Novos Voos - Take Two

quarta-feira, setembro 07, 2005
Uma data histórica

Aproxima-se uma data que, provavelmente, determinou o despertar mais efectivo da minha consciência política, o 11 de Setembro. Não o de 2001, mas outro mais remoto e do qual para muitos, não resta senão uma ténue e desbotada recordação, como uma fotografia a sépia.
Nesse dia de 1973, Pinochet e os seus torcionários derrubaram o governo democrático de Salvador Allende respaldados no apoio descarado da CIA e do tão fértil em atentados à democracia, governo de Nixon.
Nesse dia já tão longínquo, mas que a minha memória teima em preservar, a parca saiu á rua vestida com o infame uniforme nazi, esmagou consciências, torturou e assassinou intelectuais e sindicalistas. Executou artistas e anónimos, indiscriminadamente, torturou e matou cantores e poetas para que não pudessem cantar as lágrimas de um povo. A besta transformou os recintos desportivos em campos de tortura e morte, e durante quase duas décadas, sob o olhar condescendente do Tio Sam e seus acólitos, manteve um povo sequestrado, mas nunca calado, sob o peso da bota de uma ditadura canalha e até hoje impune.
- Sendo estranho que ainda não se tenha ainda determinado o número exacto de vítimas do 11 de Setembro de 2001, não será aterrorizante constatar que até hoje, e passados mais de 30 anos, haja ainda no Chile, listas de pessoas cujo paradeiro nunca se conseguiu determinar?
Venham ver o sangue nas ruas de Madrid. Eram mulheres, homens, crianças, velhos a simples e pura humanidade que começava mais um dia de trabalho, de sonhos, de esperanças, sem saber que a vontade assassina de uns miseráveis tinha decidido que fosse o último. Venham ver o sangue pelas ruas de Madrid, essa cidade amada a que todos chegam e onde todos são bem-vindos.” Isto escreveu Luís Sepúlveda, chileno, longe da sua terra, quando há tempos atrás, se emocionou às lágrimas com a tragédia que atingiu o povo que anos antes generosamente acolhera o exilado político, o cidadão sempre atento a injustiças e às atrocidades cometidas em nome de credos e políticas mais que questionáveis. Isto poderia ter escrito outro qualquer escritor sobre o 11 de Setembro de 1973 em Santiago.
Nesse, como noutros acontecimentos de ingerência descarada na política interna de países soberanos, em que foram cúmplices mais ou menos disfarçados, ou mesmo intervenientes directos e descarados, radica a aparente indiferença com que o resto do mundo assiste á tragédia da população pobre da região de New Orleans, e que parece surpreender alguns observadores.
Mas o que o cidadão comum sente é, não indiferença pelo sofrimento de tantos milhares de seres humanos, eles mesmos segregados no seu próprio país - e as campanhas de solidariedade a correr em todo o mundo, provam-no- mas desprezo pelos mandantes, sempre tão atentos ao que se passa na casa dos outros, a quem pretendem impor os seus valores tidos como indiscutíveis, e incompetentes afinal, para valerem aos seus.

Escrito por: VdeAlmeida, em 9/07/2005 03:56:00 da tarde | Permalink | |


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