
A cada dia, vou encontrando em mim o caminho das pedras



Há situações que, não tendo grande importância em si mesmas, me fazem ficar de certo modo satisfeito comigo próprio, principalmente quando verifico que não estou só em certas teses que venho há algum tempo defendendo, para mais quando a companhia é de peso.
Ora na 6ª feira passada tive direito a mais um desses momentos de gratificação pessoal quando assistia ao lançamento, no El Corte Inglès, do último livro de Luís Sepúlveda, “Os piores Contos dos Irmãos Grim”. Confesso que não sou muito destas cerimónias onde as pessoas vão mais pelo pastel de bacalhau que pelas obras divulgadas, mas desta não resisti a conhecer pessoalmente um dos meus escritores de eleição.
Uma nota para referir que o livro foi escrito de parceria com o escritor urugaio Mario Delgado Aparaín, que também estava presente. A obra, e o título fá-lo perceber, é um exercício de humor (irresistível, acrescento).
Ora no meio do improviso de introdução à obra, Luís falou da vertente sexual de algumas dos livros dos mais conhecidos irmãos Griimm (com dois emes, que estes sobre quem eles escrevem, são outros dois irmãos, Caim e Abel, só se assinavam com um, não alemães, mas gauchos e cantantes e não autores de histórias).
Nomeadamente, referiu ele que o conto da Branca de Neve e os Sete Anões era uma evidente apologia da pederastia, opinião que há muito defendo, porque, tenho a certeza, não seria normal que uma jovem no auge do vigor e na plena posse das suas faculdades, sujeita a ímpetos como todo o jovem saudável, se entregasse a uma vida de castidade tendo ao seu alcance sete, digo sete, machos que, embora pequenos, não deixam de o ser, a menos que estes sofressem de alguma alergia mal especificada. Como não seria expectável que, os pequenos habitantes do bosque não aproveitassem para tirar a barriga de misérias, depois de tantos anos de prazeres solitários ou de orgias de sentido único, factos que os autores, escondem despudoradamente ao leitor menos avisado. Veja-se a desolada cara de Dunga, o seu choro convulso, quando vê a sua iniciadora nos prazeres terrenos, adormecida pelo veneno da bruxa má, e aí teremos a prova de que só a tragédia de se ver sem o objecto do seu desejo, de se ver na perspectiva de ter que voltar ao seu papel passivo perante os desejos libidinosos dos seus parceiros mais velhos, seria passível de tão desesperada reacção.
É verdade que, há uns tempos defendi a tese que os sete anões, tal como TinTin, Batman e outros personagensm seriam de sexualidade ambígua, mas hoje já poucas dúvidas me restam. Se na relação de Batman com Robin ainda chegou a haver campo para algumas dúvidas aquando da aparição da Catwoman, fugaz, uma vez que o herói-morcego se encarregou de eliminar um obstáculo que se poderia interpor entre ele e o seu jovem amigo, ainda em idade de mudar de orientação, em relação a Tintin nem alguma vez a questão se pôs, porque à sua relação com Hadock, nem Castafiore chegou a constituir ameaça. O rapaz que prolongava a sua adolescência, e escondia o passar dos anos debaixo de um penteado punk e de umas calças Jean-Paul Gautier, era um misógino impenitente que só se abria com os seus amigos homens. As permanentes bebedeiras de Hadock eram, na minha perspectiva sinal, de que era no álcool que o marinheiro escondia algo que nem a si próprio queria confessar.
Poderia também falar dos interesses subliminares de Gepeto em relação ao seu protegido Pinóquio, manifestamente denunciados na maneira dúbia como o sentava no seu colo, para pretensamente o aconselhar (aliás, esta história é toda muito cheia de subentendidos, com aquele Grilo com poses de grila)
Mas em relação aos sete pequenos, mudei a minha opinião, depois de ler as excelentes obras da socióloga da Papua-Nova Guiné, drª Olívia Dild O Littlemen, “How to turn your midget in a sex toy”, e “How I sexually survived 10 years among the pigmies of the Kalaari” , em que ela descreve as suas experiências de vida com povos de altura abaixo do normal, em vários pontos do globo, nomeadamente no Botswana, e de como conseguiu desviar muitos dos hábitos sexuais deles em seu proveito.
