Novos Voos - Take Two

quinta-feira, novembro 03, 2005
A vida num segundo
cellist


O, era um velho de corpo rotundo como aquele O que lhe serve de alcunha. Uma alcunha que se colara há tanto à pele que se o chamassem pelo seu nome verdadeiro ele já não acudiria.
O sentava-se todos os dias num dos bancos corridos da última mesa daquela que parecia ser a última taberna de Lisboa a ter mesas com tampos de mármore e sobre eles, umas toalhas de quadrados vermelhos e brancos, em oleado, que se limpavam ao passar do pano húmido.
A concisão era a particularidade mais notória do seu discurso. Raramente passava do monossílabo, e havia mesmo dias em que os conhecidos não lhe ouviam uma palavra.
Sentava-se ali quase desde que o tasqueiro abria a porta, até que este começava a enxotar os mais noctívagos espalhando serradura pelo chão, para secar as humidades que transpiravam dos barris empilhados junto à parede do fundo, o que muitas vezes acontecia já bem depois da meia-noite. Este, era um homem rude mas atencioso e atento, sempre de barba mal feita, sinal de que nem mesmo os óculos de lentes grossas lhe corrigiam correctamente a miopia. Tudo ali cheirava a outros tempos, o vinho carrascão, os carapaus fritos e os pastéis de bacalhau que o homem expunha nuns pratos antigos protegidos por uma minúscula vitrina, num dos extremos do velho balcão de madeira grossa, já muito desgastada pelos fundos dos milhões de copos húmidos e ainda maior quantidade de cotovelos humanos, que ali se tinham fincado. Até O .
O, quase parecia ter sido absorvido pelo ambiente e fazer dele parte integrante. Quando saía porta fora, aquele cheiro estava-lhe impregnado.
Era uma personalidade estranha, trazia sempre nos bolsos da gabardina velha que usava no Inverno e Verão, e nunca desapertava, uns jornais que eu supunha serem já antigos que desdobrava e pelos quais passava os olhos com regularidade, um pequeno e gasto caderno que de vez em quando sacava e onde fazia umas anotações que nunca descobri a que se referiam. Mas o seu passatempo preferido era preencher boletins de totoloto, que ele nunca registava.
Estranho homem, tanto mais estranho porquanto nunca ninguém nunca lhe vira comer alguma coisa, o que intrigava quem o conhecia, para mais, considerando a sua corpulência. O tasqueiro, com um sorriso condescendente, comentava que ele assimilava o ar que respirava. E curiosamente nunca lhe ouvi fazer qualquer reclamação sobre o facto de ele ali permanecer o dia todo sem nada consumir. Alguma razão haveria a justificar a generosidade.
Conheci mais de O, na sequência de um episódio que me deu uma outra noção das pequenas tragédias íntimas que cada homem pode carregar consigo.
Não era cliente assíduo do local, não porque tivesse algum problema nisso, apesar da modéstia, o homem tinha sempre tudo razoavelmente asseado, mas porque os meus caminhos poucas vezes passavam por ali. Contudo, lá havia alturas em que fazia derivar os passos, sempre apreciei estes locais tão característicos, de cores fortes em hábitos e sobretudo de solidariedades, e entrava para beber um café ou uma ginjinha com um amigo. Por vezes, quando tinha mais tempo, sentava-me um bocado e entretinha-me a ler um pouco, enquanto ia absorvendo o cheiro e o sabor do café de saco.
Num desses dias em que o tempo me deixava mais liberto, sentei-me ao pé de O, que imperturbável, preenchia os seus boletins. De repente, deu um salto brusco e assentou as mãos na mesa. A primeira coisa em que reparei era o modo como as mãos se enclavinhavam e amarfanhavam com violência a toalha, rasgando- a . Depois, foi a face congestionada num esgar tremendo, e o olhar fixo na porta. Segui-lho e deparei com um rapaz negro que descarregava grades de cerveja, tarefa que despachou rapidamente. Não sei porquê, agarrei firmemente o pulso de O e o meu gesto pareceu ter o condão de o acalmar. Sentou-se e a pouco e pouco a normalidade foi-lhe voltando à face.
Estava com receio de me meter no que não devia, mas perguntei-lhe se estava bem. Olhou-me do modo quase inexpressivo do costume e disse-me:
- Você não ia compreender.
Mas percebi que ele só queria uma oportunidade para deitar para fora o que há muito guardava e mantive-me atento, deixando-me surpreender pela narração viva que jorrou quando se deu conta que o queria ouvir.
E falou-me de como o jovem e promissor músico se perdera há quase quarenta anos numa mata perto de Bolama, entre tiros de G-3 e morteiradas. De como se sentira morrer por dentro quando, ao olhar para o lado vira o corpo esfacelado do seu amigo de sempre e colega de pauta, que no minuto anterior lhe tinha atirado com mais uma das suas brincadeiras parvas. Falou-me de como naquele momento com o irmão que ele escolhera, morrera o talento que transpirava da ponta dos seus dedos. De como o céu estava negro de fumo e os olhos vermelhos de tanto sangue.
Falou da medalha que lhe tinham dado e de que nunca percebera o porquê. E de como, passados tantos anos, o seu corpo se retesava e reagia instintivamente como se estivesse na selva, sempre que via na sua frente, um homem de uma cor diferente da sua.
Contou-me das inúmeras visitas a um médico – que deduzi ser um psiquiatra - que lhe tentara devolver o sossego e o dom que perdera nesse dia e de como, aos poucos, a família o fora perdendo a ele. E como saltara de emprego para emprego, não conseguindo conservar nenhum, até se tornar imprestável.
Aqui e ali, pelo meio de uma narrativa que de vez em quando se confundia, transparecia ainda umas réstias do homem culto, e eu deixei-o falar, sem interromper, nem perguntando por nada que ele não quisesse contar.
Quando se calou, vi que se tinham juntado a nós três ou quatro habituais fregueses, que o conheciam, mas raramente lhe tinham ouvido a voz. Tinham-se mantido em silêncio e em silêncio debandaram. O ruído ambiente tinha-se transformado num silêncio absoluto, no qual só as palavras de O ecoavam.
E O levantou-se também, e depois de me apertar ligeiramente o braço como que agradecendo a atenção, saiu, nesse dia muito mais cedo do que era seu costume, parecendo aliviado.
Fiquei a pensar na volatilidade da vida, e como um homem a pode perder num segundo, apesar de continuar a viver.
Nesse dia não consegui adormecer.

Escrito por: VdeAlmeida, em 11/03/2005 07:27:00 da tarde | Permalink | |


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