L.



A minha relação com L. sempre foi invulgar. Parecíamos estar sempre numa espécie de equilíbrio instável, tínhamos uma relação “quase”. Quase fomos namorados, quase fizemos amor...sempre quase.
Mas estranhamente parávamos também sempre à beira de uma tomada de posição que tornasse tudo mais definitivo. E mais estranho, porque isso sempre me pareceu, da parte de ambos uma decisão inconscientemente deliberada, e não fruto da indecisão de nenhuma das partes.
Quando estávamos na presença um do outro, sentia que algo de muito forte estalava, como uma tempestade daquela que faz rebentar raios por todo o lado, uma espécie de tumulto eléctrico. A química era forte e talvez por isso evitássemos, a maior parte das vezes, estarmos sós, embora paradoxalmente, quando estávamos em grupo, nos tentássemos isolar.
Penso que seria por sentirmos que éramos demasiado parecidos em muitos aspectos. E assim, conhecíamos do outro, os fracos, exactamente os nossos.
Todos os sábados e domingos reuníamos o pequeno grupo e arranjávamos sítio para dançar, excepto no verão, em que a praia era destino certo. Todos gostavam, mas creio que a dança era só um pretexto para um acirrar de instintos e pulsões. Por vezes, e certamente por causa dessa época da minha vida, me identifico tanto com o Rob Gordon, a extraordinária criação de Nick Hornby para High Fidelity. Porque por vezes me vem à cabeça uma ou outra situação concreta vivida ao som de uma música bem determinada.
Como naquele domingo. O Verão anunciava-se com uns dias de canícula primaveril, e a nossa ida nessa tarde de domingo era a uma discoteca, acessível que as semanadas não eram elevadas, e bem aconchegada. Que é como quem diz, suficientemente escura para permitir um certo número de pequenos atrevimentos. Inocentes, claro.
L. chegou e trazia uma saia quase branca, muito leve, parecia uma mistura de algodão com seda e cingia-lhe a cintura com um elástico pouco apertado. Caía-lhe perfeitamente pelas ancas, e pronunciava-lhe o redondo das nádegas, onde se reconhecia a marca das cuecas. Usava uma blusa fresca, com um decote que deixava à mostra grande parte do peito. L. parecia usar sempre uns soutiens dois tamanhos abaixo do que devia, porque lhe apertavam os seios um contra o outro, de modo que entre os dois, parecia não caber uma folha de papel. Aquela, era talvez a sua imagem de marca, e eu percebia porque raramente os outros rapazes conseguiam falar com ela sem que os olhos se lhes fixassem naquele local, como que hipnotizados. Até eu, a quem aquela visão já era familiar, sentia fugir-me muitas vezes os olhos para lá. E ela percebia bem a tentação com que acenava. Sorria sempre com um sorriso atrevido, e compunha a blusa, para lhes dar o devido destaque.
Na discoteca, muito escura, o ambiente era suavizado pelo ar condicionado. Naquele dia, L. não aceitou solicitações de mais ninguém e preferiu dançar sempre comigo, o que, de certo modo me embaraçou. Além de me deixar em situação delicada junto aos outros, porque ela era par desejado por todos, o contacto constante com aquele corpo morno e cheiroso, deixava-me quase indecentemente excitado. Dançávamos sempre muito apertados, como se de um tango se tratasse. Mas naquele dia a pressão dela era ainda maior, e a certa altura tive a sensação que lhe ia sair pelas costas, tal a forma como nos fundíamos um no outro.
Depois de uma breve pausa, ecoaram as primeiras notas do A Whiter Shade of Pale, dos Procol Harum, uma canção muito antiga, mas que para ambos tinha uma espécie de magia, era como se fosse “a nossa música”. Ela levou-me para um canto mais escuro da sala, cingiu-se a mim ainda mais fortemente. E eu senti-lhe os seios rijos contra o peito, e as pequenas gotas de suor que lhe perlavam o pescoço. Naquele embalo, não resisti e beijei-lho. Mas ela já estava excessivamente excitada para se contentar com aqueles jogos, quase ingénuos. Puxou-me a cabeça e meteu-me a língua na boca, em explorações em que nunca até então se aventurara. E não parava, mordia-me os lábios, e voltava a entrar-me pela boca, quente como uma brasa. Por essa altura, já estávamos os dois demasiado ocupados um com o outro, para que nos preocupássemos com mais alguma coisa. Foi como se o resto deixasse de existir, e nem tínhamos noção de que estávamos num local público. Já não dançávamos, limitávamos a mover o corpo ao ritmo das nossas bocas, até que ela se virou quase de costas para mim e me puxou a mão, e a insinuou pelo elástico frouxo da saia, puxando-ma para baixo, até lhe sentir a tepidez que lhe transpirava de entre as coxas. Nessa altura, a música parou. Ela afastou-se, compôs a saia e voltámos à mesa, com ela a agarrar-me a mão. Mas não voltei a dançar nessa tarde. Ela queria retomar onde tinha deixado a questão em aberto, mas disse-lhe que não estava bem, e acabei por ficar aborrecido, porque a vi verdadeiramente preocupada.
Mas a verdade é que sabia que devia evitar deixar os instintos à solta. Sempre fui um bocado irreflectido, por vezes, impetuoso demais, até, mas cá dentro, naquela altura foi como se tivesse soado um sinal de alarme, algo me dizia que a L. não era a mulher da minha vida, e a continuarmos assim, eu sabia que o caminho seria irreversível. Sabia que eu era a seara, e ela a fagulha, e que mais tarde ou mais cedo, acabaríamos por ceder àquilo que ambos desejávamos, mas que, no fundo, não queríamos.
Fui levá-la a casa, como era hábito, mas não tocámos no incidente, que parecia não ter sido notado por mais ninguém.
Entretanto, com a chegada plena do Verão, acabaram-se as danças, e a intimidade ficou-se por ali. Depois, a nossa vida divergiu e os nossos encontros foram episódicos.
Por vezes pica-me a curiosidade, e ainda me interrogo sobre como teria sido a minha vida se as coisas tivessem tomado outro rumo. E sendo uma das músicas da minha vida, nunca mais consegui voltar a ouvir, voluntariamente, o A Whiter Shade of Pale