Não poderemos, contudo, passar das especulações, uma vez que tem sido sistemáticas as mistificações com que temos sido bombardeados com o intuito de nos confundir
, algumas das quais vindo dos pseudo-moralistas tempos vitorianos, outras mais recentes, nomeadamente dos estúdios Disney, conforme atesta a imagem ao lado, cortada do filme, e bem denunciadora dos atrevimentos da Branca de Neve (corte talvez prenunciador dos tempos de censura macarthista que se avizinhavam) e que me foi enviada pelo douto bibliógrafo inglês radicado na Alemanha e grande estudioso da obra dos dois irmãos, Rudolph Pinok-Adams, que me assegurou que a mesma fazia parte da 1ª edição ilustrada do conto, editada por uma impressora de Marburgo por volta do ano de 1830.
Para finalizar. e porque já vos deixo bastante matéria para reflexão séria, acrescentaria que ando agora a fazer umas investigações exaustivas sobre a verdadeira índole da relação de amor/ódio entre Peter Pan e o Capitão Gancho

Cobre-se a paisagem do vermelho,
do ocre e do perfume da folhagem,
vagueio por caminhos solitários,
e deixo-me sorver pela voragem
deste Outono há tanto desejado,
que deixa as árvores nuas como almas,
abranda veemências e sentidos
e transforma o desejo em noites calmas
Deixo perder o olhar no horizonte,
o tempo não é mais que uma quimera
espero-te sentado, o mar defronte,
ansiando que me dês tu a Primavera

A última récita nos Vendedores de Jornais, foi novamente um fiasco, apesar do Jacob, que é agora o Presidente, ter andado quatro meses a preparar aquilo. E mesmo com toda a sua experiência de homem de negócios, (tem uma loja de penhores e empresta dinheiro ao mês, com uns juros que nunca ultrapassam os 10%), levou uma bolada das grandes. Teve um prejuízo para cima dos 300 € e isso para ele é pior que se lhe arrancassem um dente do siso a sangue frio. Acho que foi o pior que lhe aconteceu desde que a Adozinda lhe estragou o sobretudo de serrubeco negro que o pai lhe tinha deixado e que já tinha servido 3 gerações.
Aquilo começou logo mal, porque a Elisa como é costume, levou um vestido em lamé vermelho de tal forma apertado que os peitos dela pareciam duas bolas saltitonas do tamanho de melancias a quererem saltar cá para fora, porque além de ser apertado, o vestido, tinha um decote que lhe chegava aos joelhos. E como nós ficámos na 1ª fila, o sr. Jaime, que é o maestro, distraiu-se a subir os degraus do palco, tropeçou e caiu para cima da Idalina, que é uma moça a atirar para o forte e espetou-lhe a batuta no pandeiro, que é o instrumento que ela toca. Pior ficou o Damásio, que é o organista, porque levou com os cento e tal quilos da Idalina em cima, e não ficou capaz de tocar. A bem dizer, o sr. Jaime também não ficou nada bem e teve que ir levar uns pontos no sobrolho ao hospital, porque bateu na borda do bombo. Bem feito, que não tinha nada que andar a deitar o olho ao que não devia.
Ora este incidente deu como resultado que a pequena banda que o Jacob tinha arranjado, e de que é o mecenas – em dias de ensaio, ele fornece bifanas, coiratos e cervejas com 10% de desconto – e que andava a ensaiar há quase 3 meses, se viu privada do maestro, organista e mesmo o pandeiro da Idalina ficou só a 50%, o que constituiu um rude golpe. Ainda se ponderou a hipótese de eles não tocarem, mas o Jacob ficou piurso e disse que não admitia que o seu lucro (como era noite de gala, aproveitou para cobrar entradas e pôr os preços ao nível do Bica do Sapato) fosse por água abaixo, nem sequer queria pensar em devolver a massa das entradas.
O Guiomar, que é um velhote que toca violoncelo, disse que sem as indicações do maestro era difícil, mas o Jacob disse-lhe para tocar de ouvido. Ora o Guiomar é um bocado surdo, e ainda por cima, cada vez que tocam juntos, mete uns algodões nos ouvidos, porque diz que o trombone do Alfredo, que toca mesmo atrás dele, lhe faz dores de cabeça (mas eu acho que isso é por causa das porradas que a vara do trombone lhe dá de vez em quando na cabeça, e não por causa da música, embora se diga que o Alfredo não é nenhum portento). Portanto, já devem estar a imaginar o salsifré que aquilo deu. Era cada um a tocar (?) para seu lado, e o cão do Jacob que estava muito sossegado atrás do balcão, fugiu a ganir.
