Novos Voos - Take Two

quarta-feira, novembro 30, 2005
Carta à Mãi Natal

Oije iscrêvo-te a ti e não te ademires que é pruque eu já çei que o pai Natal não isiste, era um ganda barrete da minha mãi e du meu pai e mais de o meu avô Armindo qué velho e aldrabão mas dêçe foi du prumeiro que me avinguei, pruque um dia atei-le as botas uma outra e ele cuando çe alevantou caiu prá frente mêsmo em cima da larada que a minha irmã Celeste que çó tem 8 mezes e andava çem fralda, fez no meio da çala.
E discubri quera barrete pruque na noite de Natal ouvi barulhu e fui pé ante pé até à çala e vi um vulto deburssado sobre o çítio onde o pai Natal custumava meter os perzentes e cumo pençei quera o Pai Natal e eu o queria conhesser, ou pior quera um ladrão a roubar os noços perzentes, fui buscar uma tábua que teinho para as imergêçias e que tem um ganda prego numa das pontas e dei le uma valente tabuada nas nalgas. Mas afinal era u meu pai vestido de Pai Natal, que dezatou aos berros e foi para o ospital e depois isteve 15 dias cem çe poder çentar, e cumo é um madraço apruveitou e não foi trabalhar. E despois ainda me queria xegar a roupa ao pêlo cumo se eu tiveçe culpa pruque afinal eu çó istava defender a caza mas lá acabou por dizer que o Pai Natal não isistia mas não se isplicou pruque éque estava ali de volta dos prezentes a xeirar.
Eu despois contei a istória à minha amiga Julita e ela diçe que çe não avia pai natal devia aver mãi natal e cumo óvi dizer que na net sincontra tudo apruvetei ca minha mãi voltou a fazer a limpesa na caza deste gaijo do computador e vim cá ispreitar ás iscondidas e discobri esta futugrafia tua e até digu que gosto munto mais de ti que daquele jimbras de barba por fazer á mais de 10 anos queles diziam quera o pai natal, e que paressia u Abílio qué um gaijo cuns modos açim isquisitos, cu meu pai diz que pega de impurrão, queu não sei o quié mas não deve çer bom, pruque o meu pai quando o vê a tempo atraveça para o outro paçeio.
Ora beim, agora voume aprezentar. Eu çou o Carlinhos, tenho 10 anos e este ano çó não paçei para a treçeira quelasse pruque a D. Almerinda qué a minha profeçora imbirrou cumigo çó pruque eu levei um çapo que çalvei de çer atropelado e lhu deichei na çecretária pruque axei quela ia gostar do animal. Mas ela çó deu pur ele quando ele arrotou e lhe çaltou para a cabessa e ela deu um berro, deu um ganda çalto e desmaiou e partiu a cadeira de trucidos e tremidos quiela dizia que tinha çido do trizavô dela quiera monárquico. Não çei praque foi tanto alarido, veio a iscola inteira e nem o çenhor diretor a conseguiu alevantar. A bem dizer axo que só cuma grua pruquela peza para mais de 