Novos Voos - Take Two

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006
Um disco à 3ª feira: Television - Marquee Moon

Nunca fui um entusiasta do punk, mas reconheço sem custo que dele surgiram verdadeiras obras-primas.
Marquee Moon, dos Television, é certamente uma delas.
O álbum, que se deve ao génio criativo do guitarrista Tom Verlaine,bem acolitado por Richard Lloyd, é uma sequência sem mácula de pequenas canções. Uma sequência a roçar a perfeição, e que me parece que nunca mais foi conseguido por grupos semelhantes. É o rock de garagem no seu estado puro, e se o punk morreu, é impossível fazer uma retrospecção sem referir a obra maior dos Television.
Só assim a "leitura" se tornará compreensível.

Television - Venus

Nota: - Por uma questão de critério, a partir de hoje, as rubricas semanais passarão a ser editadas no meu blog musical. AQUI.
Domingo, Fevereiro 19, 2006
Tempus Fugit

A ausência também tem termo. Cumpriu a determinação de, conforme sabiamente sugeria Agostinho da Silva, subsidiar voluntariamente o ócio.
E assim, separei-me deste pedaço de mim, que lateja quase diariamente em separado, e deixei-me envolver pela indolência emanada pelas paisagens do sul e soçobrei à volúpia do tempo sem tempo, da obediência única ao sol e à lua, levantando-me com um e deitando-me com outra.
Evocando o filósofo de que agora alguns temporariamente se lembraram – dizia ele que o homem se tornara vítima das suas ambições, tornando-se assim escravo de si próprio, entregando-se por elas a uma vida de trabalho desnecessário - sentei-me nos arrifes batidos pelas ondas quase lisas, e decidi que durante uns tempos, deixaria afogar a vista naquela linha finita que separa os azuis e me disporia a deixar o meu corpo entregue ao sabor dos dias, inerte, só acesos os sentidos.
Baía6
A cada dia mais convicto que só somos verdadeiramente livres, quando nos libertamos de todos os elos que causam constrangimentos ao livre curso daquilo que verdadeiramente é crucial na vida, e que é ela própria, esvaziei-me de preocupações supérfluas, deixei-me embalar por aqueles murmúrios maternais que a terra-mãe sussurra, e absorvi o cheiro vivo da maresia, mesclado com os primeiros aromas alaranjados da primavera, ao mesmo tempo que deixava os pés mergulhar na areia húmida, até que aquela dor fina que aperta os ossos como um torno, os faz adormecer e parecer que já não me pertencem.
Se fizesse agora uma retrospectiva, quase poderia reconstruir cada minuto, cada pormenor, cada caminhada errante pelas ruas brancas e estreitas, cada olhar ofuscado pelo sol espelhado na calmaria eterna da ria, cada ocaso de céu incendiado.
E nunca penso nesses momentos como tempo perdido, porque é neles que me encontro. Porque já não deixo que a vida passe por mim, pois que insisto em passar por ela a cada momento.
Pela voz de Gustav von Aschenbach, o inesquecível protagonista de Morte em Veneza, dizia Thomas Mann:
Lembro-me que uma vez em casa do meu pai tivemos uma dessas – apontando com o olhar, uma ampulheta. - O orifício por onde escorre a areia é tão minúsculo, que de início parece que o nível no vidro superior nunca muda. Aos nossos olhos parece que a areia se esvai apenas no fim, e até se esvair, não vale a pena preocuparmo-nos. Até ao último momento, quando não há mais tempo, quando já não há mais tempo para pensarmos nisso/em>”.

Rua Algarve


Michael Nyman – The Promise


Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Um livro á 4ª (atrasado) e um filme à 5ª - Neruda em ambos

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Ontem foi um dia acidentado, ou melhor, foi a ressaca de um dia acidentado, o que provocou a minha ausência por aqui, e com ela a falta no livro à 4ª feira. E como já não haveria volta a dar, aproveito e recomendo-o hoje, juntamente com o filme à 5ª feira, até porque estão ligados umbilicalmente.
E se do livro pouco haverá a dizer, senão que é uma das obras maiores do génio poético de Pablo Neruda, do filme há a referir o seu lirismo e a sua beleza quase irreal.
Nele se dá conta de uma permuta incomum: enquanto Neruda ensina o seu Carteiro, que o venera de uma forma intensa, a escrever cartas de amor, com as quais conquistará a sua paixão, o Carteiro paga-lhe com uma amizade que rompe todas as barreiras culturais existentes entre os dois.
Trata-se de uma história pungente e extraordinária, que nunca deixará o espectador indiferente.
Refiro que Mario, o Carteiro, foi interpretado por Massimo Troisi, na altura já com uma saúde muito precária, mas que por ter ficado assombrado com o guião, não desistiu do papel que lhe ofereciam, tendo falecido logo após o fim das rodagens.

