















Uns dias de ausência, aproximam-se. O sol chama-me e eu não resisto à chamada, cumprindo um ritual que vem de há muito: uns dias sem fazer nada (continuando assim um hábito diário), nada de ginástica, só mesmo sol e mar e umas leituras que se põe em dia.
Aqui, talvez uma saltada fugaz, se houver algum cyber-café a jeito, para espreitar a caixa de correio.
Portanto sábado, este vosso amigo voa rumo ao sul. Mas até lá ainda haverá uma ou outra coisita aqui deixada. Quem sabe não farei a vontade a alguns e deixarei aqui mais uns "pedaços de mim"?
Mas por hoje ficam duas histórias exemplares.
A Inês ontem, ao comentar os pés dos meus "Pedaços", disse que gosta de olhos. Aqui fica uma pequena história do Mário Henriques Leiria, em que nos damos conta de como os olhos podem ter uma influência decisiva na nossa vida
Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
-És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia
A segunda já aqui tinha deixado, nos primórdios do meu antigo blog, mas não resisto a repeti-la, porque ela mostra bem como pode ser efémera a popularidade, e de como os tais "15 minutos de fama" podem, afinal, ter efeitos nefastos
Hugo, um rapaz de voz potente, preparou cuidadosamente a sua estreia como fadista.
O espectáculo decorria no Salão da junta de Freguesia.
Como era de esperar, foi um sucesso e o público, generoso, não lhe regateou aplausos.
Ovacionou mesmo de pé, clamando:
-Bravo! Bravo!Bis! Bis, Hugo, Biz Hugo, Biz...ugo! Bizugo!
Foi nessa altura que passou um gato e o comeu.

Se um qualquer nascer do sol tivesse forma
Só podia ser a tua de tão bela
Tu és lua e és cometa e és estrela
Dissolve-me o olhar
nesse teu corpo
Imagina, ânsia de ti
meus dedos leves
Os lábios sequiosos
de sabores
Perdendo-se em
teus recantos olorosos
Fantasia lençois rubros
de emoção
Suores correndo juntos
como um rio
Dá livre curso
à imaginação
E assim iremos nós
mesmo apartados
Viver noites sedosas
de paixão
Foto daqui
Nunca consigo entender
Porque há-de o homem sofrer
Desta maldade suprema
Que é medir cada segundo
Que ainda tem para viver
Tanto que nós nos queixamos
Que o tempo nos foge
Entre os dedos
Que para rir, para amar
precisamos
De tempo, tempo e mais tempo
E para viver e sonhar
É sempre pouco o que temos.
Não nos basta a todos já
que o dia à noite suceda
em imparável sucessão
Dando-nos assim a noção
Fatal e inevitável
Que quanto mais os dias correm
Menos tempo a nós nos sobra
Para o que é indispensável
Para que haveremos então
De o querer encerrar
Numa caixinha metálica
Para o analisarmos, medirmos
Até à ínfima fracção?

Perfazem-se hoje 100 anos desde o dia em que nasceu Pablo Neruda, o imortal autor d'Os Versos do Capitão, o poeta do amor. Nós que lhe amamos as palavras, não o deixaremos nunca morrer.
"Aquí te amo
En los oscuros pinos se desenreda el viento.
Fosforece la luna sobre las aguas errantes.
Andan días iguales persiguiéndose.
Se desciñe la niebla en danzantes figuras.
Una gaviota de plata se descuelga del ocaso.
A veces una vela. Altas, altas estrellas.
O la cruz negra de un barco.
Solo.
A veces amanezco, y hasta mi alma está húmeda.
Suena, resuena el mar lejano.
Este es un puerto.
Aquí te amo.
Aquí te amo y en vano te oculta el horizonte.
Te estoy amando aún entre estas frías cosas.
A veces van mis besos en esos barcos graves,
que corren por el mar hacia donde no llegan.
Ya me veo olvidado como estas viejas anclas.
Son más tristes los muelles cuando atraca la tarde.
Se fatiga mi vida inútilmente hambrienta.
Amo lo que no tengo. Estás tú tan distante.
Mi hastío forcejea con los lentos crepúsculos.
Pero la noche llega y comienza a cantarme.
La luna hace girar su rodaje de sueño.
Me miran con tus ojos las estrellas más grandes.
Y como yo te amo, los pinos en el viento,
quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre".
(Vinte Poemas de Amor e uma Canção de Desespero)
"Os teus joelhos, os teus seios,
A tua cintura,
Faltam em mim como no côncavo
duma terra sedenta
a que retiraram
uma forma,
e, juntos,
estamos completos como um só rio,
como um só areal."
(Os Versos do Capitão)

