Novos Voos - Take Two

Terça-feira, Maio 31, 2005
Música e outros desafios
Os últimos dias têm sido pródigos em desafios. Pelo menos três, um da minha Viajante preferida (já esperava, depois da literatura e do cinema, faltava mesmo a música), outro da minha Amiga Ana 100Tretas (uma coisa complicada, que ainda não sei como me vou desenvencilhar, mas que pode dar algo de muito divertido), and last but not least, da minha especial Amiga, a sempre carinhosa Jacky (este para um texto)


Mas vamos por ordem, e assim começo hoje pelo desafio sobre música
Aí vai então, Viajante:

Tamanho total dos arquivos no meu computador?
Não tenho uma ideia precisa, mas rondarão os 15 Gb

Último disco que comprei:
Diria antes os últimos. Uma colectânea do Ian Dury que procurava há uns tempos, outro também antigo, Marquee Moon, dos Television, o Cold Roses, do Ryan Adams, e Nova Scotia dos Cousteau



Canção que estás a escutar agora:
O Punishing kisses, da Ute Lemper

5 canções que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim

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Lucy in the Sky with Diamonds - Beatles
Suite, Judy blue eyes – Crosby, Stills and Nash
Riders on the storm – Doors
Heart of gold – Neil Young
Forbidden colours – David Sylvian
Acrescento mais:
Strange kind of love – Peter Murphy
Amie – Damien Rice
Hallellujah – Jeff Buckley
Henry Lee – Nick Cave & P.J. Harvey


Nem sei se me atreva, mas como alguém disse para aí, que se lixe, e vou mesmo desafiar os seguintes bloggers:

Lina, do Um Olhar Sobre...porque nunca lhe perguntei isto e ela também não me contou
Sofia, do Concrete Sky, porque é uma melómana inveterada e tem muito bom gosto
Amie, da Máquina de Café, porque diz que “não consegue viver sem música”
Inês, do Umbigo, porque embora já sabendo umas coisas através do blog, quero saber mais.
Corpo Visível, do Corpo Visível porque já sei que curte o Ian Curtis, mas quero saber mais

E agora, vou avisar os “felizes” contemplados!

Nota - Ainda a propósito de música, ando a pensar em abrir um blog só dedicado a ela. Isto é uma ameaça!

Domingo, Maio 29, 2005
Portugal vs. Brasil

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Pequena conversa numa das maiores livrarias de Lisboa, há uns dias atrás:
- Tem o último livro do Jô Soares?
- Qual? “O homem que matou Getúlio Vargas”?
- Não. O último mesmo: “Assassinatos na Academia Brasileira de Letras”.
- Hum...não, esse não.
- Nem prevê quando terão?
- Não. Deve estar em fase de tradução!
- ????


Desiludido penso: caramba, cada vez nos distanciamos mais!

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Mas depois, passo os olhos por um dos livros de pequenas histórias do Alçada Baptista, e leio uma delas, que é mais ou menos isto:

Um amigo meu, diplomata brasileiro, é destacado para a embaixada do seu país em Haia. Chegado á cidade à noite, na manhã seguinte, apressa-se a telefonar para o Embaixador. Responde-lhe o porteiro:
- Não está.
Conhecedor da hierarquia da embaixada, foi inquirindo na tentativa de falar com alguém, mas a resposta foi sempre a mesma:
- Não está.
Farto da resposta repetida, inquire:
- Mas ninguém trabalha de manhã?
- Não, de manhã não estão. De tarde é que não trabalham!


Respiro aliviado: Afinal, nem tudo está perdido!

Sábado, Maio 28, 2005

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Quando no dia 28 de Maio de 1996, há precisamente nove anos portanto, me levantei para ir como em qualquer outro dia, para o escritório, e embora algo cá dentro me dissesse que não ia ser um dia igual aos outros, nunca pensei que acabasse por se tornar um dia tão marcante na minha vida.
Foi o dia em que nasceste, e a partir desse dia, nada mais foi igual. Quando me ligaram a dizer que tinhas nascido, larguei tudo e corri para a Estefânia. Acho que nunca conduzi tão depressa através da cidade como naquele dia.
Quando te vi através do vidro que me separava dos recém-nascidos, “conheci-te” logo. Só podias ser aquele. Não sei o que me fez “adivinhar-te”, mas aconteceu. E achei-te um espanto. Diziam-me que eras feíozinho, que parecias um joelho. E que não era de admirar, que todos os bebés acabados de nascer eram assim, e que ainda por cima, te tinhas adiantado na vinda.
Mas eu nunca concordei com nada disso. Achava-te o miúdo mais bonito que conhecia. E nunca mudei de opinião até hoje, embora há três anos e tal tenhas companhia nessa minha apreciação.
Depois, foi o crescimento, o ver-te modificar, o ganhares carácter, tornares-te um rapazinho ponderado, por vezes até demais para a tua idade, inteligente sem sobrancerias e sempre diligente nos teus estudos.
E sinto um orgulho enorme por seres assim, sobretudo pela força serena com que ganhas o direito à vida, depois de ela te ter pregado uma partida que não estava no nosso horizonte, mas que tu tens vencido, batalha atrás de batalha, até ao dia em que vencerás a guerra, como eu sei que vencerás.

Do amor que te temos, já há muito que sabes dele. Mas hoje, no dia em que completas nove anos, queria deixar junto com ele, também a expressão de grande admiração que todos temos por ti.

Parabéns, meu querido, que a vida te dê tudo e sejas sempre muito feliz, porque o mereces muito.

Sexta-feira, Maio 27, 2005
Reflexo

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Cansado da errância,
exausto da viagem
procuro na distância
a tua imagem
E alongo o olhar ,
em busca do descanso desejado
que só consigo encontrar
do teu lado
Estende-me os braços
suspende-me do teu corpo
deixa acostar os meus navios
no teu porto,
devolve-ne a paz na madrugada
entre suspiros, desejos satisfeitos
e abraços



Foto sobre foto de Paulo Bizarro

Quarta-feira, Maio 25, 2005
Post para um feriado de praia

BLACK IS BEAUTIFUL


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...e porque o Verão já chegou, e uma onda de calor varre a cidade, e o tempo não está para prosas muito complicadas.
E porque amanhã é feriado e o corpo pede um bronzeado dourado, da cor das praias de Angola, cantadas pelo Chico Buarque, aí fica um post levezinho e a letra da canção

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?
Será que a morena cochila
Escutando o cochicho do chocalho?
Será que desperta gingando
E já sai chocalhando pro trabalho?
Será que ela tá na cozinha
Guizando a galinha à cabidela?
Será que esqueceu da galinha
E ficou batucando na panela?
Será que no meio da mata
Na moita, morena ainda chocalha?
Será que ela não fica afoita
Pra dançar na chama da batalha?
Morena de Angola que leva
O chocalho amarrado na canela
Passando pelo regimento ela faz requebrar a sentinela?
Será que quando vai pra cama
Morena se esquece dos chocalhos?
Será que namora fazendo bochincho
Com seus penduricalhos?