200 qilos e inda teve o descaramento de dizer que eu tinha çido o culpado e xamou o meu pai pra lhe fazer quinxinhas e isigir quele pagaçe a cadeira mas eu diçe logo que ela é ca tinha partido e o meu pai diçe-lhe para ela ir gamar outro. Ora ela já não andava munto de bem cumigo prucausa da guerra dos gizes, e prucausa do çapo tomoume de ponta e não me paçou. Á gente muito injusta e mesquinha. Nem çei o que acontesseria çela descubriçe que tinha çido eu que le meti uma garrafinha de mau xeiro debaicho da perna da cadeira no Carnaval e toda a gente pençou que era ela que tinha voltado a cumer a feijuada da tasca do Artur.
Mas infim, eu purtei-me çempre bem, apezar da minha mãi dizer que çó fasso asneiras cumo noutro dia em que cá veio a dona Ermelinda qué uma velha toda xeia de triques e eu istava a isperimentar uma ispingarda que o meu tio Jaquim que é um porreirasso mofereceu, e que era dele de quando era da minha idade e é daquelas cuma rolha atada à ponta. Mas aquilo açim não tinha ninhum alcance e eu tirei lhe o cordel e istava a fazer pontaria ao Tição que istava na janela da noça vizinha Grassiete e a minha mãi deu-me um berro, eu virei me açustado e a ispingarda disparou a rolha que açertou num olho da D. Ermelinda, que deu um gritinho e caiu toda junta. Claro que a minha mãi é que teve a culpa mas tinha que çobrar pra mim, e fiquei çem a ispingarda, e çem ver os Digimons durante 3 çemanas. E ela inda mavia dagardesser pruque a mastronssa da Ermelinda diçe que não voltava lá a caza e ela çabe que quando ela lá vai lhe come as bolaxas de xocolate todas.
Beim, mas já ispliquei o que avia a isplicar e agora aí vão os meus pedidos.
Primeiros, quero uma ispingarda igual á que a minha mãi me tirou.
Depois, queria um foguetão telecumandado, daqueles que anunssiam no canal panda
Tombeim quero um istojo para fazer esperiênssias de química pruque o Bento da drugaria encimou-me umas coizas que eu cria esprimentar no Tição quando o conçeguiçe apanhar. O çacana do gato anda arisco desde que tive aqueles azares nas esperiências que fiz com ele, mas agora istá mesmo bunito de pelo lustroso, só é pena ter o rabo tão curto, mas tombeim ninguém lhu mandou meter na ratoeira que eu tinha preparado para um dos canitos do Leopoldino do talho, aquele que me vinha todos os dias mijar à porta de caza?
Mas eu não dezisto de ser o perimeiro a pôr um gato em óbrita
E agora teinho que me ir embora que a nha mãi diz que já acabou a limpeza.
Mazeu volto pra acabar a carta. Até lá, vai adiantando o pedido que axo que os fuguetões tão-se a isgotar. Tou a ver que em Janeiro vai aver bués de gatos em óbrita, ou não fôçe Janeiro o mês dos gatos!

