
Só volto hoje para vos dar notícias cá da minha rua e da minha ida às termas, porque me tenho andado a recuperar com um psicólogo. Já para não falar da fisioterapia. E a verdade é que eu acho que os cuidados do psicólogo já deviam estar a dar outros resultados, mas o gajo, de todas as vezes que lá vou, começa querer que lhe conte a minha história toda desde pequenino, quando os meus problemas sérios, só começaram há uns meses. Bem, mas como tenho agora um bocadinho, vou ver se dá tempo para vos contar alguma coisa do que se tem passado.
Aquilo das termas começou logo mal porque tive que levar a encomenda da tia da Elisa. Meti-a no banco de trás, mas a velha não deixava de espreitar pelo intervalo dos bancos para ver se eu me metia em avarias com a Elisa. E se me apetecia. A Elisa mal se sentou, para não amachucar o vestido, puxou-o para cima, e ficou com ele mais ou menos pelo pescoço! Quando metia a 4ª, a mão escapava-se mas ainda levei duas cacetadas que a velha me deu com a bengala, que até fiquei com os dedos negros.
Mas o pior foi quando me disse que eu tinha que parar para ela ir verter águas (sic). Lá escolhi um local resguardado, um eucaliptal ao lado de um campo onde andavam umas cabras a pastar e lá foi a velhota para trás de uma árvore. Mas a Elisa também quis sair e eu aproveitei para desentorpecer as pernas, E foi então que sucedeu a catástrofe. A Elisa deve ter sentido o chamado da natureza e toca de arremedar a Barbara Hendricks e cantar o Summertime. Quando soou a 1ª nota eu ia a sair do carro e apanhei um cagaço tão grande que dei uma cabeçada na quina da porta. Foi uma dor tão violenta que ia desmaiando, e só não caí porque me agarrei à porta. E foi nessa posição que assisti a tudo, pelo meio de luzinhas a acender e a apagar. A voz da Elisa fez tresmalhar as ovelhas e as cabras que corriam e pulavam, cada qual para seu lado e um dos bodes ficou tão furioso que deu uma valente marrada no pastor que estava a dormitar de lado, debaixo de um sobreiro. De certeza que o gajo se vai ver à rasca para se sentar nos próximos tempos. Bem, o homem acordou da pior maneira, com dois despertadores, um sonoro e outro táctil, não sei qual deles o mais doloroso. Quando se refez da surpresa e viu o caos que o rodeava, correu para nós com o cajado na mão e a gritar. Meti-me no carro e disse para a Elisa:
- Elisa, despacha-te que ainda levamos uma cacetada
- Espera, falta a titia. – Pois, faltava a dona Ermelinda, e é quando a vejo a correr para o carro com as cuecas pelos tornozelos, umas cuecas daquelas de gola alta que eu julgava que já não existiam. E vermelhas! Devia ser por isso que o bode vinha a correr de cabeça baixa, atrás dela! Tava a ver que ainda dava uma coisinha má à mulher. Cheguei a ter pena dela quando a vi cair no banco de trás naqueles preparos. Estava branca como a neve, tadinha. Mas sempre lhe fui dizendo:
- Agora não se esqueça de me mijar os estofos!
A velha ia-me matando e chamou-me uma quantidade de nomes.
E lá arrancámos, mas mesmo assim o sacana do pastor ainda me partiu o farolim direito traseiro. Aquilo começava logo a dar despesa e a deixar marcas.
O resto do caminho decorreu sem grandes incidentes e a chegada até foi agradável.
Depois de metermos as malas nos quartos (claro que a velha teimou em ficar com a Elisa), fomos visitar as instalações e marcar as sessões na piscina. Depois, fomo-nos mudar e quando vi a dona Ermelinda de fato de banho e com uma touca que parecia uma couve lombarda deu-me uma vontade de rir tão grande que a Elisa deu-me uma pisadela que até me vieram as lágrimas aos olhos. E foi quando limpei os olhos que me apercebi do espectáculo que era a Elisa de biquini. O biquini era proibido na piscina, mas o vigilante não estava capaz de dizer nada. Quando a viu com aquelas duas meloas apertadas uma contra a outra, ia tendo uma apoplexia. Até a mim me faltou o ar. E quando ela entrou na piscina e começou a nadar de bruços e eu vi aquelas duas bóias muito luzidias bem à frente dela...bem, nem queria acreditar Entretanto a dona Ermelinda tinha entrado no jacuzzi e estava:
- Ai! Ui!Ai!Ui! tanta borbulhinha. E rebolava-se e ria-se muito. Parecia o Castelo Branco a percorrer o caminho das pedras.