Bem, mas isto não foi o pior. Isso foi mesmo quando o Afonso subiu ao palco para cantar o fado. Era a primeira vez que ele cantava desde que regressara dumas férias numa ilha das Caraíbas de cuja não vou especificar o nome, que lhe tinham saído numa rifa da mercearia do Alecrim, e que não tinham sido nada do que ele tinha imaginado. É que o se o hotel era mais mixuruca que uma pensão do Intendente, a praia, que nos postais era uma maravilha tropical, quando ele lá chegou constatou que os seus clientes mais numerosos eram os tubarões. O pior foi que ele só deu por isso depois de se atirar ao mar. A Arminda, que é a mulher, bem lhe gritou que lhe parecia ter visto uma barbatana suspeita, mas ele já ia em pleno voo e um tubarão ferrou-lhe logo o dente, embora de fugida, porque ele ainda se conseguiu pirar e não teve danos de maior. Pelo menos as marcas não são muito visíveis embora um bocado embaraçosas. Quer dizer, quem olhe para ele ninguém diz que sofreu um ataque de tubarão. Só se dá por isso quando ele abre a boca para cantar e desde a noite da récita, a alcunha dele é o “Farinelli das Trinas”, ele que antes era conhecido como o Rouxinol da Madragoa. Oxalá que ele não descubra que fui eu que lha pus. De qualquer forma, ele também não sabe quem foi o Farinelli.
Claro que aquilo foi a machadada final no espectáculo, e o Jacob nem teve coragem para impedir as pessoas de sair. A Elisa ainda se ofereceu para substituir o Afonso, mas aí é que foi a debandada geral, até o Jacob correu a guardar os copos que ele diz que são de cristal, mas que eu sei que ele comprou num armazém de venda de vidros por grosso.
Claro que, em última análise, o mais prejudicado fui eu, porque estava à espera que a tia da Elisa adormecesse e assim ficássemos mais à vontade, que o vestido e o que ele deixava ver, prometia, mas aquilo tudo ainda excitou mais a sacana da velha, e quando é assim, parece um bulldog de volta da sobrinha, e como me tomou de ponta, só lhe falta fazer-me o mesmo que o tubarão fez ao Afonso. Vontade não lhe falta. Ainda por cima, quando abri a janela para o fresco da noite entrar, lá estava a Otília e o Vidal a divertirem-se, que nem uns malucos (porque mesmo lá longe bem ouvia a algazarra), ela deitada de costas na cama (só lhe conseguia ver os pés), e ele estava em cima do psiché todo nú, só com uma echarpe à Alfredo Marceneiro e a cantar a Mariquinhas. Portanto, está-se mesmo a ver que a noite não foi má para toda a gente!
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Esta, foi há dias na tasca do Adérito:
O Aníbal, desde que aderiu à netcabo para ter acesso à Internet, como lhe recomendaram os seus amigos Elderes (ele agora, desde que soube que os mórmons podiam ter uma quantidade de mulheres, inscreveu-se como militante), não para de ter problemas com eles. Eu já lhe disse que primeiro devia aprender a trabalhar com o computador, mas ele não me ouve e acha que eles têm que lhe fazer tudo.
Estava eu a tomar o café e a ler a Bola, quando ele entra pior que estragado e manda-me com esta:
- Já reparaste que os gajos da netcabo são como os tomates?
- Porquê? Agora têm farda vermelha?
- Não, pá! Andam sempre juntos e aos pares, não fazem nenhum, e às vezes só servem para atrapalhar!
Os tipos arranjaram ali um inimigo para a vida.
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Nota: - Não sei se sabem, mas aqui há uns tempos, apanhei o Carlinhos a escrever aqui no pc umas bacoradas, e vi que ele até tinha publicado umas coisas disparatadas aqui no blog. Dei-lhe um puxão de orelhas e fiz queixa à mãe. Ora uns dias depois, o puto engatou a mãe para lhe comprar um cãozito. Eu não sei se o sacana do puto o ensinou, só sei que já depois de eu ter escrito aquilo que está antes desta nota, a mãe dele veio cá fazer a limpeza semanal, e trouxe o cachorro. E o estupor do cão, enquanto eu estava a falar com a dona, fez o que a foto a seguir documenta. Eu nem queria acreditar, mas ainda bem que eu tinha a máquina à mão, para ficar como testemunho da falta de consideração de que fui alvo.