Escrito por: VdeAlmeida, em 11/30/2005 03:19:00 da tarde | Permalink | | ( 3)Comentários
segunda-feira, novembro 28, 2005
Menino de rua
E é neste tempo de frio inexorável
que te deixa a face roxa e estilhaçada
que mais se nota a dor e a injustiça
de que a vida se compõe e te magoa
que te cava sulcos fundos pela alma
E no entanto da boca nem queixume
só os olhos reflectem a mágoa intensa
mas também uma estranha e doce calma
como se além desta rua que é tão tua
te pertencesse toda a terra, sol e lua
(Yardbird)

Sad children

V
Chorava
Dizia:
fiz tudo
errado.
Como se fosse Deus.

António Rêgo Chaves (1939)
Três Vezes Deus
(Extraído de Poemário 2006, da Assírio e Alvim)

Foto de Yves Gingres
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/28/2005 01:20:00 da tarde | Permalink | | ( 2)Comentários
quinta-feira, novembro 24, 2005
Vazios

Tento surtidas aos meus albums de recordações, aos meus baús, que me trazem sempre lembranças esbatidas pelo tempo, mas nos últimos tempos as mãos, como se fossem independentes e incapazes, recusam-se alinhar no papel as ideias que saltam e se misturam com os aromas e sons que me foram legados como heranças inestimáveis pelos meus ancestrais.
Relembro as frescuras das manhãs outonais de domingo, em que, tomado o banho quentíssimo e vestido com carinho pela minha madrinha, assistia fascinado ao ritual do enrolar das guias do bigode do meu padrinho, e comparo a calma com que decorria aquela cerimónia, obsoleta na urgência com que decorre este hoje tão incaracterístico. Recordo como depois saíamos os dois, ele, sempre impecavelmente vestido como era da praxe naquele dia da semana, o lenço alvíssimo a saltar-lhe do bolso de cima do fato de corte irrepreensível, a camisa de colarinhos engomados e a gravata que era a única nota garrida na figura quase austera, e espalhando aquele cheiro inconfundível a violetas que lhe emprestava a loção inglesa, que, sem olhar a modas, conservou durante tantos anos.
Sabia que, se o tempo estivesse de sol, o destino era um Jardim, o da Estrela ou o Parque. Se não, era apanhar o 28, atravessar Campo de Ourique e baixar à Estrela, descer a calçada e desembocar nas Janelas Verdes, que o Museu esperava sempre por nós. Recordo que quando saíamos daquelas salas repletas de tesouros, como ele lhes chamava, parava sempre um pouco junto ao gradeamento de onde se avistava o Tejo, parecendo que assim queria levar o rio nos olhos de modo a que a visão lhe durasse até ao domingo seguinte. Como ele gostava do Tejo e de arte e de música. E conhecia todas as plantas e árvores, e todos os sítios de Lisboa onda ainda havia azulejos, e sabia quando devia plantar begónias e a que hora se punha o sol. E não sabia ler.
E é com a mesma melancolia que relembro de como fazia a minha tia cantar-me musicas sem fim antes de adormecer, e ela que nunca me dizia que não, me cantava uma após outra, com aquela voz fina e afinada, tão pouco comum em alguém que nem se apercebeu nunca que sabia cantar, e desejosa que eu adormecesse depressa antes que se lhe acabasse o reportório. Começava invariavelmente com: “Josézito já te tenho dito, que não é bonito, andares me a enganar”, mas nunca me mantive acordado o suficiente para saber como acabava. Só que no dia seguinte, sabia que tudo se repetiria.
Relembro, agora que o Natal vem aí, o roçagar dos passos da minha mãe pela sala, os pés calçados com as meias de lã para que eu não acordasse, a ida furtiva até à árvore de Natal, naquela noite mágica de 24 para 25, para aí depositar os pedidos formulados em letra trémula e infantil, numa folha de papel arrancada sem muito jeito ao caderno das cópias ou da caligrafia. Perdemos sempre aquela inocência muito mais cedo do que os pais gostariam. Desnecessariamente. Apressamos tudo na nossa vida desnecessariamente, como se houvesse uma sofreguidão inexplicável e cruel que nos faz viver a vida em meia vida.
Vou aos baús, abro um após outro, e recordo-me de tantas coisas. Mas não consigo alinhar ideias ou lembranças. Há um vazio que se impõe, imperial, ditado pela falta de vontade de escrever ou pela recusa em invocar passados que nunca recuperarei.
E faço um Ctrl+Alt+Delete de tudo

Mão
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/24/2005 05:13:00 da tarde | Permalink | | ( 2)Comentários
terça-feira, novembro 22, 2005
Amor Cru
Nu na madrugada - narcis virgiliu

Aguardo-te aqui na madrugada
tecida de estrelas e de beijos
onde nada mais existe que desejos
e o tempo se esgota em quase nada
Para além de nós os dois é a escuridão
é o resto de tudo o mais, desinteressante
que só nos serve de concha aconchegante
e se fecha sobre nós como uma mão
E o nosso amor é liso, simples, nu
incansável na vertigem, despojado
desprendido de virtude ou de pecado
um amor sem adornos, um amor cru
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/22/2005 03:44:00 da tarde | Permalink | | ( 4)Comentários
domingo, novembro 20, 2005
A Música que nunca morre
Musica et Nunc et Semper

O meu poema é um enigma
Ouve-se dele sair a alma que sobe
Para outros céus, para novos amores.
Seja o meu poema a liturgia cantada
o ópio da manhã crispada,
Em que o vento verga a orquídea do Tibete,
& o som do vento é literatura
(M. S. Lourenço)


Video code provided by Music Video Codes

There's the moon asking to stay
Long enough for the clouds to fly me away
Well it's my time coming, i'm not afraid to die
My fading voice sings of love,
But she cries to the clicking of time
Of time

Wait in the fire...