E foi quando me aconteceu o primeiro acidente: quando me cheguei à frente para ver melhor a minha canária, escorreguei, sei agora, no sabonete que o raio da velha se tinha lembrado de levar para o jacuzzi!!! Bem, sem querer dei um mortal com saída directa para o hospital. E foi lá que acordei, com aquele sorriso brilhante da minha Elisa a dar-me as boas vindas ao mundo dos vivos. Nem eu sabia o que ainda me esperava, que as dores na perna não me deixavam pensar em nada.
Bem, mas antes de continuar e a propósito do comportamento da tia da Elisa no Jacuzzi, quem anda parecida com ela desde o dia de Natal, é a mulher do Vidal. Não sei o que se terá passado, mas eu vou contar o que sei a ver se me conseguem ajudar.
O Vidal, como sabem, saiu muito mal tratado da última vez que se meteu naquelas folias nocturnas com a mulher, quando escorregou de cima do psiché e bateu contra as maçanetas dos pés da cama, com as partes baixas. E como é óbvio, nunca mais se voltou a meter naquilo, que eu bem tenho apontado os binóculos para lá, e aquilo, que dantes era sempre uma animação, agora é uma pasmaceira.
Ora uns dois dias antes do Natal, entrou no café 33 com um embrulho sobre o comprido, mais ou menos do formato das caixas com garrafas de vinho, com um grande laçarote cor de rosa, e o papel também cor de rosa brilhante com corações vermelhos. Enfim, uma coisa muito vistosa. E pediu ao Venâncio:
- Arranja-me aí um moscatel e duas pilhas das grossas.
E o Venâncio aviou-o
- Duas pilhas?- perguntei eu
- Sim, comprei uma prenda para a minha mulher - e apontou o embrulho - mas na loja avisaram-me que não trazia pilhas.
- Ai, sim? Então o que é que lhe vais oferecer?
Nessa altura, o Vidal que estava com o cálice na boca a beber o vinho, engasgou-se de tal maneira que lhe saiu moscatel pela boca, nariz, olhos e tudo. E ficou ali a estrebuchar vermelho como um tomate. Nunca pensei que uma pergunta tão inocente pudesse provocar aquilo.
O que sei é que ele depois gaguejou, mas não se abriu, não me contou o que tinha comprado. E eu que nem sou curioso, confesso que fiquei a morder-me todo.
Mas depois, com estas coisas do Natal, não me voltei a lembrar daquilo. Só me veio à ideia quando, no dia 26 à tarde passei pela Otília, baixinha e redondinha, que vinha a descer a rua com um grande sorriso e um ar muito feliz. De repente, ela parou, deu uns estremeções muito suspeitos, fez como a tia da Elisa:
- Ai!Ui!Ai! Uiiiiiiii!, (o último Ui, foi mais prolongado, como se verifica pela maneira como o escrevi) e depois continuou o caminho com um sorriso ainda maior. Espantei-me tanto que fiquei paralisado a segui-la com o olhar. E quando chegou à esquina, a mulher parou e repetiram-se os estremeções e os Ai’s e Ui’s (sempre com o último mais prolongado)! Bem, aquilo não podia ser Alzheimer, que não costuma dar em pessoas tão novas, nem costuma aparecer assim tão de repente
Fiquei a pensar se aquilo não teria a ver com a prenda que o marido lhe tinha posto no sapatinho! Que raio de coisa é que poderia ter aquele efeito?
Só sei é que agora, cada vez que a vejo é sempre o mesmo, e toda a gente já murmura aqui na rua e até já se fazem apostas sobre o motivo que a traz daquela maneira, mas ela não se descose e assim não podemos saber quem tem razão. Mas há hipóteses tão ordinárias em cima da mesa, que nem me atrevo a mencioná-las aqui, embora uma delas me pareça muito plausível. Leva pilhas e tudo!
Bem, mas adiante que tenho que ir para o psicólogo e já não tenho mais tempo para escrever, que cada consulta é um balúrdio.
Depois conto o resto da história das termas