Novos Voos - Take Two

quarta-feira, agosto 10, 2005
Caminhos
Passeio Jeno Apu
Foi ao voltar àqueles velhos caminhos, dantes viçosamente bordejados por um verde intenso só manchado pelo ouro das searas, mesmo quando o sol, inclemente, se deixava abater sobre a terra, cor que agora quase só habita em recordações, de tão descuidada a terra, de homens e elementos, que me voltei a lembrar dela.
Conheci-a nos primórdios. Nos meus primórdios. Num tempo em que as estações ainda eram delimitadas, e eu sabia que Agosto ia ser todo ele excitantemente quente, e Setembro temperaria, aqui e ali, molhado pelas primeiras bátegas de chuva que anunciavam o Outono e traziam consigo as formigas de asa e os taralhões, cuja caça era alvo obrigatório de todos os cachopos da aldeia, que então partiam campos fora, acordados ainda noite cerrada, para apanharem os alvores com as armadilhas já montadas, e com elas a certeza de que muitas das ingénuas e pequenas aves, teriam o destino, cruel, traçado.
Ela era como a terra, parecia-me sempre emanar dela, tal era a sua força telúrica. Tinha já nessa altura a pele curtida, rasgada por profundas rugas e pintada com aquelas manchas de oxidação que são o ferrete com que a idade lembra que já passaram muitas primaveras, e as feições do rosto anguloso, bem marcadas, como que esculpidas pelo cinzel de um escultor obcecado pela geometria. Os olhos eram fundos, mas brilhantes e guardavam neles uma alegria de viver que só se esgotou na morte, e que se prolongava à boca, de lábios já finos dos anos, que sorriam muito. Entre uns e outra, um nariz ligeiramente adunco, que lhe davam um ar provavelmente masculino, e que era, como vim a perceber na idade em que nos começamos a aperceber destes pormenores, uma espécie de marca registada da família.
O corpo mediano de altura, era condizente com a face, escorrido, magro, quase esquálido, testemunha dos anos de labor intenso, que se iniciava ao nascer do sol, e só se acabava quando se apagava a última candeia de azeite. O retrato exemplar de uma vida igual a tantas outras, traçada pela austeridade da Beira profunda, e, por esses tempos, quase selvagem. Como ela.
Gostei dela desde que a conheci. Quem não gosta das avós? Mesmo que, como a minha, não fosse pródiga em demonstrações excessivas de carinho, que para ela seriam consideradas desnecessárias porque sabia que cuidava de mim com a atenção justa, sem nunca me cortar liberdades ou reduzir espaços. Aqueles 3 meses de Verão, eram tempos sem tempo, em que os únicos horários cumpridos eram os que eram marcados pela fome, e essa vinha sempre sensivelmente às mesmas horas. E quando chegava a altura, lá estávamos os dois, com o cheiro do caldo verde e do pão de centeio que ela só cozia duas vezes por semana no forno do quintal, mas cujo aroma permanecia e impregnava aquelas paredes para todo o sempre. Mas se as refeições eram quase sempre austeras, sem grandes requintes gastronómicos, que os ventos da abundância, corriam longe, a sua frescura era garantida, porque os ingredientes vinham directamente da horta ou da capoeira, para a panela de ferro de três pés, que fervia sobre as achas da lareira.
À noite, era na balaustrada de madeira que se estendia sobre o quintal, e onde chegavam aqueles odores fortes da natureza misturados com os cantares das cegarregas que a aragem trazia, e desfrutando aquele céu imensamente negro, pontilhado de mil ínfimas luzes que bruxuleavam lá longe, que o sono se ia aproximando de mansinho, enquanto ela contava histórias do tempo em que os lobos e as raposas, pela altura dos grandes rigores invernais e das grandes fomes, se aproximavam perigosamente da aldeia em busca da rapina possível, que lhes garantisse a sobrevivência, e de como lhes resistiam as gentes, quase tão parcas de que comer, como os próprios animais. Eram sempre histórias simples, que ela não sabia contos de fada nem nunca tinha tido tempo para fantasias ou brincadeiras. Eram histórias vividas, despojadas, mas que me deixavam sempre fascinado.
Foi ao voltar àqueles caminhos que a recordei. Naquela altura, percorríamo-los ambos, ela sempre de passo apressado que queria chegar com o almoço a horas, à fazenda onde o meu avô passava os dias de semana. Por vezes tinha que correr para a acompanhar, e admirava-lhe sempre aquela rapidez e presteza, invulgares na sua idade. Doutras, quando o tempo não apertava, sentávamo-nos a descansar uns minutos, à sombra de enorme carvalho secular, tão grande que naquela planura se avistava a quilómetros de distância. Foi também por ele que a recordei, sacrificado que foi a uma estrada que bem podia ter sido feita, respeitadora, dois ou três metros ao lado.
Dela guardo o rosto dilacerado pela dor, na única vez que veio a Lisboa, à cabeceira do leito de morte de um dos seus filhos, pelo qual nunca mais abandonou as sombrias e pesadas vestes negras. Apesar da minha pouca idade, a imagem foi tão impressiva, que ficou comigo até hoje.
Dela, guardo o cheiro ao pão de centeio acabado de cozer, o sabor do caldo verde. O sorriso aberto e a aspereza das mãos, rasgadas pelas urzes e pelas estevas, e que por vezes se me estendiam pela face e pelos cabelos, breve, levemente. E guardo também aquela temperança de afectos, muita vez só por pequenos gestos demonstrados. Mas bem reais.

Foto de Jeno Apu
Escrito por: VdeAlmeida, em 8/10/2005 03:41:00 da tarde | Permalink | |


3 Comments:


  • At 6:30 da tarde, Blogger wind

    Texto muito bom de homenagem à tua avó. beijos  
  • At 3:24 da tarde, Blogger Invisible Girl

    :) Tão bonitas lembranças.
    Quando estavas ao pé dela ou naquele lugar em particular não tinhas a sensação de que sempre foste de lá e não eram umas simples férias?  
  • At 9:21 da manhã, Blogger Yardbird

    Após um breve interregno, uma espécie de jejum, não só fruto das circunstâncias, mas também auto-imposto, venho-vos agradecer as vossas palavras. E sei que ela também agradece :)
    Beijinhos e abraços. E até já

    P.S.- Sofia, aqueles lugares eram mesmo meus :-)  
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