And she weeps on my arm
Walking to the bright lights in sorrow
Oh drink a bit of wine we both might go tomorrow
Oh my love
And the rain is falling and i believe
My time has come
It reminds me of the pain
I might leave
Leave behind

Wait in the fire...

And I feel them drown my name
So easy to know and forget with this kiss
I'm not afraid to go but it goes so slow
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/20/2005 10:01:00 da tarde | Permalink | | ( 1)Comentários
sexta-feira, novembro 18, 2005
Coisas minhas
Ascendentes

Hoje, talvez porque se aproxima o fim-de-semana, e com ele uma certa bonomia, acordei com vontade de partilhar fosse o que fosse: pensamentos secretos, desejos escamoteados, enfim, coisas que vou guardando para mim mas sempre com vontade de divulgar, nem que seja para um poço, como o rapaz da história.
Comecei, em cima, por partilhar uma fotografia de familiares, o que já não seria pouco, mas pensei, e achei que vos podia contar, por exemplo, as coisas de que gosto e que acho que fazem os meus dias valerem a pena, e aquelas que não gosto, desde sempre.
Ora, ponderando bem, decidi começar por vos divulgar uma lista de algumas coisas que detestei e detesto:
- laranjas ácidas
- pisar em falso, ranger os dentes e morder a língua
- favas
- a trampa dos cães nos passeios, e pior ainda se por descuido a piso
- calças curtas ou apertadas entre as pernas
- meias rotas
- verificar que falta o papel higiénico só no fim
- o Fernando Pereira
- ficar sem gás a meio do banho
- filmes do Joselito
- ficar atrás de namorados no cinema
- baratas e osgas
- as canções do Giani Morandi
- os maridos da Pamela Anderson
- unhas compridas nos dedos mindinhos
- adormecer no teatro
- as poses do José Cid
- taxistas que não se calam
- roupa de contrafacção
- ter um “furo”
- filmes indianos e sem intervalo
- dores de dentes
- amêndoas amargas
- o Bush
- absinto
- insónias
- praias cheias
- estar muito tempo no mesmo sítio
- o penteado do engenheiro Sousa Veloso
E pronto, já ficam a saber mais umas coisas de mim. Estão à vontade, de acrescentar itens á lista.
Mais logo divulgo as coisas de que gosto muito

Nota: evitei falar de políticos, porque se não, não saía daqui hoje. E também não falei de clubes, mas isso é para não ferir susceptibilidades
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/18/2005 01:26:00 da tarde | Permalink | | ( 2)Comentários
segunda-feira, novembro 14, 2005
Mergulho
Nu na água3 Libor Spacek

Cavalgar
o dorso impetuoso do desejo
negar
o insuportável freio da prudência
mergulhar
nos fluídos e volúpia de um beijo
como se depois não existisse mais
do que a banalidade do vazio,
e a ausência
deixar
entrar nas veias a paixão
em festividades de sentidos, sem temor
que é o alimento da carne intempestiva
quando se liberta das garras da vergonha
e se entrega nos braços do amor


Foto de Libor Spacek
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/14/2005 04:35:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quinta-feira, novembro 10, 2005
Intruso
Interrogação
Interrogação - texto

Alexandre O’Neil

Anjo1_Narcis Virgiliu

A minha alma
é como um caramanchão sombrio
que me acolhe suspiros e desejos
em noites longas e suadas de estio
A minha alma
é um regaço de anjo onde me escondo
e que por vezes sinto nem ser meu
como se fosse sombra perdida
em noite mais negra do que breu
A minha alma
que conheço há tanto tempo
e desconheço
é um tribunal vazio onde me absolvo
e também me acuso
A minha alma
é um lugar estranho, escondido
onde por vezes entro e me sinto intruso


Foto: Narcis Virgiliu
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/10/2005 05:03:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
terça-feira, novembro 08, 2005
J'y pense et puis j'oublie! C'est la vie, c'est la vie!
montmartre
Ainda sobre a agitação social em França.
Depois de assistir ao modo descontraído como, em pleno centro de Paris, alguns turistas (e mesmo, espanto! alguns parisienses) respondiam às perguntas feitas por um jornalista de uma cadeia de televisão sobre as convulsões sociais em França, como se os acontecimentos nocturnos se passassem num outro e distante País, pergunto-me o porquê da nossa preocupação, e digo cá para comigo, como Dutronc:
J'y pense et puis j'oublie
C'est la vie, c'est la vie!