Ao reler uma Antologia Poética de Natália Correia, deparei-me com um poema, mordaz, que a poetisa dirigiu a um deputado que me excuso de referir o nome - ela o faz - , originado por tomadas de posição diversas em relação ao aborto . Penso que terá sido a primeira vez que essa problemática terá sido debatida na Assembleia.
Agora, passados 22 anos, é curioso verificar que ainda há quem mantenha as mesmas posições retrógradas sobre o assunto, e que ainda haja mulheres presentes a tribunal por terem cometido a "infâmia".
" O acto sexual é para fazer filhos" (sic), disse o tal deputado
Aqui fica então a resposta de Natália à hipócrita declaração
"Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino
preciso e imaculado
fazer menino ou menina;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado"
Pintura de Tamara de Lempicka daqui

2 - Leio John Donne a quem prezo e em quem acredito. E para que conste que se não deve amar, sob pena de se poder morrer desnecessariamente, aí fica um poema dele:
O Paradoxo
Amante nenhum anuncia "Amo"
Ou imagina haver amante outro perfeito;
Não pensa que além de si existe quem possa amar, nem aceita
que alguém ame, excepto ele próprio:
Eu não posso dizer que amei, pois quem poderá dizer
Que foi assassinado?
O amor mata o jovem mais com excessos de calor
E o velho com demasiado frio.
Morremos apenas uma vez, e quem amou foi o último a morrer,
Quem o diz duas vezes agora jaz:
Pois ainda que parecesse mover-se e agitar-se um pouco
Enganava nossos sentidos.
Esta vida é como a luz que ainda brilha
Quando a luz da vida já se encontra extinta,
Ou como o calor duas horas depois já apartado
do fogo sólida matéria.
Amei e morri uma vez; agora me tornei
Minha própria tumba e epitáfio.
Aqui os mortos dizem suas últimas palavras, e assim eu também,
Morto de amor, vê, aqui jazo.
3 - Falta-me a música. Ouço Lisa Ekdal, Heaven, Earth and Beyond

Esta voz tem o dom de me serenar. Take my pain away. Quase adormeço, e no entanto, ela não me deixa dormir. Porque me mantem as emoções despertas. Esta voz acaricia-me a pele, como uma mão de seda, como se tivesse dedos de veludo. Logo, deixo aqui as palavras que ela me sussurra ao ouvido.
Agora não estou aqui. Estou noutro qualquer lugar, para lá do horizonte. Sonho.
Cá ficam as palavras ciciadas:
This night
I awoke
Out from dreams
Of tall cascading fontains
Of love
I'm floating like a dove
Covered from above
With fountains of love
And you
Fly with me
Through a scene
Of deep caressing rivers
Of love
Soft as a dove
It's you i'm dreaming of
With rivers of love
Flowing from above
Knowing only of
Rivers of love
(Salvador Poe)