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Será que ela tá caprichando
No peixe que eu trouxe de benguela?
Será que tá no remelexo
E abandonou meu peixe na tigela?
Será que quando fica choca
Põe de quarentena o seu chocalho?
Será que depois ela bota a canela no nicho do pirralho?
Morela de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Eu acho que deixei um cacho
Do meu coração na catumbela
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA
Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Terça-feira, Maio 24, 2005
L.



A minha relação com L. sempre foi invulgar. Parecíamos estar sempre numa espécie de equilíbrio instável, tínhamos uma relação “quase”. Quase fomos namorados, quase fizemos amor...sempre quase.
Mas estranhamente parávamos também sempre à beira de uma tomada de posição que tornasse tudo mais definitivo. E mais estranho, porque isso sempre me pareceu, da parte de ambos uma decisão inconscientemente deliberada, e não fruto da indecisão de nenhuma das partes.
Quando estávamos na presença um do outro, sentia que algo de muito forte estalava, como uma tempestade daquela que faz rebentar raios por todo o lado, uma espécie de tumulto eléctrico. A química era forte e talvez por isso evitássemos, a maior parte das vezes, estarmos sós, embora paradoxalmente, quando estávamos em grupo, nos tentássemos isolar.
Penso que seria por sentirmos que éramos demasiado parecidos em muitos aspectos. E assim, conhecíamos do outro, os fracos, exactamente os nossos.
Todos os sábados e domingos reuníamos o pequeno grupo e arranjávamos sítio para dançar, excepto no verão, em que a praia era destino certo. Todos gostavam, mas creio que a dança era só um pretexto para um acirrar de instintos e pulsões. Por vezes, e certamente por causa dessa época da minha vida, me identifico tanto com o Rob Gordon, a extraordinária criação de Nick Hornby para High Fidelity. Porque por vezes me vem à cabeça uma ou outra situação concreta vivida ao som de uma música bem determinada.
Como naquele domingo. O Verão anunciava-se com uns dias de canícula primaveril, e a nossa ida nessa tarde de domingo era a uma discoteca, acessível que as semanadas não eram elevadas, e bem aconchegada. Que é como quem diz, suficientemente escura para permitir um certo número de pequenos atrevimentos. Inocentes, claro.
L. chegou e trazia uma saia quase branca, muito leve, parecia uma mistura de algodão com seda e cingia-lhe a cintura com um elástico pouco apertado. Caía-lhe perfeitamente pelas ancas, e pronunciava-lhe o redondo das nádegas, onde se reconhecia a marca das cuecas. Usava uma blusa fresca, com um decote que deixava à mostra grande parte do peito. L. parecia usar sempre uns soutiens dois tamanhos abaixo do que devia, porque lhe apertavam os seios um contra o outro, de modo que entre os dois, parecia não caber uma folha de papel. Aquela, era talvez a sua imagem de marca, e eu percebia porque raramente os outros rapazes conseguiam falar com ela sem que os olhos se lhes fixassem naquele local, como que hipnotizados. Até eu, a quem aquela visão já era familiar, sentia fugir-me muitas vezes os olhos para lá. E ela percebia bem a tentação com que acenava. Sorria sempre com um sorriso atrevido, e compunha a blusa, para lhes dar o devido destaque.
Na discoteca, muito escura, o ambiente era suavizado pelo ar condicionado. Naquele dia, L. não aceitou solicitações de mais ninguém e preferiu dançar sempre comigo, o que, de certo modo me embaraçou. Além de me deixar em situação delicada junto aos outros, porque ela era par desejado por todos, o contacto constante com aquele corpo morno e cheiroso, deixava-me quase indecentemente excitado. Dançávamos sempre muito apertados, como se de um tango se tratasse. Mas naquele dia a pressão dela era ainda maior, e a certa altura tive a sensação que lhe ia sair pelas costas, tal a forma como nos fundíamos um no outro.
Depois de uma breve pausa, ecoaram as primeiras notas do A Whiter Shade of Pale, dos Procol Harum, uma canção muito antiga, mas que para ambos tinha uma espécie de magia, era como se fosse “a nossa música”. Ela levou-me para um canto mais escuro da sala, cingiu-se a mim ainda mais fortemente. E eu senti-lhe os seios rijos contra o peito, e as pequenas gotas de suor que lhe perlavam o pescoço. Naquele embalo, não resisti e beijei-lho. Mas ela já estava excessivamente excitada para se contentar com aqueles jogos, quase ingénuos. Puxou-me a cabeça e meteu-me a língua na boca, em explorações em que nunca até então se aventurara. E não parava, mordia-me os lábios, e voltava a entrar-me pela boca, quente como uma brasa. Por essa altura, já estávamos os dois demasiado ocupados um com o outro, para que nos preocupássemos com mais alguma coisa. Foi como se o resto deixasse de existir, e nem tínhamos noção de que estávamos num local público. Já não dançávamos, limitávamos a mover o corpo ao ritmo das nossas bocas, até que ela se virou quase de costas para mim e me puxou a mão, e a insinuou pelo elástico frouxo da saia, puxando-ma para baixo, até lhe sentir a tepidez que lhe transpirava de entre as coxas. Nessa altura, a música parou. Ela afastou-se, compôs a saia e voltámos à mesa, com ela a agarrar-me a mão. Mas não voltei a dançar nessa tarde. Ela queria retomar onde tinha deixado a questão em aberto, mas disse-lhe que não estava bem, e acabei por ficar aborrecido, porque a vi verdadeiramente preocupada.
Mas a verdade é que sabia que devia evitar deixar os instintos à solta. Sempre fui um bocado irreflectido, por vezes, impetuoso demais, até, mas cá dentro, naquela altura foi como se tivesse soado um sinal de alarme, algo me dizia que a L. não era a mulher da minha vida, e a continuarmos assim, eu sabia que o caminho seria irreversível. Sabia que eu era a seara, e ela a fagulha, e que mais tarde ou mais cedo, acabaríamos por ceder àquilo que ambos desejávamos, mas que, no fundo, não queríamos.
Fui levá-la a casa, como era hábito, mas não tocámos no incidente, que parecia não ter sido notado por mais ninguém.