E continuo a ouvi-lo
É que esta canção escrita por ele há tantos anos, podia tê-lo sido nestes dias.
Sept cent millions de chinois
Et moi, et moi, et moi
Avec ma vie, mon petit chez moi
Mon mal de tête, mon psi
J'y pense et puis j'oublie
C'est la vie, c'est la vie
[…]
Trois ou quatre cent millions de noirs
Et moi, et moi, et moi
Qui vais au brunissoir
Au sauna pour perdre du poids
J'y pense et puis j'oublie
C'est la vie, c'est la vie
[…]
Neuf cent millions de crève la faim
Et moi, et moi, et moi
Avec mon régime végétarien
Et tout le whisky que je m'envoi
J'y pense et puis j'oublie
C'est la vie, c'est la vie
[…]
Cinquante millions de vietnamiens
Et moi, et moi, et moi
Le dimanche à la chasse au lapin
Avec mon fusil, je suis le roi
J'y pense et puis j'oublie
C'est la vie, c'est la vie
[...]


Como vês, não eram só os Cactus. O homem continua actual.

Foto de Arnaud Frich (galleria a visitar sem hesitação)
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/08/2005 10:52:00 da tarde | Permalink | | ( 2)Comentários
segunda-feira, novembro 07, 2005
Por Paris (em tempos de cólera)

Acordo sobressaltado com as notícias que me trazem de Paris.
Paris foi um daqueles amores à primeira vista, e que nunca mais me saiu do coração desde que lhe pisei as margens do Sena, os Champs Elysées, as suas passagens art-noveau, a Place des Vosgues.
Desde que me deixei perder pelas estreitas ruas do Marais, nas alamedas do Quartier Latin ou nos corredores infindáveis do Louvre. Desde a primeira vez que estaquei emudecido ante uma pequena pintura de Vincent no Musée d’Orsay, ou ante o Moulin Rouge que de imediato me deu a companhia de Toulouse-Lautrec.
Desde o bulício de um dos muitos mercados ao ar livre, este perto da Bastilha, e dos aromas das boulangeries e crêperies e da fruta exposta à porta das pequenas mercearias de Montmartre. Dos seus perfumistas, das floristas de La Madeleine e mesmo aquele cheiro acre que a neblina fina e quase permanente traz do Sena.Ainda me lembro da primeira vez que, num dos inevitáveis bateaux-mouche, percorri aquela serpente ondeante olhando para um lado e para o outro, espantado com o que o homem ao longo dos séculos conseguiu construir, fazendo daquelas margens um inolvidável prazer para o olhar

Sena1

Aquelas ruas, os carrefours, os cafés – que saudades do Deux Magots onde na minha imaginação me sentei um dia ao lado de Hemingway e Picasso – respiram uma cultura centenária que nos parece invadir, tomar conta de nós por osmose. Onde imagino sempre, que ao virar de uma esquina posso dar de caras com Verlaine ou Rimbaud.
E de cada vez que ouço uma valsa musette ou a canção de Jacques Dutronc, sinto-me transportado àquelas ruas de arquitectura inigualável. E passeio-me pela mão de Amélie ao som de Yann Tiersen.
Paris1

Agora o coração aperta-se-me na incerteza de estar tudo como dantes, da próxima vez que voltar, e como quero que esteja. E estremeço face à hipótese da intolerância, a marginalização, a exclusão social e racial, conseguirem o que uma grande guerra não conseguiu.
Palais Royal

Estes dias, são de tristeza e receios bem fundados, que a espiral de violência possa atingir níveis tais que, Paris, um dos grandes patrimónios da humanidade, se torne irreconhecível e possa perder aquele fascínio de femme-fatale que é tão seu.
Escutando a terra

Nestes dias, espero que a pira se extinga, que se escutem e o bom senso, a tolerância e a inteligência prevaleçam.
E que as palavras de as palavras de Nerval se mantenham para um futuro longínquo
Notre Dame
Notre-Dame est bien vieille : on la verra peut-être
Enterrer cependant Paris qu'elle a vu naître ;
Mais, dans quelque mille ans, le Temps fera broncher
Comme un loup fait un boeuf, cette carcasse lourde,
Tordra ses nerfs de fer, et puis d'une dent sourde
Rongera tristement ses vieux os de rocher !

