Novos Voos - Take Two

sexta-feira, julho 29, 2005
Já quis ser como o Steve McQueen

Houve um tempo, longínquo, em que eu quis ser como o Steve McQueen.
Nessa altura, convivia muito com o L, um colega e amigo que tinha várias particularidades que eu apreciava particularmente, o que fazia com que procurasse a sua companhia com assiduidade. Nenhuma dessas peculiaridades tinha a ver com a qualidade escolar, aí, equivalíamo-nos e éramos ambos sofríveis, talvez porque tínhamos demasiadas coisas a desviar-nos as atenções cá para fora, as tardes de cinema ou de bilhar no Jardim Cinema, a música, os desatinos que eram muitos porque a imaginação dele fervilhava sempre de ideias, nem sempre as melhores.
Tinha uma mãe sempre muito presente, uma espanhola muito bonita, com um tipo invulgar, nórdico, que tinha casado muito nova. Andava sempre muito bem vestida e maquilhada, especialmente os lábios grossos vincados a carmim, parecia uma estrela de cinema, o que fazia com que cada vez que aparecia no liceu, houvesse burburinho entre a rapaziada, nessa altura já éramos espigadotes e a atracção pelo sexo oposto já era acentuada. Uma vez o V disse-lhe que ele tinha uma mãe “muita boa” e sugeriu uma situação incestuosa, caso ela fosse mãe dele. Toda a gente riu, mas o L não gostou muito. A verdade é que nós em certas idades não somos um modelo de sensibilidade.
Admirava-lhe a aptidão para surripiar discos, especialmente Lp’s, das discotecas, e caía-me o queixo quando o via sair da loja sem os pagar, mesmo à frente dos empregados, que só faltava desejarem-lhe um “Até à próxima”. Se ele ficasse tão atrapalhado como eu ficava sempre, seria, de certeza, apanhado à primeira.
A descontracção dele era tanta neste género de coisas, que andou praticamente um ano a comer sem pagar no 1500, mesmo ao lado do Pedro Nunes. Como vivia longe de casa, havia aulas de de manhã e à tarde e não havia cantina, os pais davam-lhe dinheiro para almoçar fora. O 1500 era o sítio mais próximo. Tinha um balcão grande e vários empregados, mas aquilo era um bocado desorganizado, os empregados não tinham zonas específicas distribuídas, pelo que o mesmo cliente acabava por ser atendido por 2 ou 3 diferentes e a conta era feita no guardanapo e dita ao cliente. O L reparou nisso e quando acabava a refeição, levanta-se e saía normalmente. Os empregados pensavam sempre que ele tinha pago a outro colega. E no outro dia, lá voltava ele, com o ar mais descontraído possível para comer à borla.
Era assim que acumulava somas muito razoáveis, e como gostava de cinema como eu, nunca faltava às estreias no S.Jorge, à custa de uma tarde de gazeta. E uma vez convidou-me para ver uma coboiada. “É com o Yul Brynner, já me disseram que é um espectáculo”. E como o bilhete era de borla, fui.
O filme era “Os Sete Magníficos”, e foi nessa tarde que travei conhecimento com o Steve

Steve - Os 7 magníficos


A fita era efectivamente muito boa e integrava uma constelação de actores. Nunca tinha visto nenhum filme com o James Coburn e achei espectacular o seu desempenho, conheci o Charles Bronson (acho que foi o único filme decente que vi dele), e claro, havia o Yul. Mas quem me chamou a atenção foi aquele homem de olhar profundo, que respirava tranquilidade.
A partir de então segui-lhe a carreira. A seguir, acho que vi “A Grande Evasão”, e nunca mais me esqueci daquele, ploc, ploc, da bola de beisebol que ele atirava contra a parede, nem o salto por cima do arame farpado dos nazis, montado na sua moto. E o "Bullit", onde assisti à, até então, mais louca e espectacular perseguição em automóvel, pelas ruas de S. Francisco. Por causa disso, durante alguns anos, o meu sonho de carro foi aquele Mustang.

Stevemcqueen Moto


Admirava-lhe aquela a sua calma, aquele ar imperturbável de quem parece ter sempre tudo sob controlo, o seu sorriso fugaz, quase imperceptível. Até aquele cigarro sempre ao canto da boca, companheiro inseparável que acabou por lhe abreviar a vida, que lhe dava um aspecto de Lucky Luke da vida real, e que nos dias de hoje lhe daria uma imagem muito politicamente incorrecta, mas na altura, lhe compunha a imagem do homem macho que então Hollywood exigia. Admirava-lhe a postura, e achei sempre que nada daquilo era pose, não demonstrava a mínima afectação.
Foi, provavelmente, se não o meu herói, acho que o único que alguma vez tive foi o Peter Pan (há uns dias li uma entrevista com o Alice Cooper onde ele afirmava que sempre preferira o Capitão Gancho, e percebi então porque nunca apreciei a sua música), mas um modelo de personalidade, muito cool.
Que, confesso, nunca consegui assumir.

Escrito por: VdeAlmeida, em 7/29/2005 03:00:00 da tarde | Permalink | |


2 Comments:


  • At 11:49 da tarde, Blogger MJM

    NOTA: o 'hello sacana' enfaralou-se de novo.

    Este comm era pro post acima;)

    (Já ouvi a música três vezes. Achas normal? Claro que achas) ;)

    Thks pelo passeio.
    Have a nice w.e. & a ks on top  
  • At 9:27 da tarde, Blogger Yardbird

    Acho que desta a culpa não foi do Halo, mas minha.
    A música é boa, não é? :-)
    Kisses  
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