Novos Voos - Take Two

terça-feira, maio 22, 2007
Dança

Por estes dias indecisos, nada me inspira nem comove. Nem sequer os juvenis canudos do cabelo em Angelica, o que me transmite uma sensação estranha de pairar acima das emoções humanas. Paradoxalmente, uma tal condição não me confere qualquer tipo de superioridade, o que também não me parece preocupante.
Assim, volto ao jardim onde me aguardam aquele aroma a citrinos e a estátua da mulher redonda com o filho ao colo, que me recorda sempre a talha da água fresca ao canto da cozinha, e sento-me debaixo de um castanheiro com os jacarandás ao fundo.
Bela cor, aquela. Ainda é a cor da cidade na Primavera em alguns locais, os que sobraram, uma cor de rosa afogueada, um roxo suave de alfazema, que me afirma que nada é perfeito, nem o criador, que se o fosse, ter-me-ia posto aquela cor nos olhos, não ma emprestaria só de tempos em tempos.
E é assim que perco tempo, a olhar em redor, por vezes nada vendo. Gosto de perder tempo. Só assim tenho a noção exacta de que o que tenho em mãos é a minha vida, um tempo que posso usar sem contar segundos e sem ter que prestar contas de tal. È uma imbecilidade ter sempre um propósito. Cada vez os tenho menos, o que confere maior relevância aos que tenho.
Perco-me, portanto, em inutilidades. Só me falta aprender a dançar.

000000 O Leopardo

Não há maior inutilidade que aprender a dançar. Que finalidade haverá em aprender a empurrar o outro em movimentos geométricos durante três minutos, acto que, em agravo, não nos deixa concentrar na música em fundo, da qual a cadência, se torna então, a única e fulcral vertente? Ah! mas é quase uma arte, afirmam-me.
Chegado aqui, vislumbra-se a luz, um novo e nobre propósito: aprenderei a dançar com o intuito único de perder tempo de uma forma onde aflora algo de artístico, e que definitivamente emprestará outra importância e colorido à minha enfática entrega às trivialidades.
Conforme com Giuseppe Tomaso di Lampedusa:Mudemos alguma coisa par que tudo permaneça na mesma
Escrito por: VdeAlmeida, em 5/22/2007 02:35:00 da tarde | Permalink | |


2 Comments:


  • At 3:47 da tarde, Blogger Cristina Nobre Soares

    Podemos aprender a dançar, para que não tenhamos que deixar de escutar uma melodia por falta de recordação dos passos. Afinal quem aprecia uma belo verso, se tiver sempre de se recordar do significado das palavras e das regras semãnticas? Mas quem as ama e domina, pode sonhar com arte... Também assim o faz, quem comunica pela dança... :)

    ... e falaste de um dos meus filmes preferidos "IL Gattopardo". Adorei!  
  • At 3:52 da tarde, Blogger Rui Luís Lima

    O Principe possuía o olhar e a sabedoria de um tempo que partiu para sempre, mas que continua na nossa memória
    um abraço cinéfilo
    paula e rui lima  
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