Bien des hommes, de tous les pays de la terre
Viendront, pour contempler cette ruine austère,
Rêveurs, et relisant le livre de Victor :
- Alors ils croiront voir la vieille basilique,
Toute ainsi qu'elle était, puissante et magnifique,
Se lever devant eux comme l'ombre d'un mort !
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/07/2005 03:21:00 da tarde | Permalink | | ( 0)Comentários
quinta-feira, novembro 03, 2005
A vida num segundo
cellist


O, era um velho de corpo rotundo como aquele O que lhe serve de alcunha. Uma alcunha que se colara há tanto à pele que se o chamassem pelo seu nome verdadeiro ele já não acudiria.
O sentava-se todos os dias num dos bancos corridos da última mesa daquela que parecia ser a última taberna de Lisboa a ter mesas com tampos de mármore e sobre eles, umas toalhas de quadrados vermelhos e brancos, em oleado, que se limpavam ao passar do pano húmido.
A concisão era a particularidade mais notória do seu discurso. Raramente passava do monossílabo, e havia mesmo dias em que os conhecidos não lhe ouviam uma palavra.
Sentava-se ali quase desde que o tasqueiro abria a porta, até que este começava a enxotar os mais noctívagos espalhando serradura pelo chão, para secar as humidades que transpiravam dos barris empilhados junto à parede do fundo, o que muitas vezes acontecia já bem depois da meia-noite. Este, era um homem rude mas atencioso e atento, sempre de barba mal feita, sinal de que nem mesmo os óculos de lentes grossas lhe corrigiam correctamente a miopia. Tudo ali cheirava a outros tempos, o vinho carrascão, os carapaus fritos e os pastéis de bacalhau que o homem expunha nuns pratos antigos protegidos por uma minúscula vitrina, num dos extremos do velho balcão de madeira grossa, já muito desgastada pelos fundos dos milhões de copos húmidos e ainda maior quantidade de cotovelos humanos, que ali se tinham fincado. Até O .
O, quase parecia ter sido absorvido pelo ambiente e fazer dele parte integrante. Quando saía porta fora, aquele cheiro estava-lhe impregnado.
Era uma personalidade estranha, trazia sempre nos bolsos da gabardina velha que usava no Inverno e Verão, e nunca desapertava, uns jornais que eu supunha serem já antigos que desdobrava e pelos quais passava os olhos com regularidade, um pequeno e gasto caderno que de vez em quando sacava e onde fazia umas anotações que nunca descobri a que se referiam. Mas o seu passatempo preferido era preencher boletins de totoloto, que ele nunca registava.
Estranho homem, tanto mais estranho porquanto nunca ninguém nunca lhe vira comer alguma coisa, o que intrigava quem o conhecia, para mais, considerando a sua corpulência. O tasqueiro, com um sorriso condescendente, comentava que ele assimilava o ar que respirava. E curiosamente nunca lhe ouvi fazer qualquer reclamação sobre o facto de ele ali permanecer o dia todo sem nada consumir. Alguma razão haveria a justificar a generosidade.
Conheci mais de O, na sequência de um episódio que me deu uma outra noção das pequenas tragédias íntimas que cada homem pode carregar consigo.
Não era cliente assíduo do local, não porque tivesse algum problema nisso, apesar da modéstia, o homem tinha sempre tudo razoavelmente asseado, mas porque os meus caminhos poucas vezes passavam por ali. Contudo, lá havia alturas em que fazia derivar os passos, sempre apreciei estes locais tão característicos, de cores fortes em hábitos e sobretudo de solidariedades, e entrava para beber um café ou uma ginjinha com um amigo. Por vezes, quando tinha mais tempo, sentava-me um bocado e entretinha-me a ler um pouco, enquanto ia absorvendo o cheiro e o sabor do café de saco.