Breakfast en Bed by Mary Cassatt
Nessa altura, o cientista fez uma grande demonstração da descoberta a um Congresso Internacional de Astronomia. Mas ninguém o levou a sério, por causa da maneira como estava vestido.
Felizmente, para a boa reputação do Asteróide B-612, um ditador turco lembrou-se de impor ao seu povo, mas impor-lhe sob pena de morte, que passasse a trajar à ocidental. O astrónomo tornou a fazer a demonstração em 1920, agora muito bem posto. E toda a gente a aceitou.
Se vos contei isto tudo sobre o asteróide B-612 e se vos confiei o número dele, foi por causa das pessoas crescidas. As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falam de um amigo novo, nunca perguntam nada de essencial. Nunca perguntam "Como é a voz dele? A que é que ele gosta mais de brincar? Faz colecção de borboletas?". Em vez disso, pergunram:"Que idade tem? Quantos irmãos tem? Quanto é que ele pesa? Quanto ganha o pai dele?" Só então julgam ficar a saber quem é o vosso amigo. Se contarem às pessoas crescidas:"Hoje vi uma casa muito bonita de tijolos cor-de-rosa, com gerânios nas janelas e pombas no telhado..." As pessoas crescidas não conseguem imaginá-la. Precisam de lhes dizer:"Hoje vi uma casa que custou 500 mil euros" Então já são capazes de a admirar "Mas que linda casa!"
(Le Petit Prince - Antoine St-Exupery)
Deixa-me voltar
a ser como tu
Ingénuo, puro
Inocente
Tira-me esta lente
Que me distorce
O olhar
E não me deixa distinguir
O essencial
Da insignificância
Tu, criança
Que tão bem
sabes ver
De tudo a real
importância
Ensina-me a mim
como se deve viver

Hoje quero-vos dar conta de uma coisa que, nos últimos tempos me tem entristecido ao percorrer esta minha Lisboa
Passo pelos cruzamentos desta nossa cidade, e raro é aquele em que uma mulher, nova, morena, muito morena, de vestes compridas e antiquadas e debraçando invariavelmente uma criança, não se dirige às viaturas paradas pelo sinal vermelho, de mão estendida, em busca de uma moeda.
Li aqui há tempos que se trata de mulheres de etnia cigana, originárias da Roménia. Acreditei, claro.
Entendo que as pessoas saiam dos seus países em busca de melhor vida. Além de sermos um país de emigrantes, os minhas ideias universais levam-me a não gostar muito de fronteiras desenhadas por guerras ou ideais hegemónicos. Além de que, nunca se me manifestou qualquer laivo de xenofobia.
Já entendo menos que as pessoas saiam das suas terras de origem para subsistir através da mendicidade. Li que seriam costumes ancestrais. Pois, a tourada também o é e eu considero a tourada uma barbaridade. E a pena de morte, no séc XIX também o era. Até ser abolida na maior parte dos países. Ou a escravatura.
Agora o que não entendo nem aceito é que se use uma criança para tal propósito. Li até, que algumas dessas crianças não serão filhas das mulheres que as carregam e sim alugadas para servirem de isco à bondade alheia. Nisto, nem sequer quero acreditar.
Sei é que este tipo de mendicidade, em que a criança é utilisada como intolerável chantagem emocional, é proibida por lei. E não vejo as autoridades tomarem qualquer medida. Em contrapartida, e por todo o lado, carros bloqueados são mais que muitos
A mendicidade sempre me doeu. Mais ainda, constatar que o estado, a quem deveria competir a resolução deste flagelo, muito pouco ou nada faz para o resolver. E neste caso, em que estão a ser utilisados crianças de uma maneira quase obscena, parecem mesmo fechar os olhos e assobiar para o lado.
As crianças, não só no caso Casa Pia, devem ser protegidas de todas as formas. E é ao estado que tal compete em primeira instância. Já bem basta não os terem sabido proteger quando os tinham à sua guarda.
...Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz
Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também
Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego
Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção...
(Zeca Afonso)
Foto daqui

Intervalo amoroso
O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?
Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?
Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?
Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?
O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?
(Affonso Romano de Sant'Ana)
O excedente do tempo,
sem amor
É oco, sem expressão,
falta-lhe a vida,
a cor
O lençol sem dois corpos
em pulsão
É mortalha, é só pano
triste,
oco de paixão
O leito, deserto,
Não é palco de nada
de importância
É só mais uma peça
que compõe
O quadro monótono
do dia
Por isso,
De uma cama vazia
Não quero
Nem estar perto