postino


Me gusta uando calas, de Pablo Neruda
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Luz
Agarrar a luz3Agarrar a luz1

E no ócio, vício da noite
há lógica determinante
na escolha óbvia do espaço
que procuro como abrigo
e que é sempre o sítio abraço
que eu partilho contigo
E é lógica do desejo
que desperta num lampejo
quando na pele sinto o fresco
do lavado do lençol,
e ao apagar da luz,
só com a lua na janela
o calor da tua pele
que me aquece mais que o sol.
E há um caminho carinho
um destino desenhado
uma luz que brilha ao fundo
que me acorda estremunhado
nesse carinho cantinho
onde me abrigo cansado
e me deixo extasiar
como se dormisse embalado
nesses teus braços de mar
Música à Terça - Jimi Hendrix-Electric Ladyland/1968

Se há discos que marcam gerações, este de Jimi Hendrix é um deles, seguramente. Gravado há mais de 30 anos, numa altura em que o estereo dava os primeiros passos, e os gravadores ainda era uns monstros pouco manobráveis, Electric Ladyland é a demonstração à saciedade de que Jimi era mais que um músico insuperável. Era um criador de ambiências extraordinárias, de uma interiorização tão singular do que tocava, que a música parece sair-lhe da pele, e a guitarra é como se fizesse parte de si, como se fosse uma extensão de si próprio. Ou a mulher, a amante. Porque Jimi fazia música como quem faz amor. Mas que faz amor...bem, com paixão, com desejo.
A Capa deste álbum duplo, (que contém, além de muitas outras, um Voodoo Chile verdadeiramente espantoso, na vertigem dos dedos esfacelam as cordas da guitarra, ou uma versão indescritível de All Along de Watchtower, de Dylan), que aqui deixo é a original, que pouco depois a censura viria a banir, passando-a para contra-capa.
Portanto, já veem que a censura é sempre uma matéria recorrente.
Como já referi, durante uns dias não vou ter música nova. Mas lá para dia 10 ainda cá porei uma música do Jimi.
Boas audições.


Jimi Hendrix - All along the watchtower
Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006
Manias
As minhas excelsas amigas Mnémosine e Isabel Magalhães que me tratam sempre com um desvelo que eu não mereço desafiaram-me para desfiar aqui as minhas manias ou vícios. Aí vão, bem compostinhas :
Primavera1 Yoshiyuki Tanaka
Para ser sincero, tenho muitas mais, a maior parte delas inconfessáveis, mas ficam só as mais notórias, até porque, em diferentes ocasiões aqui mencionei do que gostava mais e do que não gostava, e aí terão ficado explícitas muitas das minhas paranóias.
Seria suposto passar o teste a cinco bloggers, mas a coisa já se estendeu tanto pela blogoesfera que tenho dificuldade em encontrar quem ainda não tenha respondido. Fica então a sugestão a quem por aqui passar, para de livre vontade, responder se lhe aprouver.
Tenham uma boa semana.

Nota 1: Não estranhem a música permanecer a mesma durante uns dias: a NetCabo está em manutenção dos alojamentos e enquanto durar, não poderei fazer alterações. E como a NetCabo é muito rápida a resolver problemas, já me avisou que estará tudo resolvido lá para o dia 10

Nota 2: Eu sei que não vou ser nada politicamente correcto, mas tenho que dizer que cada vez me sinto mais feliz por a Natureza me ter fabricado com a opção “heterossexual” activada, e não qualquer outra.