Num desses dias em que o tempo me deixava mais liberto, sentei-me ao pé de O, que imperturbável, preenchia os seus boletins. De repente, deu um salto brusco e assentou as mãos na mesa. A primeira coisa em que reparei era o modo como as mãos se enclavinhavam e amarfanhavam com violência a toalha, rasgando- a . Depois, foi a face congestionada num esgar tremendo, e o olhar fixo na porta. Segui-lho e deparei com um rapaz negro que descarregava grades de cerveja, tarefa que despachou rapidamente. Não sei porquê, agarrei firmemente o pulso de O e o meu gesto pareceu ter o condão de o acalmar. Sentou-se e a pouco e pouco a normalidade foi-lhe voltando à face.
Estava com receio de me meter no que não devia, mas perguntei-lhe se estava bem. Olhou-me do modo quase inexpressivo do costume e disse-me:
- Você não ia compreender.
Mas percebi que ele só queria uma oportunidade para deitar para fora o que há muito guardava e mantive-me atento, deixando-me surpreender pela narração viva que jorrou quando se deu conta que o queria ouvir.
E falou-me de como o jovem e promissor músico se perdera há quase quarenta anos numa mata perto de Bolama, entre tiros de G-3 e morteiradas. De como se sentira morrer por dentro quando, ao olhar para o lado vira o corpo esfacelado do seu amigo de sempre e colega de pauta, que no minuto anterior lhe tinha atirado com mais uma das suas brincadeiras parvas. Falou-me de como naquele momento com o irmão que ele escolhera, morrera o talento que transpirava da ponta dos seus dedos. De como o céu estava negro de fumo e os olhos vermelhos de tanto sangue.
Falou da medalha que lhe tinham dado e de que nunca percebera o porquê. E de como, passados tantos anos, o seu corpo se retesava e reagia instintivamente como se estivesse na selva, sempre que via na sua frente, um homem de uma cor diferente da sua.
Contou-me das inúmeras visitas a um médico – que deduzi ser um psiquiatra - que lhe tentara devolver o sossego e o dom que perdera nesse dia e de como, aos poucos, a família o fora perdendo a ele. E como saltara de emprego para emprego, não conseguindo conservar nenhum, até se tornar imprestável.
Aqui e ali, pelo meio de uma narrativa que de vez em quando se confundia, transparecia ainda umas réstias do homem culto, e eu deixei-o falar, sem interromper, nem perguntando por nada que ele não quisesse contar.
Quando se calou, vi que se tinham juntado a nós três ou quatro habituais fregueses, que o conheciam, mas raramente lhe tinham ouvido a voz. Tinham-se mantido em silêncio e em silêncio debandaram. O ruído ambiente tinha-se transformado num silêncio absoluto, no qual só as palavras de O ecoavam.
E O levantou-se também, e depois de me apertar ligeiramente o braço como que agradecendo a atenção, saiu, nesse dia muito mais cedo do que era seu costume, parecendo aliviado.
Fiquei a pensar na volatilidade da vida, e como um homem a pode perder num segundo, apesar de continuar a viver.
Nesse dia não consegui adormecer.

Escrito por: VdeAlmeida, em 11/03/2005 07:27:00 da tarde | Permalink | | ( 1)Comentários
quarta-feira, novembro 02, 2005
Quadros Célebres - I
Mona Lisa

Mona Lisa


(sobre foto de Yuri Dojc)
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/02/2005 01:58:00 da tarde | Permalink | | ( 2)Comentários
Já está a acontecer!
Proximizade

Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.
Escrito por: VdeAlmeida, em 11/02/2005 09:23:00 da manhã | Permalink | | ( 5)Comentários
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