milionésima vez. É um dos filmes que mais tem que ver comigo. Gosto daquele humor subtil, gosto dos desencontros e duvidas amorosas de Rob Gordon (John Cusack), e aquela exacerbada melomania que o autor, Nick Hornby, transfere para o personagem é algo de notável. Só quem ama verdadeiramente a música pode entender uma catalogação de discos realizada segundo os ditames amorosos de Rob. Ou como diria Gainsbourg:


"Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d'une chanson"



Não me imagino a fazer semelhante experiência, a minha memória seria incapaz de tal tarefa e aquela associação seria demasiado complicada. Além de que a minha vida é demasiado sensaborona para se prestar a coisas semelhantes.
Mas guardo recordações, sim. Quando ouvi o meu primeiro disco do Leonard Cohen tive uma comoção quase tão grande como quando vi pela primeira vez as fotos da Heather Christensen para a Playboy (a minha quase doentia fixação por ruivas vem daí). Este é só um exemplo, e hoje é sábado, ninguém está para se maçar com estas minhas bizarras idiossincrasias.
Só que, tal como sugere Hornby, a música tem tudo a ver com o amor. Ou o imortal Brel não teria cantado:
"...
Quand on n'a que l'amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours
...
Alors sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains,
Amis le monde entier
"


Escrito por: VdeAlmeida, em 6/05/2004 08:24:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
sexta-feira, junho 04, 2004
Coisas Pequenas


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(Foto de Antonio Nunes)
Olho a água que já passou pelos meus dias.
Ergo pontes que os una, mas a bruma que deles se ergue torna-os intangíveis, obscuros.
Como Vadinho sarcasticamente observava Dona Flor com o segundo marido de cima do guarda-fato fora de moda, vejo-me também, estranhamente por fora porém isento de ironia, como se fosse a outro que visse.
O passado é um limbo do qual só se quer ver uma parte, mas a separação é anómala o que torna o esforço inglório, como o será também este estender de dedos que querem tocar o intocável, o que já se foi. São muitas coisas, pequenas, tão pequenas como grãos de areia que criam como que um todo inseparável
E a areia, essa, desce na ampulheta. Nunca sobe. Parece que não me apercebo disso. E por vezes tal ainda me espanta. Ocorre-me a frase de Karl Popper:
"Quase todos já tomámos consciência da surpresa que sentimos ao verificar que em França até mesmo as crianças de pouca idade falam fluentemente o francês"
Não há meio termo, o passado é uno e indivisível, por muito que só se queira ver as vagas brancas, lavando com o olhar do pensamento as negras. Fica sempre o cinza a pairar sobre a água corrente, sempre corrente. Um cinza mais ou menos claro, conforme o olhar lançado a cada dia.
E a certeza de que a vida é mesmo composta de coisas pequenas. Da qual o amor faz parte.

Coisas pequenas são
coisas pequenas
são tudo o que eu te quero dar
e estas palavras são
coisas pequenas
que dizem que eu te quero amar.

Amar, amar, amar
só vale a pena
se tu quiseres confirmar
que um grande amor não é
coisa pequena
que nada é maior que amar.

E a hora
que te espreita
é só tua.
Decerto, nao será
só a que resta;
a hora
que esperei a vida toda,
é esta.

E a hora
que te espreita
é derradeira.
Decerto já bateu
à tua porta.
A hora
que esperaste a vida inteira,
é agora

(Pedro Ayres Magalhães)