Entretanto, com a chegada plena do Verão, acabaram-se as danças, e a intimidade ficou-se por ali. Depois, a nossa vida divergiu e os nossos encontros foram episódicos.
Por vezes pica-me a curiosidade, e ainda me interrogo sobre como teria sido a minha vida se as coisas tivessem tomado outro rumo. E sendo uma das músicas da minha vida, nunca mais consegui voltar a ouvir, voluntariamente, o A Whiter Shade of Pale

Segunda-feira, Maio 23, 2005
Procura

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Procuro em dicionários
e gramáticas
a forma ideal
de te escrever
Recorro mesmo
a fórmulas matemáticas
que poderão dar
aos versos que imagino
exactas e perfeitas
as dimensões silábicas.
Procuro até adormecer
frases complexas,
e os conceitos mais originais
procuro na química
e em livros de alquimistas,
recorro a tudo aquilo
que me possa dar as pistas
para te escrever
prosas de formas ancestrais
Até na música procuro
e desenho sinuosas e estranhas
claves de sol
seguidas de rés é sis bemol
buscando a harmonia desejada
e a ária mais etérea
e só sonhada
Acabei de decidir,
já não insisto.
Não quero desmontar mais teoremas
Espero, sentado à sombra
da natureza renascida
a brisa ardente
que me beija
e sonho com os teus lábios
porque é esse o único,
o mais desejado dos poemas



Foto de Diocleciano Baptista

Sexta-feira, Maio 20, 2005
Canto de Esperança

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Em aromas e ocres de verão e Alentejo
abro uma janela sobre o horizonte
e o sol na pele é brando como um beijo
Deixo perder o olhar no azul profundo
do mar imenso que se derrama lá no fundo,
espreguiço-me á manhã que vem suave
e a vida parece-me tão serena e tão leve
que quase me sinto voar nas asas de uma ave

Quinta-feira, Maio 19, 2005
Sobre Proibições

Queixamo-nos muito do que nos é vedado, da quantidade de proibições e restrições que nos cerceiam a possibilidade de usufruirmos de uma liberdade mais ampla, e a guerra que se estabeleceu há algum tempo entre os fumadores e os governos dos diversos países tem sido acesa e talvez a que mais tem dado nas vistas.
Muita coisa nos é negada, mas se se deslocarem aos países do sudeste asiático, vão perceber que por cá até temos uma sociedade muito permissiva. E se visitarem algumas pequenas cidades dos EUA e se derem ao trabalho de procurar bem, vão encontrar algumas leis proibitivas que vos vão parecer saídas da mente de algum alucinado. Não vos vou aqui deixar exemplos, eles estão em muitos portais de curiosidades.
Mas há uns dias dei comigo a pensar que tais leis não aparecerão por capricho do legislador, mas porque algum insólito acontecimento lhes deu origem. Por exemplo, naquele motel de beira de estrada na Route 66 que proíbe o sexo com animais domésticos, tenho quase a certeza que algum tarado terá sido apanhado pela gerência a violar o cão de estimação do dono do hotel, ou possivelmente denunciado de forma sonora pelo seu próprio papagaio que estaria a ver em risco a sua integridade.
Tais pensamentos ocorreram-me uma destas manhãs, quando estava serenamente a gozar os prazeres do jacuzzi do ginásio que frequento, quando li o aviso “Proibido juntar à água do jacuzzi, quaisquer produtos de lavagem”. Claro que para porem aquele aviso num jacuzzi colectivo é porque algum dia lá apareceu um maduro qualquer munido de escova de lavar as costas e sabonete, disposto a tomar ali o seu banho semanal.
Depois, e ainda decorrente das minhas idas diárias ao ginásio, ocorreu outra situação digna de menção versando este mesmo assunto, das proibições. Há dias, dispus-me a pôr de lado o uso de viatura própria, livrando-me assim do stress causado pelas 35 voltas que, no regresso, dava ao quarteirão na busca de um lugar para estacionamento. Peguei no saco e meti-me no autocarro. Como a minha casa fica mais ou menos a meio do percurso, já vinha quase cheio, mas ainda descobri um lugar sentado no banco detrás. Todo satisfeito, sentei-me e puxei um livro que ando a ler, uma coisa leve, própria para estes momentos. Eis que na paragem seguinte entra uma senhora a tender para a obesidade e que se deixou cair pesadamente no banco ao meu lado, o único lugar que ainda restava, não sem que uma parte dela se estendesse para o meu banco. Lá me encolhi contra a janela, enquanto ela sacava umas agulhas de um saco e começava a fazer crochet.
Bem, nunca tinha visto ninguém fazer crochet com tanta rapidez. O pior é que ela cada vez o fazia mais depressa e as agulhas mais se aproximavam dos meus olhos. Tentava concentrar-me na leitura, mas saltava linhas, aquilo já não fazia nexo nenhum. Comecei a sentir-me mal, e cada vez mais ameaçado e a suar por todos os lados. Já me via de pala no olho como o Camões. Tentei por duas vezes tocar a campainha, mas a mulher mandou-me um olhar fulminante, como se a estivesse a incomodar, e eu contive-me e voltei a sentar-me. Até que por fim, numa vez em que a agulha mais chegada ficou a 2 centímetros (mais para menos que para mais) da minha vista esquerda, fiquei cheio de náuseas e não resisti: levantei-me e pedi-lhe licença para passar. Desviou as pernas uns milímetros, como quem diz, “Desenrasca-te”, e eu lá passei e saí do autocarro, duas paragens antes do que devia.
Quando me vi cá fora, foi como se acordasse de um pesadelo! Que alívio!
Pensei que deviam pôr um aviso nos autocarros a dizer “Proibido o crochet, especialmente a senhoras gordas”. E nesse momento, decidi que preferia definitivamente o stress diário na busca de um lugar de estacionamento, que andar de transportes públicos!