Acho que um dia destes, vou ter que arranjar outra pessoa para me vir cá limpar a casa!
Nota2: - Não me esqueci da história do "Tripé". Ainda esta semana eu conto.




Densa a noite abrasante de luar
cobre-me como um manto sem espessura
roçando-me a pele como veludo
e há esplêndido o teu corpo em movimento
que ao meu se oferece e se costura
numa cromia de desejo incandescente
como se tudo se resumisse no presente
E é este azul intenso que flutua
no espaço que ocupas, leve e nua
e perfuma intensamente o meu olhar
e incendeia sem pudor o madrugar

No pequeno jardim, enquadrado por árvores de respeitável envergadura, sombrio e limpo, a única nota dissonante na harmonia da manhã fresca é o homem deitado no banco, nas mãos um jornal de notícias velhas e letras desbotadas, ao lado, no chão, uma garrafa de refrigerante, meia de vinho tinto. Nos olhos fundos, a sombra da noite não dormida. Não parece um sem-abrigo. Passo por ele e sinto um estranho incómodo.
Chego-me ao gradeamento do miradouro e espreito a outra colina, no outro lado do vale onde repousa a baixa da cidade. Serena, como sempre ao domingos de manhã. Esse, é um dos objectivo da minha visita, ver de um local que nunca fez parte das minhas memórias mais antigas, os sítios que percorri vezes sem conta, da outra “margem”, vê-los com um olhar diferente, mais distanciado.
Este jardim não é meu. O outro, em frente, que debrua a colina com aquele estranho cor-de-rosa-quase-violeta, sim. Subi aquela calçada, ligeira mas prolongadamente íngreme, vezes sem conta, umas à boleia do “amarelo” que saía do Carmo, com destino no Rato, outras, a pé, ao som de pregões perdidos no tempo, como os dos ardinas, que iam ali ao Bairro Alto levantar os jornais, de que depois gritavam as notícias do dia por toda a cidade. E quase me consigo ver a subi-la novamente. Lá ao longe....
Se aqui, quase tudo me é um pouco estranho, além, até os mármores da igreja de S. Roque me são familiares, passando pelos alfarrabistas, pelos cafés, pelo movimento constante. Ou por aquele outro jardim, donde se tem uma das mais belas vistas da parte velha da cidade.
Gosto de diversificar os ângulos porque vejo as coisas. Tento assim, dar curso à imaginação, abrir novas perspectivas, diversas das que me são mais habituais. Até as que tenho da vida. Por isso muitas vezes me imagino fora do meu corpo, a assistir à minha própria vida como se estivesse confortavelmente sentado numa plateia de um cinema. De preferência, na antiga sala do S. Jorge, que sempre foi a minha preferida, excepção aberta ao S. Luís, mas esse poucas vezes cumpria esse desiderato.
Talvez por uma estranha associação de ideias, vem-me à ideia a figura de um Vadinho descarado, sentado no rebordo do guarda-roupa, assistindo à vida que a sua viúva Dona Flor, vai prosseguindo sem ele. Será essa uma possibilidade para nós, no após? Terá o grande escritor baiano acertado quando criou a sua empolgante ficção? Confesso que são dúvidas sobre as quais por vezes especulo tranquilamente, embora seja pouco dado a divagações metafísicas.
A visita terminava. Viro-me. O homem da garrafa continua agarrado aos jornais velhos e a uma vida que jaz líquida dentro de uma garrafa e que é mais ficção que o romance do Jorge Amado. Nos outros bancos, os ocupantes interessam-se por notícias mais actuais, de preferência de carácter desportivo, e ele nem um olhar de comiseração lhes merece.
Gostei de uma das "minhas" colinas vista dali e fotografei-a
A cidade continua bonita. Apesar das pequenas tragédias que a povoam.



Buscas-me no local
mais improvável
e no entanto,
como o líquen antigo
invado-te as paredes,
ocupo-te a sombra
entranho-te na minha pele
e estás comigo
tão profundamente
como se os nossos seres
fossem um só
e a vida corresse
alheia a nós, e lentamente
Fotos de Geoffroy Demarquet

Aproxima-se uma data que, provavelmente, determinou o despertar mais efectivo da minha consciência política, o 11 de Setembro. Não o de 2001, mas outro mais remoto e do qual para muitos, não resta senão uma ténue e desbotada recordação, como uma fotografia a sépia.