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/04/2004 02:01:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quinta-feira, junho 03, 2004
O João das Regras
João das Regras é o nome do meu gato.
Estranho? Nem por isso. João é porque o achei com cara de.
Das Regras, porque a vinda dele obrigou ao estabelecimento de umas poucas. A ele, mas principalmente a mim.
Para a manutenção da salubridade do espaço que partilhamos, impus-lhe um pequeno caixote, mantido debaixo de higiene impecável, como casa de banho. A mim impôs-me a noite dormida aos meus pés.
Como contrapartida para não continuar a afiar as unhas nos lados do meu sofá favorito, evitei-lhe o uso da coleira anti-pulgas que ele detestava.
Consegui que ele aceitasse com igual satisfação a fast-food, e alguma da que eu próprio como, quando a preguiça é tanta que não me apetece calçar para lhe ir comprar da dele. Como compensação, obriga-me a fornecer-lhe o prato às horas mais inconvenientes. E não me deixa dormir sem lhe encher a pequena tigela com leite fresco.
Também não incomoda o Rafael, um papagaio ao qual nunca consegui arrancar mais do que duas palavras seguidas. Embora nesta decisão tivesse pesado, mais que a sua vontade, a bicada que a ave lhe ferrou a 1ª vez que se atreveu a importuná-la.
É um gato anarquista, e, estranhamente, conseguiu regular um pouco a anarquia em que vogava a minha vida. Fiquei contrariado quando me invadiu a privacidade, foi-me oferecido por alguém a quem não podia dizer que não, mas acabou por se tornar transcendente no meu dia, e muita vez dou comigo a pensar como será quando se for. A idade avança, inexorável, e um dia ... E aflige-me pensar nisso.
Era um rolo de lã acinzentada, baça, quando mo apresentaram. Aos poucos foi-se transformando num magnífico felino, manteve a cor, que no entanto foi ganhando brilho proporcional ao comprimento que o pêlo ia atingindo. Escovo-o todos os dias, operação que vale algumas manifestações de amizade, e um ronronar de satisfação que me faz sempre sorrir.
No inverno, quando acendo a lareira, da qual, prudentemente ele mantém a distãncia, e me sento numa velha cadeira de baloiço a ler, inevitavelmente me salta para o colo, e dorme mansamente. Muita vez, fruto da posição mantida durante tempo excessivo, fico com um pé dormente, o que me obriga a movimentar. Isso constrange-me, detesto acordá-lo, e não raro dirige-me um olhar de reprovação que me faz sempre sentir culpado.
Perdido o viço da juventude, já não desaparece naquelas alturas em que a natureza animal o chamava a satisfazer os prazeres da carne. Quando acontecia, deixava-me preocupado, mas nunca lhe proibi as ausências. Não dava sinal de vida dias a fio e reaparecia magro e sujo, e miava, alto, maneira de demonstrar a satisfação que tinha em rever-me. Mas a minha alegria por saber que voltara, salvo, não duvido que suplantava a dele. Pelas marcas que sempre apresentava, os dias tinham sido agitados, e a descendência devia ter ficado garantida.
Nestes últimos tempos tornou-se na minha sombra, já não é tão independente. E parece preocupar-se comigo, fica triste quando me vê abatido, e manifesta-se alegremente quando me vê desanuviado. Às vezes dá a ideia que se pensa meu dono.
Também já me convenci é que é sensível à música. Quando o leitor de cd’s está ligado, não raro se vai pôr próximo das colunas, cabeça ligeiramente inclinada, ouvido atento. E tem cantores que aprecia. A guitarra e voz do Clapton têm ali um admirador.

Ultimamente tem andado particularmente sensível a esta. Rebola-se e emite uns miados suaves, quase gemidos, quando a ouve


Crazy,
I'm crazy for feeling so lonely
I'm crazy,
Crazy for feeling so blue
I knew
You'd love me
As long as you wanted
And then someday
You'd leave me
For somebody new.

Worry,
Why do I let myself worry?
Wonderin',
What in the world did I do?
Crazy for thinking
That my love could hold you
I'm crazy for trying
And crazy for crying
And I'm crazy
For loving you.

Crazy for thinking
That my love could hold you
I'm crazy for trying
And crazy for crying
And I'm crazy
For loving you.


Escrito por: VdeAlmeida, em 6/03/2004 10:14:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
quarta-feira, junho 02, 2004
Filmes de Terror e de...Culto


Nosferatu-.jpg


Há uns dias estreou por cá o filme "Van Helsing", que ainda não vi e que, ao que tenho lido, me parece uma obra menor pelo que não me atrairá, decerto,a uma sala de cinema. Vou esperar pois, que chegue aos clubs de vídeo.
Ao que consta, este filme, as suas personagens, foram baseadas nos monstruosos "heróis" das primeiras fitas de terror e do fantástico, das quais Murnau foi um dos percursores com o seu Nosferatu de 1922, uma obra prima do cinema que aconselho a todos os que gostam da 7ª arte e que ainda não viram.
Ora se o Van Helsing não deverá ter um interesse por aí além, os filmes que lhe serviram de base, sim. E aproveitou a editora para fazer uma edição especial das respectivas fitas, todos eles filmes de culto, numa colecção a preços reduzidos

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A maior parte destes filmes é protagonizado por Boris Karloff, uma das primeiras lendas de Hollywwod, e todos eles são bem interessantes e importantes para se conhecer algo do que foram os primeiros passos do cinema, neste género de filmes.
Vejam e divirtam-se.

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/02/2004 02:09:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
Corpo
O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.
(Carlos Drummond de Andrade)


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Foto de Andreas H. Bitesnich



Com o teu corpo descubro
Rios rebeldes
Que percorrem o meu
à desfilada
Em golfadas de sangue
negro e ardente
de paixão
No teu corpo descubro
Míriades de estrelas
E o mar em fúria
Desbravo montanhas
E sonho auroras-boreais
Sulco florestas
Desperto a imaginação
Em noites de pecado
E de cetim
No teu corpo
Encontro terra e lua
E Universo
Pelo teu corpo
Espalhado pelo chão
Até me encontro a mim

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/02/2004 09:24:00 da manhã | Permalink | | ( 0)Comentários
terça-feira, junho 01, 2004
Vida


B15.jpg


Queria agora poder beber um chá,
preto
Misturado com uma colher pequena
de cicuta
Depois arrepender-me
e logo seguir sobreviver
por um triz
Só para poder então dizer
Que afinal,
a vida não é meretriz

Escrito por: VdeAlmeida, em 6/01/2004 01:11:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
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