Nota1: O Marcelino foi, enfim, operado aos intestinos. Intitulava-se a si próprio “O Castigo de Deus”, mas cá por mim, seria mais apropriado “O Cú do Diabo”.
Por razões óbvias, o Adérito proibira-lhe a entrada na Tasca, uma vez que o estabelecimento se esvaziava assim que o Marcelino lá entrava. Como ficou sem local de convívio, e além do mais, se aproximava a data dos campeonatos de dominó e sueca, lá se decidiu a ir ao médico que lhe disse que sofria de flato, e que uma pequena intervenção cirúrgica o livraria daquilo. E disse-lhe também que o D.João VI tinha a mesma doença. Agora é monárquico!

Quarta-feira, Maio 18, 2005
Dia dos Museus e obras de Arte

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Hoje, a Mad alertou-me através da leitura do seu blog, que é dia dos Museus. Ainda por cima, diz ela que tem no quarto uma das minhas pinturas preferidas do meu pintor do coração, o Vincent (lembram-se da canção que o Don McLean lhe dedicou?). Foi mesmo uma "provocação" (positiva, claro)!
Ora tendo em conta o pouco hábito português de visitar Museus, todos os avisos são bem vindos e por mim, fiquei a ponderar sobre se iria visitar algum, uma vez que tenho a tarde livre, e seria uma maneira de descomprimir até à hora do grande jogo de logo à noite, uma maneira segura de não começar para aí a roer as unhas.
Mas depois olhei pela janela, e vi que o dia está magnífico, o que tem sido raro este ano, e mesmo convidativo a passeio à beira-mar, ou pela cidade, a gozar o sol e a desfrutar das belezas naturais.
E fiquei dividido.
Que escolher? O recolhimento numa sala serena cercado de belas pinturas, de obras de arte, convidativa à reflexão, á descontracção? Ou uma saída, para o ar livre, para as ruas ensolaradas?
Depois de medir bem os prós e os contras, decidi-me pela segunda hipótese. Vou sair por aí, e apreciar as belezas citadinas.
Afinal, a cidade é um enorme museu ao ar livre, e basta estar atento, porque em cada esquina se nos depara uma vista, um monumento, uma paisagem de beleza inebriante, capaz de nos paralisar os sentidos (enfim, quase todos), e deixar quase sem fôlego.

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Terça-feira, Maio 17, 2005
Ária

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Em notas e acordes de suado desejo e sedução
nossos corpos vagabundos se encontram pela noite
e em campo de batalha revolto, devastado e macio
entregam-se sem falsos pudores a todo o desvario
e compõem juntos a mais pura e íntima canção

Segunda-feira, Maio 16, 2005
Abandono

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Deixei a alma a vaguear pelo universo
e ao coração solto
em qualquer recanto antigo
fico só corpo,
sem correntes
sem paredes que me fechem
sem abrigo
sou só índole, atracções
estou só comigo.
É estranho, é assim abandonado
quase disperso
cada pedaço para seu lado,
que o puzzle que me compõe
se sente completo e arrumado
Gosto do ímpeto, das pulsões
e não me deixo guiar por manuais
vou ao acaso, sem rumo
em rectas ou curvas apertadas
por vezes, tão perigosas
que sinto que arrisco até demais.
Mas persisto.
Que fazer se é assim a única forma
de sentir que existo?

Domingo, Maio 15, 2005
Um desafio para vocês


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Andei há pouco a dar a arrumação de que os meus cd’s há longo tempo necessitavam. Detive-me a meio da tarefa a olhar com um misto de saudade e ternura para alguns que, ainda em vinil, “fizeram” a minha juventude. Marcaram-na de forma tão profunda, que ainda hoje estão comigo e os ouço com alguma regularidade, apesar dos anos que passaram, uma enxurrada que os poderia ter empurrado definitivamente para o baú de recordações, como coisa morta. Mas não, aquela música, que tomou conta do mundo à medida que eu ia crescendo, era de tal maneira genial, que ainda hoje se mantém actual.
Costumo chamar àquela época, a década prodigiosa. Talvez seja um pouco de facciosismo da minha parte, mas não me parece ser um facciosismo doentio.

Está prestes a passar mais um ano sobre o lançamento de uma obra que marcou definitivamente toda a música popular, aquele que é considerado o primeiro álbum conceptual de todos os tempos, e que ainda hoje é considerado por muitos críticos, o melhor álbum de sempre :

Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles


Não me pronuncio sobre isso, acho muito difícil eleger só um como o melhor, mas como podem ver, faz parte deste pequeno lote que escolhi para aqui deixar, a relembrar a música da minha juventude. Foram estas “imagens” de música que aqui estão em cima, que mais me marcaram a vida.
Mas tenho sempre uma curiosidade grande de conhecer os gostos melómanos de quem me visita, e sei que cada um terá as suas "musicas" da juventude. É esse o repto que aqui vos deixo, o de aqui mencionarem as obras musicais que mais vos marcaram a juventude.

Nota de rodapé - Se quiserem, sugiram também música para tocar ali ao lado, no player. Se pertencer à minha discoteca, de certeza que ali soará