Nota 3: Ontem, ouvi uma figura pública afirmar que lhe parecia que actualmente, as únicas pessoas que se queriam casar eram os padres e os homossexuais. Será? Eu pelo menos estive tentado a concordar com ele.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
Um filme à 5ª feira - Laranja Mecânica

””A minha vida dava um filme”, é uma espécie de frase feita, que muitos utilizam – nalguns casos com alguma dose de megalomania – e que, no meu caso, seria notoriamente um exagero, uma vez que, até hoje, e fora um ou outro facto mais notável para mim, mas pouco relevante na organização do universo, a minha vida tem sido linear, simples e pouco digna de registo.
No entanto, os filmes, tal como a música e os livros, têm sido sempre uma parte integrante e muito importante nela. E tanto, e tantos são eles, que tenho sempre alguma dificuldade em nomear algum. Terão reparado, que, por exemplo, em relação à rubrica Música à 3ª, tenho referenciado discos com alguma distância no tempo. Essa tendência tem sido deliberada, uma vez que, sabendo que os bloggers aderentes são maioritariamente mais novos que eu, seria interessante dar-lhes a conhecer obras, que a não ser aasim, talvez delas não tivessem conhecimento. O mesmo no que diz respeito aos filmes, embora no caso vertente, me pareça que serão poucos os que ignoram a obra que hoje aqui trago.
A Laranja Mecânica é provavelmente o filme maior de um cineasta exemplar, cuja obra sempre atingiu níveis estratosféricos. É um filme inquietante, visionário, que serve de alerta para os perigos de controle do indivíduo por parte dos poderes instituídos. É um filme actual, porque a tentação policiaria dos governos, é sempre actual, e a inventiva censória, não tem limites. Qualquer excesso é usado para justificar meios radicais de controlo de uma violência que, individualmente, será sempre menos perigosa que a de um estado organizado. É a censura levada ao extremo, neste caso, totalmente castrante dos impulsos e índole do indivíduo.
O filme é também servido por uma banda sonora surpreendente, que ajuda à atmosfera inquietante da fita, imaginada por Wendy Carlos (ex-Walter Carlos), e maioritariamente baseada na obra de Beethoven, constituindo, na minha opinião, uma das melhores bandas sonoras de sempre. A ouvir, independentemente do visionamento do filme, que deve ser feito com todos os sentidos alerta.


A Clockwork Orange
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
Um Futuro Radioso


[...]
- Vais voar, Ditosa. Respira. Sente a chuva. É água. Na tua vida terás muitos motivos para ser feliz, um deles chama-se água, outro chama-se vento, outro chama-se sol e chega sempre como recompensa depois da chuva. Sente a chuva. Abre as asas – miou Zorba.
A gaivota estendeu as asas. Os projectores banhavam-na de luz e a chuva salpicava-lhe as penas de pérolas. O humano e o gato viram-na erguer a cabeça de olhos fechados.
- A chuva, a água. Gosto! – Grasnou.
- Vais voar – miou Zorbas.
- Gosto de ti. És um gato muito bom – grasnou ela aproximando-se da beira do varandim.
- Vais voar. Todo o céu será teu – miou Zorbas.
- Nunca te esquecerei. Nem aos outros gatos – grasnou já com metade das patas de fora do varandim, porque, como diziam os versos de Atxaga, o seu pequeno coração era o dos equilibristas.
- Voa! – miou Zorbas estendendo uma pata e tocando-lhe ao de leve.
Ditosa desapareceu da sua vista, e o humano e o gato temeram o pior. Caíra como uma pedra. Com a respiração suspensa, assomaram as cabeças por cima do varandim, e viram-na então, batendo as asas, sobrevoando o parque de estacionamento, e depois seguiram-lhe o voo até às alturas, até mais para além do cata-vento de ouro que coroava a singular beleza de São Miguel.
Ditosa voava solitária na noite de Hamburgo. Afastava-se batendo as asas energicamente até se elevar sobre as gruas do porto, sobre os mastros dos barcos, e depois regressava planando, rodando uma e outra vez em torno do campanário da igreja.
- Estou a voar! Zorbas! Sei voar! – grasnava ela, eufórica, lá na vastidão do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos – disse ele suspirando.
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importando – miou Zorbas.
- A, sim? E o que é que ela compreendeu? – perguntou o humano?
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.
- Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo – despediu-se o humano.
Zorbas permaneceu ali a contemplá-la, até que não soube se foram as gotas de chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos amarelos de gato grande, preto e gordo, de gato bom, de gato nobre, de gato de porto.

Excerto de “História de uma Gaivota e do gato que a ensinou a voar”, que foi o primeiro livro que comprei...

História de uma gaivota


...para a C. que em 1 de Fevereiro de 2022 terá 20 anos.

Para que nunca te esqueças “Que só voa quem se atreve a fazê-lo "
E que tenhas uma vida muito feliz, minha querida.

É sempre um mundo garrido de esperança
aquele que é visto pelos olhos da criança

Banda sonora:

Frankie Valli - Can't take my eyes of you

Foto de Sian
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