A trampa dos cães de Campo de Ourique, deve ser a mais cantada de todas as trampas de animais domésticos que eu conheço.
Acho até que é já uma lenda tendo tido mesmo honras de coluna de jornal.
Há anos que passo por estas ruas e já cheguei à conclusão que são esses dejectos o principal perigo deste bairro, maior que os assaltos, pior que os roubos de auto-rádios ou do que os riscos de atropelamento.
Isto porque se queremos chegar a casa de solas de sapato incólumes, sem o perigo de levarmos uma descasca se não limpamos devidamente os pés antes de entrar, porque sujamos e empestamos a casa, temos que fazer o nosso percurso com atenção, sempre alerta de olhos na calçada, mas com o perigo inerente de termos um indesejável e doloroso contacto com algum candeeiro. Portanto, é caminho feito com um olho no burro outro no cigano (que me desculpem os ciganos, mas o ditado é assim mesmo)
Está visto que, embora goste muito de animais, não sou excessivamente admirador dos canídeos. Acho-os, a uns demasiado solícitos, a outros demasiado agressivos.
Anteontem, estava eu sossegadamente a tomar a minha bica da manhã sentado na mesa do café e a percorrer, descuidadamente as más novas do nosso futebol. Sentia-me bem, apesar da desgraça de domingo, em paz com o mundo e este estado de espírito deu-me para a bonomia, e estendi a mão para afagar um lulu que se passeava por perto, solto da trela da dona.
Que raio de ideia! O safado tomou confiança, começou a roçar-se e às tantas, estava de pé a abraçar a minha perna, convencido que tinha encontrado a companheira da vida dele. Sacudi-o duas ou três vezes, mas parecia que estava grudado.
Valeu-me o Luís, que com uma bengalada bem assente no lombo o fez soltar-me a perna e uma dorida ganidela. Ainda bem que a dona estava distraída a ver as revistas na banca de jornais ao lado, porque senão, tinhamos discussão.
Um aparte para dizer que o Luís usa a bengala por uma questão estética e não por qualquer problema físico. Foi um tio que lhe deu o adereço, ele viu-se ao espelho, apaixonou-se pelo que viu reflectido, e pronto. Ainda arranjou umas desculpas, uma lesão esquisita qualquer num músculo da perna, mas ninguém acreditou.
Voltando à vaca fria, ficou-me de emenda, nunca mais me atrevo a ter novo gesto de condescendência para com outro cãozinho.
Claro que no caso dos “sinais” mal-cheirosos que deixam nos passeios, são os seus donos os únicos responsáveis.
Mas definitivamente, fiquei a preferir os gatos. Gostos!
P.S.- Aquela bengalada mexeu comigo. Lembrei-me do Eça e de como seria bom podermos seguir o conselho dele e correr, dessa maneira dolorosa, com certos políticos lambusados de brilhantina com aspirações a tudo o que é tacho, desde que o seja. É que se a porcaria dos cães do meu bairro me exaspera, me suja os sapatos se não me acautelo e me empesta a casa se me descuido, a omnipresença dos visados desdobrando-se em declarações de competências que não têm, em tudo quanto é sítio, já me anda a causar urticária.
Estou a ver que acabo por esgotar o meu stock de calmantes só para não stressar com a presença dos sujeitos.

Não há mais cartas de amor
Não mais as vais receber
Assim, vais ficar certa que
Não há mais nada a dizer
Que tudo já foi dito
Que já não me inspiras.
Que as tentativas
saem todas frustradas
Que é tudo em vão
Que as minhas musas
já não existem
Matei-as todas
e enterrei-as
com uma destreza
inhabitual
Num canto escuro
da minha imaginação
Nada, não há mais nada
É o vazio absoluto
E mesmo assim,
Ao arrepio da pesada decisão
Ainda pego nesta carta
Para te mandar
Estas linhas a dizer-te
Que o céu está liso
Mas eu tenho a alma de luto
E agora, com tudo
medido e decidido
Afinal a conclusão
a que chego
É a de que sou um
Mentiroso compulsivo
De que sou
Uma mistificação
"Apaixonamo-nos. Desatamos a escrever cartas insensatas que, dificilmente, têm uma resposta. Escrevemo-nos para dizer, um ao outro, que jamais será possível voltar - juntos e em silêncio - ao lugar da noite onde nos destruímos e tentámos refazer a vida "
Al Berto
Foto daqui