Sexta-feira, Maio 13, 2005
Recordações

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Há um misto de alegria e de tristeza neste sequente desdobrar dos dias em que os campos vão mudando as suas cores, envergando roupagens quentes, quase sequiosas, e até os cheiros se tornam diferentes.
As noites, mais curtas, são também mais densas, transpirantes. Nelas me surpreendo a evocar passados, a convocar fantasmas. E foi numa delas, que ao tentar conciliar o sono teimoso que não chegava, ao ouvir a voz rouca do locutor de uma rádio qualquer, anunciar uma entrevista a um padre há muitos anos radicado a Oriente, que te convoquei a ti, que há tanto tempo e para tão longe te afastaste.
Reconheci-te logo a voz, apesar de não teres mais de 14 ou 15 anos na última vez que falaste comigo e nunca mais te ter ouvido, ou sequer sabido de ti. Mas o timbre arranhado, talvez mesmo um pouco estridente, era inconfundível. Depois, mencionou-te o nome. Mas nem precisava. Soube sempre que o teu sonho era seres franciscano por essas paragens, que na altura, na tua fé e no teu entendimento de garoto, pensavas serem habitados por povos a necessitarem ajuda e evangelização.
Curiosamente, nesse aspecto sempre fomos completamente divergentes, tu, cheio de fé, quase beato, e eu, desprendido de qualquer pensamento religioso, por vezes até adverso a essas coisas, talvez fruto da influência de um pai extremamente anti-clerical.
No resto, éramos garotos vulgares, percorríamos as ruas do bairro em correria até chegarmos ao jardim, e era aí que passávamos as tardes em brincadeiras iguais às de tantos outros miúdos, em jogos onde a competição acesa, normal naquelas idades, estava sempre presente. Lembro-me até daquelas competições menos ortodoxas, dos concursos com a urina, a tentar ver quem conseguia atingir mais longe com o jacto, ou dos desenhos feitos com ela nas paredes do primeiro prédio que aparecia mal nos vinha a vontade de urinar. Ou o dos cuspos, com truques aprendidos com os mais velhos, em que se impulsionava a saliva com a língua a servir de catapulta e se cuspia entre dentes.
E ainda hoje me arrepio ao passar nas arcadas do velho jardim e constato da nossa inconsciência ao saltarmos delas abaixo, alheios ao perigo que a altura do salto representava para a nossa integridade, só para provarmos que não éramos medrosos. Como estremeço ao lembrar-me das subidas da rua das Amoreiras na pendura do eléctrico, indiferentes à ameaça do trinca-bilhetes porque sabíamos que éramos mais rápidos que ele, ou dos jogos de futebol clandestinos, com a consequente perseguição policial assegurada.
Mas recordo também os momentos calmos, as tardes de estudo conjuntas, a troca de selos, porque foram eles, talvez, o nosso primeiro interesse mais adulto, embora em estado muito incipiente.
Evoco esses tempos e sorrio. Convoco-te para eles, porque foste tu que comigo os partilhaste muitos desses momentos.
Olho para a ampulheta, inexorável, e sei que a areia só tem aquele trajecto descendente, que não há reversão, e que a parte de cima se vai esvaziando a um ritmo cada vez mais acelerado, como se o estreito canal por onde vai escorrendo, se fosse alargando. Sei que nunca mais nos veremos, e que o último marco, foi aquele abraço de despedida que demos, muitos anos atrás
Em silêncio, quase religiosamente, penso em ti, e interrogo-me se também tu, alguma vez me convocarás para as tuas recordações

Quinta-feira, Maio 12, 2005
Fardas e Uniformes. Fantasias

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Há uns tempos atrás, num jantar onde estiveram presentes muitos amigos e amigas daq blogoesfera, surgiu a questão de homens terem fantasias com mulheres fardadas ou uniformizadas (a verdade é que penso que o inverso também é verdade, e que as mulheres se sentem muito atraídas por fardas, pelo menos é o que consta))
Ora eu não vejo qual é a dúvida e acho isso absolutamente normal. Senão, vejam-se os exemplos que aqui deixo. Será mesmo possível resistir a fardas?

Mulher, o teu apelo sensual
está presente sempre que apareces
não há maneira de resistir ao chamamento
nua ou vestida, adornada ou ao natural
Irresistível és, vestida de enfermeira
de mulher polícia ou de bombeira
de hospedeira de bordo ou de padeira
de empregada doméstica ou mesmo freira


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Nota de rodapé - Como devem ter reparado, hoje mais que nunca, a música serve de pano de fundo ao conteúdo do post

Terça-feira, Maio 10, 2005
Mar

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Há uma brisa leve, morna, quase indetectável
que, insidiosa, me arrasta o coração para alto-mar
e neste tempo liso, de bonança
me deixa ao largo, indefeso, à deriva, naufragar

Segunda-feira, Maio 09, 2005
Lábios



*







É esse rubro entreabrir molhado
dos teus lábios
o apelo mudo, provocante
a boca, morango fresco e carnudo
de um vermelho retinto e tão aberto
como o sol poente do deserto
És tu, é a tua boca, é tudo,
é estar longe,
e querer estar sempre perto,
Beijos!
Como evitar a associação?
É a irrecusável chamada dos desejos
a fremente e constante comoção,
o frio penetrante que se acaba num sorriso
e de repente me transforma num vulcão.
Depois, é o acordar,
lento, indesejável,
com ele, foge-me o sonho, a ilusão,
e a tua imagem
Fica-me o sabor quente dos teus beijos
e os teus sussurros de amor quase inaudíveis
que me são soprados leves,
pela folhagem

Do Cinema

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A minha Amiga e Errante Cecília, passou-me este testemunho. Aceitei-o, porque embora não simpatize muito com as chamadas "correntes",o móbil me agrada muito. Agora, parece que só falta lembrarem-se da música, e eu fico a aguardar

1. Qual o último filme que viste no cinema?
Como já aqui referi há uns dias, desde que as pipocas implantaram a sua ditadura, a minha ida a salas é muito espaçada. Vou preferindo a comodidade do sofá.Se não estou enganado, o último filme que vi numa sala de cinema, acho que foi o "Lost in Translation"

2. Qual a tua sessão preferida?
Qualquer uma da tarde

3. Qual o primeiro filme que te fascinou?
Ainda criança. houve vários. Creio que todos os clássicos do Walt Disney. Depois, já na adolescência, talvez "Beckett", pela excelência da interpretação de Peter O’Toole.

4. Para que filme gostarias de te ver transportado(a)?
Esta é uma pergunta difícil de responder. Mas como tenho que responder, talvez para o interior do navio do filme "E la Nave Va", de Frederico Fellini. Ou talvez para a atmosfera de Veneza, no "Morte em Veneza"

5. E já agora, qual a personagem de filme que terias gostado de conhecer um dia?
Sem dúvida, e por razões que já apontei em coisas que antes escrevi, que gostaria de "conhecer" o Alfredo, o projectista de Cinema Paraíso

6. E que actor(actriz)/realizador(a)/argumentista/produtor(a) gostarias de convidar para jantar?
Haveria muitos. Por isso nesta, vou adoptar a ideia da Cecília, e fazer também uma festa. Convido o Michael Nyman para tocar o seu piano prodigioso durante o jantar, de preferência que toque uns excertos d’O Piano. Para o jantar convidava o Nani Moretti, que sinto ser uma pessoa extraordinária de humanidade. Além de toda a admiração que tenho por ele, impressionou-me o sentido de humor com que discorreu sobre a sua doença em “Querido Diário”, a sua recusa em se deixar subjugar pela depressão, preferindo enfrentar a fatalidade com um sorriso nos lábios. Convocava também, e porque lhes admiro, além do talento, a grande beleza física, e nestas coisas de festas, a beleza é essencial, a Charlize Theron, a Andie McDowell e a Sophie Marceau. Para registar o evento, chamava o Luc Besson

