
Espreguiçou-se, olhou o relógio e sorriu. Estava na hora e a disposição era a melhor. Costumava dizer para consigo, que aquela sesta depois do iogurte magro e da tosta seca do lanche, era como um sono de beleza.
Levantou-se, e ao passar pela porta da casa de banho, mirou-se no espelho que a cobria quase completamente. Hum…as aulas de step e de pilates estavam a valer o dinheiro. O corpo dava mostras de uma elasticidade quase felina, e os músculos, desenhados perfeitamente mas sem excessos, pareciam-lhe ter atingido a perfeição.
Entrou no duche morno, a temperatura ideal, calculada ao grau. Não suportava a água fria, e a quente dava-lhe cabo da pele.
Após uns minutos de relaxamento e gozo, saiu e secou-se. Cada centímetro cuidadosamente, após o que passou um creme suave e aromático por todo o corpo e vestiu um conjunto de soutien-gorge e cueca fio-dental, de um branco imaculado, que escolhera cuidadosamente em função da sua pele morena. Orgulhava-se dos seus cuidados com os pormenores, e fazia-o pensando sempre nos clientes, muitos deles já amigos. E por este seu cuidado, eles demonstravam muita vez o seu apreço de modo generoso.
Foi com esse pensamento que se sentou frente ao pequeno toillete e se dedicou à maquilhagem. Achava que tinha uma pele perfeita, e a depilação a laser fizera o resto, pelo que lhe bastava o seu gloss Bourjois, de um vermelho quase sanguíneo, que era a sua imagem de marca. Depois, uma escovadela demorada, intensa, no cabelo longo e escorrido, e o deslizar do corpo para dentro do pequeno modelo Gautier, as longas pernas empinadas em cima dos saltos altos dos Prada.
Acabou de se compor frente ao espelho da porta da casa de banho, metendo ao ombro a pequena mala, e saiu saltitante pelas escadas, desembocando no fresco da noite com o sorriso de quem adivinhava que ia ser uma noite compensadora.
Subiu a avenida em passo cadenciado, as ancas pareciam mover-se ao ritmo lento do trânsito aquela hora da noite.
Parou a meio. Não resistia à montra da Louis Vuitton. “Aquela mala ainda há-de ser minha”. Era uma cobiça antiga, o raio da mala era uma tentação, mas sabia que havia outras despesas mais prementes.
Desviou o olhar, e seguiu rumo ao Club privativo.
Mas nessa noite estava escrito que não chegaria ao destino. Um pequeno Mercedes desportivo abrandou a seu lado e acompanhou-lhe o passo durante uns metros. Fez-lhe um pequeno sinal de luzes a que não correspondeu, nunca gostara de abordagens na rua, mas depois, o tipo adiantou um pouco o automóvel, e parou. Chamou com um “Olá”, a que correspondeu com um aceno de cabeça, parando e olhando-o. O homem devia ser doutor de qualquer coisa, estava bem vestido, bem penteado, bem barbeado…Imaginava que também fosse cheiroso.
E o “doutor” insistiu, convidando:
- Não queres entrar?
Porque não? Não tinha um ar perigoso, e mesmo que o fosse, sempre soubera como se defender. Depois, não ficava a dever em nada aos seus clientes do Club, e sempre lhe poupava a maçada do cheiro a álcool e de tabaco, que lhe empestava todas as noites as roupas.
Abriu a porta devagar, sentou-se no banco baixo, movimento que ainda lhe descobriu mais as pernas, que puxou para dentro com um cuidado estudado, de modo a que o “doutor” avaliasse bem a qualidade do “produto”.
O homem sorriu. Cheirava a pasta dentífrica e a after-shave caro. E chegou-se-lhe ao pescoço comprido, no qual passou ligeiramente os lábios, perguntando-lhe:
- Como te chamas, querida?
- Trata-se de uma questão imperativa? perguntou, ciciando-lhe ao ouvido
- Transcendente!
- Seja. O meu nome é Arnaldo.
Foto de Katarina Sokolova
Nota:- Os links ainda não estão todos, mas estou a fazer os possíveis!