Um dia descobri
sózinho
Que os pássaros
não cantam só por ti
Que os dias húmidos
e perfumados de primavera
Não o são
Porque existes
Descobri por mim
Que o arco-íris
que sobrevoa o açude
claro e saltitante
Com cheiros frescos
mesclados de jasmim
Está para além
da cama onde
comigo fazes amor
E que o sol
não se põe hoje
E volta pela manhã
mais pujante porque sabe
da tua sede de calor
Não, o mundo
não gira só por ti
E no entanto,
perante esse sorriso
espantoso de alegria
que me suaviza a dor
E me acalma
Te digo
que continuas
a ser a minha luz
na noite escura
A minha alma
WE ARE THE
CHAMPIONS
Onde queres que estejas, Martin Luther, desculpa o abuso da tua frase para desígnios tão simples
Coppolla
A vida vai em frente. Mesmo que por vezes nos pareça querer parar. Ontem foi um dia de perdas. Mas hoje é outro dia e aqui deixo umas sugestões para um sábado de preguiça
DVD do dia: "One From The Heart", o maravilhoso filme de Francis Ford

Soundtrack:
A do filme, claro. A que poderão juntar o "Home", de Ciara Mastroianni e Benjamin Biolay. Um disco na linha dos de Serge Gainsbourg com a Jane Birkin.
Canção do dia: Pour un Flirt Avec Toi cantado pela Jane Birkin
Livro: Hoje não leio!

O País hoje ficou mais pobre.
Deixou-nos uma das maiores poetisas mundiais de sempre, Sophia de Mello Breyner Anderson. Por ela, para ela, as suas palavras. Ímpares.
As Ondas
As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.
Mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua
Espera
Dei-te a solidão do dia inteiro.
Na praia deserta, brincando com a areia,
No silêncio que apenas quebrava a maré cheia
A gritar o seu eterno insulto,
Longamente esperei que o teu vulto
Rompesse o nevoeiro
Promessa
És tu a Primavera que eu esperava
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante
Em nome
Em nome da tua ausência
Constuí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei

Ciúme.
Leve?Não!
Dorido, torturante
Ciúme
Do lençol que dorme
sobre ti
Ciúme.
Impiedoso, intenso
Da seda da camisa
Que te beija
o peito
Ciume.
Estranho, suspenso
Das meias,
Que te acariciam
as coxas
Ciume.
Pesado, denso
Do sol que de manhã
Te aquece
a pele macia
Do beijo que te dou
E em ti fica
Enquanto eu vou
Ciume.
Dos olhos que te vêm
E ouvidos que te escutam
Da brisa que te afaga
Ciume que doi
E quase mata
Um ciume estranho
Exacerbado
Ciúme violento
Até do teu passado
Foto daqui