Nesse dia de 1973, Pinochet e os seus torcionários derrubaram o governo democrático de Salvador Allende respaldados no apoio descarado da CIA e do tão fértil em atentados à democracia, governo de Nixon.
Nesse dia já tão longínquo, mas que a minha memória teima em preservar, a parca saiu á rua vestida com o infame uniforme nazi, esmagou consciências, torturou e assassinou intelectuais e sindicalistas. Executou artistas e anónimos, indiscriminadamente, torturou e matou cantores e poetas para que não pudessem cantar as lágrimas de um povo.
A besta transformou os recintos desportivos em campos de tortura e morte, e durante quase duas décadas, sob o olhar condescendente do Tio Sam e seus acólitos, manteve um povo sequestrado, mas nunca calado, sob o peso da bota de uma ditadura canalha e até hoje impune.
- Sendo estranho que ainda não se tenha ainda determinado o número exacto de vítimas do 11 de Setembro de 2001, não será aterrorizante constatar que até hoje, e passados mais de 30 anos, haja ainda no Chile, listas de pessoas cujo paradeiro nunca se conseguiu determinar?
“Venham ver o sangue nas ruas de Madrid. Eram mulheres, homens, crianças, velhos a simples e pura humanidade que começava mais um dia de trabalho, de sonhos, de esperanças, sem saber que a vontade assassina de uns miseráveis tinha decidido que fosse o último. Venham ver o sangue pelas ruas de Madrid, essa cidade amada a que todos chegam e onde todos são bem-vindos.” Isto escreveu Luís Sepúlveda, chileno, longe da sua terra, quando há tempos atrás, se emocionou às lágrimas com a tragédia que atingiu o povo que anos antes generosamente acolhera o exilado político, o cidadão sempre atento a injustiças e às atrocidades cometidas em nome de credos e políticas mais que questionáveis. Isto poderia ter escrito outro qualquer escritor sobre o 11 de Setembro de 1973 em Santiago.
Nesse, como noutros acontecimentos de ingerência descarada na política interna de países soberanos, em que foram cúmplices mais ou menos disfarçados, ou mesmo intervenientes directos e descarados, radica a aparente indiferença com que o resto do mundo assiste á tragédia da população pobre da região de New Orleans, e que parece surpreender alguns observadores.
Mas o que o cidadão comum sente é, não indiferença pelo sofrimento de tantos milhares de seres humanos, eles mesmos segregados no seu próprio país - e as campanhas de solidariedade a correr em todo o mundo, provam-no- mas desprezo pelos mandantes, sempre tão atentos ao que se passa na casa dos outros, a quem pretendem impor os seus valores tidos como indiscutíveis, e incompetentes afinal, para valerem aos seus.
Hoje ,
queria poder
pintar tudo à volta de mil cores
com uns olhos ingénuos
de criança
que são os pincéis
mais belos que há no mundo
e capazes dos tons
mais sedutores
Hoje
queria eu entrar pela calada
em teu jardim
de noite e poesia
colher a mais bela flor
do teu canteiro
e poder guardá-la
cioso, só p’ra mim
Hoje
queria deitar-me na relva
e olhar o sol,
sorrir,
depois, soltar o riso em desatino,
deixar a alma ao vento
e gritar
que a paixão é mais forte
que o destino


Apesar de quase já não existirem os pequenos regatos artificiais, a exuberância da flora de outras terras está presente em cada recanto,
e tomando as formas mais bizarras, umas vezes
outras, transportando-nos a imaginação para paraísos tropicais.
Sobram os recantos aprazíveis, apesar da falta de água se fazer sentir dolorosamente, como aqui, debaixo desta ponte,
que se devia reflectir na correnteza de um pequeno fio de água, do qual só resta o leito estreito, agora tomado pelas ervas.
Entre toda aquela vegetação luxuriante, só consegui vislumbrar este pequeno lago, excelentemente enquadrado na paisagem, mas de águas pouco tratadas.
Notei-lhe também a lacuna de não existir uma esplanada, ou mesmo um pequeno café. Restam os muitos bancos para descansar e usufruir daquela majestade da natureza
Mas como referi, até se dá de barato a falta de água e da esplanada, entregando-nos graciosamente à serenidade que escorre de todos aqueles matizes de verde e terra, ao romantismo que transpira de todos aqueles recantos, e que ainda é poiso preferido para muitos casais de namorados
Nota – À entrada do Botânico, há uma pequena estufa com curiosas plantas “carnívoras”. Um destes dias, deixo as fotos