7. A quem vou passar isto?
Ao Alex, à Stillforty e à Lique.

Sexta-feira, Maio 06, 2005
Reflexão/Evocação

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Esgoto-me pela noite
na busca da palavra apropriada.
Em vão
Perco-me até de madrugada
e adormeço nos braços do cansaço
Quero dizer não
ao sono que me afoga
mas é inútil resistir
ao estreito abraço
Conformo-me.
As palavras, com o tempo
hão-de vir
como um grande novelo
de linha de algodão
que eu vou destrinçando
a pouco e pouco
para depois poder tecer
com cuidado e atenção
uma renda de palavras
que te possa oferecer



Há uns meses largos atrás, quase no início das minhas lides bloguísticas, tracei umas linhas que reproduzo a seguir, em que reflectia sobre as mãos e a vida em geral, e sobre o que ela me tem oferecido.
Passa-se hoje um ano sobre a criação deste espaço, e a minha reflexão de então, mantém-se actual, mas sinto que lhe falta algo.
E esse algo é significativo. É o reconhecimento do carinho que por aqui tenho recebido todos os dias.
Hoje, a minha vida é muito mais rica do que há um ano.
Em grande parte, graças a vocês

As minhas mãos são umas mãos vulgares, às quais não dispenso atenções especiais. Talvez o que as diferencie das demais seja o facto de serem minhas e portanto as conhecer melhor. São pequenas para mãos de homem. Lembro-me que as do meu pai eram grandes, ossudas. Sempre me pareceram mãos para agarrar com força, mãos de muito trabalho e pouco afago.
As minhas ao contrário, são pequenas, eu acho, pouco dados a trabalhos demasiado pesados, quem sabe se feitas só com o propósito de tocar ao de leve, tactear, acariciar.

E um dia destes vou acordar e verificar que as minhas mãos estão cobertas de pequenas manchas castanhas, pequenos sinais de oxidação com que o tempo me lembrará que já passou muito do tempo que me foi destinado.

Nesse dia sei que vou querer visitar os locais que me viram crescer, nesta cidade pendurada num rio largo e com a qual acordo todos os dias.
Nesse dia, que eu sei que vai ser um dia de sol, sei que me vou sentar sozinho, num banco debaixo de um cedro centenário no Príncipe Real que é a árvore mais bonita de Lisboa e olhar as crianças que brincam e riem sem medo do futuro, porque para elas só existe presente, e são quem melhor o sabe viver. E então mais uma vez direi para mim mesmo a frase tão gasta, mas que nem por isso é menos verdadeira, que as crianças são o melhor do mundo
Nesse dia sei que me sentirei diferente do dia anterior, porque vou saber que estou com muitos anos vividos, que me vão chamar velho e provavelmente me tratarão com comiseração como tratam todos os velhos.
E nesse dia sei que quererei fazer um balanço do que deixei para trás.
Nesse dia sei que quererei saber se as mordidas da vida valeram os sorrisos que ela me deu e vou chegar à conclusão que sim.
Porque me lembrarei então que amei e fui retribuído, e só isso já faz com que tudo valha a pena
.”

Quinta-feira, Maio 05, 2005
Afectos II - Over the Rainbow

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És Dorothy*,
plena de esperança
correndo a estrada de tijolo amarelo
(por vezes imagino-te até a trança)
ou subindo o arco-íris,
sonhadora
na busca de amor e de carinho,
de tudo quanto a vida
tem de belo,
que para ti vale mais
que todo o ouro
e sei que é o que tens como tesouro.
Assim te sinto eu,
quase menina
sem sombra no olhar,
o riso acetinado,
e ouço-te o bater do coração
inquieto
mas doce e apaixonado
e a compasso, a voz afectuosa
e cantada,
reflexo de uma alma,
bela como noite de luar
Conhecendo-te,
volta-se de novo a acreditar
em sentimentos nobres, sonhos de criança
relembram-se contos de fada,
cantigas de embalar



* - Para que não se suscitem dúvidas excusadas, esclarece-se que Dorothy é a "protagonista" interpretada por Judy Garland no filme "The Wizard of Oz", a menina que percorre a "Yellow brick road" e voa "Over the rainbow". Não se tratou, portanto, de um lapso do autor

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Quarta-feira, Maio 04, 2005
Vizinhos II

Pois ontem lá andava a cadela da minha vizinha a roçar o cú pela calçada. A propósito, acho que a dona vai ter que gastar outra vez um balúrdio no salão de beleza para voltar a pôr a bichana como estava, porque era toda branquinha e agora está com os quartos traseiros todos encardidos. A bicha é daqueles animais todos não me toques a quem os donos fazem uns cortes de pêlo tão apaneleirados que se os animais tivessem raciocínio, nunca mais lhes perdoavam. Esta então, como poderão verificar pela fotografia que junto, é um must. Na rua só lhe chamam a Madame Pompadour, e a dona, que por acaso é assim para o baixito e rechonchudo e tem um pequeno buço, é conhecida como Sancho Pança. Por coincidência, fui eu que “baptizei” ambas.
Bem, mas a minha relação com os cães aqui da vizinhança não é realmente a melhor. O Adérito tem um daqueles cãezitos que têm o queixal de baixo, mais saído que o de cima, e a primeira vez que o vi, estava a estorvar no meio do caminho, e eu desviei-o gentilmente com a ponta do pé e sem querer pisei-lhe o rabo. E o bicho tomou-me de ponta e sempre que eu entrava na tasca, começava-me a rosnar e uma vez ainda me conseguiu deitar os dentes a umas calças novinhas. Mas costuma-se dizer que quem com ferro mata...Ora o cão apanhou uma camada de pulgas das antigas e o Adérito disse-me:
- O Pluto (é o nome do canito, que é filho da Pluta, uma cadela rafeira que ele tinha) anda cheio de pulgas, e como tem muitas comichões, anda-se a roçar por todo o lado para se coçar, e enche a malta toda de pulgas. Anda-se tudo a queixar, já ando a perder clientes e não sei o que hei-de fazer!
Foi aí que vi uma maneira de me vingar do episódio das calças. E disse ao Adérito:
- Não tens um pulverizador de DDT? Metes o açaime no cão, eu seguro-o e tu pulverizas o animal.
- Boa ideia! – respondeu o Adérito
- Mas se calhar, como são muitas pulgas, o melhor é juntares um bocado de creolina ao DDT, sempre fica mais forte.
Bem, o Adérito concordou, foi à drogaria comprar à creolina e juntou-a ao DDT como eu tinha sugerido. Meteu o açaime ao cão, e assim em segurança, lá o agarrei pela cabeça, enquanto o dono o começava a sulfatar pela parte de trás. O pior é que mal levou a primeira sulfatadela, o animal mandou um berro que se ouviu na rua toda, soltou-se-me das mãos e fugiu a uma velocidade estonteante. O Adérito ficou tão surpreendido como eu, embora eu já esperasse que a coisa desse para o torto.
Só vos digo, no dia a seguir quando vi o cão muito cabisbaixo, até tive pena dele. Então é assim, o cão não se conseguia sentar e andava com as patas traseiras muito abertas e só quando o vi por trás é que me apercebi bem das proporções da tragédia. O sítio que tinha sido sulfatado perdera o pêlo todo, e no meio daquela desolação, o par de penduricalhos todos pelados, muito cor-de-rosa. Parecia uma árvore de Natal só com duas bolas e as duas da mesma cor. Era um espectáculo digno de se ver.
O Adérito mal me viu, começou a mandar vir comigo, mas por fim eu fiz-lhe ver que as pulgas se tinham ido todas, e isso era o objectivo principal. Ele como não deve muito à inteligência, acabou por concordar comigo.