Vinham-me ás narinas cheiros mesclados, do tojo, da terra húmida pela ligeira poalha que tinha caído há menos de uma hora, até odores cítricos de um laranjal por colher, mesmo ali ao lado.
Mas era sobretudo o cheiro do seu pescoço, o habitual odor a alfazema de lavado de fresco, que se impregnava em mim com a força de vício.
Tinha uma quase veneração por aquele cheiro. Por aquele e por outros dois, o dela tão característico, de fêmea e o dos dois, do amor acabado de fazer. Sempre achei que se pudesse guardar aquelas fragrâncias juntas num pequeno frasco, este não mais me abandonaria e seria o aroma perfeito.
Abri os olhos e olhei-a. Estávamos deitados num pequeno relvado que se tinha formado naturalmente por baixo de um salgueiro cujas ramagens densas quase roçavam o chão, mesmo junto ao ribeiro, de que ouvíamos o rumorejar, o saltitar irrequieto de fraga em fraga. Tinhamo-nos ali recolhido do chuvisco e não resistíramos à ocasião. Eu hesitara, mas ela cantou-me Brassens:"Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants, Ne crois pas au cimetière, Il faut nous aimer avant, Il faut nous aimer sur terre, Il faut nous aimer vivants. Tu sors pas du monastère, Moi, je sors pas du couvent". A verdade, é que eu estava ansioso por me deixar convencer.
Ela tinha os olhos fechados e estava virada para mim, o braço direito passava-me pelo peito e massajava-me suavemente o lóbulo da orelha, friccionando-o suavemente entre o polegar e o indicador, deixando-me arrepiado. Sentia o morno da sua coxa morena deitada em ãngulo recto sobre as minhas pernas. Não resisti a uma carícia e senti na ponta dos dedos aquela penugem incipiente que lhe emergia da pele fina. Abriu os olhos, aqueles olhos que pareciam sempre espantar-se com o mundo, e sorriu. Nunca a tinha visto sorrir assim. Nunca mais esqueceria aquele sorriso.
- Já sentiste este cheiro, Marília? Não sentes a sua falta em Paris?
- Vou todos os dias a pé de Montmartre até à Madeleine só para sentir o cheiro das flores no ar. Quando posso, vou aos Jardins do Luxembourg. Mas não é a mesma coisa, disse com uma voz quase triste. Vou ser eternamente rústica.
Tinha mudado muito. Pouco ultrapassara a instrução básica, mas era uma auto-didacta e tinha conversas surpreendentes.
- Gostas de poesia? perguntou - Na verdade, na altura era pouco dado a lirismos, estava vocacionado para interesses mais mundanos.- Lá, num café ao pé da casa onde moro, às 2ªs feiras lê-se poesia. É uma coisa fora do vulgar. Sinto-me diferente, livre, quando os ouço.
- É isso que te dá o sentido de liberdade de que agora dás mostras? Ou é a vida de lá que é menos convencional?
- É tudo isso. Também não conheces a musiquinha do Brassens em que ele conta a história da menina que vai tomar banho à nascente, e à qual o vento atira a roupa para longe, e que então, à vista do homem que a observa, se faz muito envergonhada? Não? Depois acaba assim:"Le jeu dut plaire à l'ingénue, Car, à la fontaine souvent, Ell' s'alla baigner toute nue, En priant Dieu qu'il fit du vent, Qu'il fit du vent..."- E riu-se. Com aquele riso descarado e cristalino, inconfundível, que me deixava rendido.- Sabes? já não és tão desajeitado. Ao princípio eras mesmo principiante nestas coisas.- E voltou a rir-se. Corei, envergonhado.- O mal das pessoas é a hipocrisia com que encaram coisas simples da vida, como o amor e o sexo. Eu nunca o farei, o meu sentido de liberdade como lhe chamas, é assim que se expressa.
- Amo-te - creio que foi a primeira vez que disse tal coisa a alguém.- Para sempre, Marília.
- Avec le temps...avec le temps, va, tout s'en va, on oublie le visage et l'on oublie la voix, le cœur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien. Avec le temps on n'aime plus. É do Ferré. Nunca te esqueças do que ele diz.
Mas eu esqueci. Ou quis esquecer. Nunca quis acreditar que não pudesse haver amores eternos.
É verdade que com o tempo, com a distância cavada entre nós, deixei de amar a Marília. O sentimento foi-se esbatendo, foi-se transformando num imenso carinho, numa recordação extraordinariamente bela. Ficaram-me episódios, gravados fundo na minha alma, todos ternos, excepto o da partida. Mas desse não vou falar agora.
Agora só falo daquela tarde que acabou em versos ditos de cor, misturados com beijos molhados e ávidos, como ávido era o nosso desejo adolescente, que nos fazia suar, pele com pele, quase violentamente, como se nos quiséssemos fundir um no outro.
Acabou com a roupa amarrotada e suja pelo amor ansioso e, na chegada a casa, com justificações adoidadas para o desatino.
Acabou com o cheiro dela a tomar conta de mim de maneira tão intensa que nessa noite, apesar de não estar nada asseado, disse não ao banho, só para ter o consolo de a ter mais um pouco comigo, de poder assim dormir com ela.
P.S.- Há cheiros persistentes. Os daquele dia ainda estão muito presentes em mim