Agora vamos então à história do triângulo amoroso Etelvina-Machado-Artur.
Pois bem, eu há uns tempos que desconfiava que o Machado era um bocado esquisito. Começou quando um dia eu estava sentado num dos bancos corridos do Adérito a jogar dominó com o Albino, e ele se sentou ao meu lado a comer um pires de jaquinzinhos. Ele pegava no jaquinzinho pela cabeça, comia-o, e quando ficava só a cabeça estendia a mão e dava-a ao gato do Adérito. Só que o gato estava sentado ao pé de mim, mas do outro lado, e ele para lhe dar as cabecinhas, passava-me a mão pela frente das calças e ria-se muito. E eu comecei a desconfiar que ele estava a ver se me acontecia a mesma coisa que sucede quando como amendoins e no fim tenho que sacudir aquelas cascas finas do colo.
Não sei como é que ele conheceu o Tripé (nem percebo bem porque é que chamam isso ao Artur), o que é certo é que começaram a aparecer os dois muita vez juntos, lá pela tasca do Adérito. Ora o escândalo sucedeu numa quinta-feira em que a Etelvina voltou mais cedo da banca que tem na praça de Campo de Ourique. Ela vinha doente porque no dia anterior tinha abusado do feijão carrapato, e não ficou melhor quando apanhou o marido com o cabo-verdiano na cama. Nem queiram saber, saíram de lá os três aos gritos, os dois homens em trajos menores (embora os do Machado fossem bem menores que os do Artur), foi um burburinho na rua, e a Leopoldina, que é uma velhota de 83 anos que vive ao lado deles, desmaiou quando o Artur passou por ela, não sem antes dizer que há muito que não via daquilo. Não sei a que é que ela se referia, mas devia ser à escandaleira.
A Etelvina estava pior que uma fera, e meteu a roupa do Machado toda na rua. Nunca pensei que ele usasse espartilho e cintos de ligas! Muito menos, cuecas fio-dental de renda negra. Podem acreditar, para mim foi um choque saber que o Machado que eu já conhecia há tantos anos, agasalhava!
Mas também acho que devia ter havido um bocado mais de decoro da parte da Etelvina, que veio para a tasca contar todos os pormenores do grave acontecimento. Eu ainda me chateei com ela, porque quando lhe perguntaram o que se tinha passado, ela disse que tinha apanhado o Artur a desentupir o algeroz ao marido, e eu perguntei-lhe se afinal o Artur era trolha ou era canalizador, e ela olhou para mim e disse- me:
- Tás armado em totó, ou tás-me a gozar?
Eu fiquei com cara de parvo a olhar para ela, mas depois quando ela explicou os detalhes, eu lá percebi que ela estava a usar uma figura de estilo.

Agora o Machado está a viver na pensão da Adozinda com o Artur. Fazem um lindo par, é o que vos digo. Nunca esperei foi ver os dois a entrarem pela tasca de braço dado. Ganda lata!
Só faltava agora a Etelvina começar a fazer-se ao piso à minha Elisa!
A propósito de Elisa, a tia dela não me larga com a porcaria da história do “compromisso sério”. Até me preparou um jantar “especial” no domingo passado. Ainda me ando a recuperar dele!

Terça-feira, Maio 03, 2005
Heróis

A vida não é só poesia, embora olhando bem, em todas as suas vertentes ela se possa encontrar. Vem isto a propósito de nos últimos dias a poesia, não ter por aqui andado tão presente como era habitual. Mas lá voltaremos, naturalmente.
Até porque o assunto que aqui vos trago hoje também tem muito de poesia, Implícita, pelo menos.
Ontem, vi um filme que na altura em que passou nos cinemas me escapou, como tantos me escapam desde que a ditadura da pipoca se instalou nas nossas salas. Chama-se "Os Coristas" e muitos já o terão visto.
É um filme de um lirismo extremo e deixou-me de olhos bem abertos, espantados.
E acudiu-me a ideia de como o perfil dos meus "heróis" tanto tem mudado à medida que a minha idade me vai transformando. Porque para mim, aquele simples professor de música, que passará toda a sua vida a ensinar anonimamente, sem fazer questão de receber outra paga que não seja a dedicação dos seus alunos à música, ficou a ser um dos meus “heróis”.
Quando era garoto, o meu imaginário era povoado pelo ladrão de Sherwood que roubava aos ricos para dar aos pobres, ou pelos Cavaleiros de Artur, pelas personagens do Oeste selvagem protagonizadas por John Wayne, e nunca me esqueci da cena de pancada vencida por Alan Ladd no "Shane", nem do Errol Flynn corsário de todos os mares. Mais recentemente, só talvez o inesquecível Indiana Jones tenha tido para mim, o mesmo fascínio.
O cinema foi evoluindo (claro que há grandes marcos que ficaram como filmes de uma vida, como Citizen Kane, Casablanca, Sunset Boulevard, ou qualquer um de Hitchcock, mas aí, fala mais alto a obra, que não o protagonista) e com ele fui eu crescendo. Fui deixando de me impressionar com os efeitos especiais, com as gestas heróicas, e fui retendo mais os heróis anónimos, talvez porque na sua simplicidade se aproximem mais de mim, talvez porque lhes sinta melhor os dramas, os sinta mais humanos, mais alcançáveis. Creio mesmo que a idade nos vai criando fragilidades e são elas que nos permitem entender melhor estes carácteres.
Suponho que a minha primeira destas figuras terá sido o vagabundo de Charlie Chaplin, que na sua miséria extrema toma a seu cargo o órfão ainda mais miserável que ele. Vi esse e outros filmes dele, quando ainda usava calções. E lembro-me. Mas tenho a certeza que a plena emoção ao vê-los, só a atingi já adulto.

Mais tarde, principalmente nos últimos anos – por vezes parece-me que o cinema, principalmente o europeu, se vem a humanizar cada vez mais – a minha galeria de heróis anónimos, aqueles que me conseguem tocar nas cordas mais profundas da alma, foi crescendo.
É assim que me surge Alfredo, o conselheiro de Salvatore e extraordinário projectista de Cinema Paraíso que viverá para sempre na minha imaginação, e no meu coração, mesmo ao lado de Mário Ruoppolo, o espantoso Carteiro, de Pablo Neruda. Confesso que tinha os olhos rasos quando acabei de ver qualquer dos filmes, mas como sei que um homem não chora fiquei por aí.

Mais tarde, passei pela vida de Malena e a sua busca da felicidade, contra a incompreensão de uma sociedade preconceituosa e retrógrada, e também pela de Guido, o pequeno judeu de Begnini em “A Vida é Bela”, que oculta ao filho com mentiras piedosas a monstruosidade que o rodeia.
Mais recentemente ficaram comigo fabulosa Amélie e a sua extraordinária e mágica história, o pobre amante Benigno, de Habla com Ella, de Almodôvar, e o fragilizado psiquiatra e pai Giovanni de O Quarto do Filho, essa espantosa e sofrida obra prima de Nani Moretti.
Agora, a todos eles, juntei Clément Mathieu, o professor de música de Font de L’Étang, com a sua generosidade ímpar, o seu amor à música e às crianças.
São estes os meus heróis, modestos, simples, atingíveis, até frágeis, pecadores. Mas todos extraordinariamente humanos, incapazes daqueles prodígios dos meus heróis de outros tempos.

Numa altura em que este espaço dos blogs é cada vez mais interactivo (e ainda bem, sinal que cada vez está mais dinâmico), e que se lançam desafios, muitos deles bastante interessantes e que tenho verificado virem a ser correspondidos por muitos de vocês, gostava de vos deixar mais este, sobre a forma como se vai alterando a nossa visão em relação a estes personagens, ficcionados é certo, mas que vão entrando nas nossas vidas como se fossem reais.

"Serão os nossos heróis cada vez mais humanos?"

Segunda-feira, Maio 02, 2005
Vizinhos

Toda a gente a quem digo onde moro, me elogia a localização da casa, e se a conhecem in loco, então é que é. É a vista do Tejo, ali todo estendido aos pés da rua, é o facto de ser no centro de Lisboa, com acesso privilegiado a toda a cidade, é ser uma zona bem frequentada, e por aí fora.
Pois, vê-se logo que não me conhecem a vizinhança.
Foi precisamente sobre os vizinhos que hoje me decidi debruçar, e fazer um balanço sobre as relações que aqui tenho criado, mas nem pensem que vou falar da Elisa, que ela nos últimos tempos tem andado com umas saias e umas camisolas de malha tão justas que eu noutro dia, quando passei pelo lugar da fruta, ia desmaiando quando vi uma senhora sair com um par de meloas num saco de plástico, e passei a noite toda a ter pesadelos com aquelas frutas. Andei quase uma semana para me recuperar.
Aqui há tempos, comprei um tapete para pôr à porta, como toda a gente. Pois a vizinha de cima tem uma cadela que, não sei por que carga de água, habituou-se a vir ao tapete, agachar-se, e lá vai mijadela (por vezes com “acompanhamento”). Comecei a andar danado porque me fartei de limpar o tapete e as pessoas que cá vinham, mesmo assim queixavam-se que cheirava mal, e diziam que a minha casa cheirava a cão. Decidi comprar um tapete novinho em folha, e logo no primeiro dia tive “presente”. Foi aí que tive uma ideia brilhante: no dia a seguir, e com o tapete lavadinho, despejei-lhe um bom bocado de pimenta em cima. Claro que a cadela não falhou a visita, e eu a espreitar por uma pequena fresta da porta. Ela agachou-se e a pimenta cumpriu tão bem a sua missão que o animal já nem mijou, começou caím, caím, e saiu a roçar as partes baixas pelo chão. Em cheio, tinha descoberto a solução para os meus problemas.
No outro dia no café, lá estava a vizinha a comentar com um ar muito preocupado, que tinha que ir com a cadela ao veterinário, porque passava o tempo a roçar o cú pelo chão e a ganir. Eu até me meti na conversa e lhe disse que aquilo deviam ser lombrigas, pelo que ela devia ter cuidado com o que dava de comer ao animal, e ela respondeu que se calhar era isso.
Bem, mas isso já foi há um ano, e ontem tive que comprar um tapete novo, que o outro já estava gasto, e esta manhã cá estava assinalada a presença do raio do animal que pelos vistos tem memória curta. De modo que hoje, lá vou ter que espalhar pimenta no tapete.
Amanhã volto para contar o que se passou, e também da Etelvina que mora aqui em frente, ter apanhado o Machado, que é o marido, com o Artur, que é um trolha cabo-verdiano que trabalha numa obra na rua de cima e a quem os colegas de trabalho chamam “o Tripé”, na cama. Mas isso é mesmo só amanhã.

Nota - Espero que agora mudem a frase "Quanto mais uma pessoa se agacha, mais o rabo se lhe vê", para "Quanto mais um cão se agacha, mais o rabo lhe arde"

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