Novos Voos - Take Two

domingo, outubro 30, 2005
Uma recordação longínqua
Putos


O movimento, denso e apressado das gentes que fugia da chuva, que me obrigava a olhar em frente para não esbarrar com algum distraído teve a consequência dolorosa de, ao não olhar onde pisava, não topar com um buraco, pequeno mas o suficiente para me fazer pisar em falso. O impacto repercutiu-se perna acima, até se estabelecer no ponto frágil, a base da coluna, provocando-me uma dor aguda que me fez estremecer e deixar escapar um queixume dorido.
Quase instantaneamente lembrei-me de ti. Estranho como pequenos incidentes aparentemente espúrios, têm o condão de evocar memórias escondidas há muito num cantinho. E tão escondidas que estavam as que guardo de ti. Afinal, há muitos anos que as nossas vidas divergiram, como acontece tanta vez a amigos que, naquele entusiasmo da juventude, se crêem inseparáveis para toda a vida.
De repente, percebi que aquela pancada seca te trouxe a mim, talvez porque me lembrasse do pé mal posto num degrau e torcido, e dos três dias que passei imobilizado, consequência duma apressada fuga à polícia que nos impedia de jogar futebol nas “terras” em frente à Lareira, pelas escadas esconsas que desciam até à Rua das Amoreiras. Cada vez que lá passo, olho o Ginásio Club que agora ocupa o espaço e parece-me que ainda me dói aquele tornozelo, ao mesmo tempo que recordo a ilegalidade em que insistíamos tanta vez, como diziam os guardas. Acho que o fazíamos mais por lhes desafiar a autoridade e fazer correr, do que pelo prazer de jogar, pelo menos eu, que nunca tive grande jeito para a bola.
Mas aquela ficou-me cara, embora, mesmo com um pé inchado e umas dores excruciantes, me tenha safo da tarde passada no banco da esquadra e dos três ou quatro tabefes habituais.
Dessa altura, há episódios que reputo de completamente idiotas, outros definitivamente perigosos, e que só admito ter participado neles pela completa inconsciência da criança, depois adolescente vulgar que eu era. E os dois, sendo tão diferentes, acabávamos por ser tão iguais, e assim também, iguais a todos os nossos companheiros de então, que só assim compreendo a nossa cumplicidade nas bizarrias a que tantas vezes nos entregávamos.
Quem conseguirá explicar o saco de baratas despejado debaixo da cadeira da D. Laura, a terna professora que todos os sábados de manhã nos encantava com a leitura de mais umas páginas de Selma Lagerloff, e que ficou à beira de um ataque de nervos, tenha passado sem culpados? (lembras-te que este incidente nos fazia rir sempre que o evocávamos, mas que acabámos por nos calar, pouco orgulhosos do feito e com muitos remorsos á mistura, o que dava a ideia que afinal não éramos insensíveis de todo?)

Putos1


Ou, por exemplo, o que leva uma série de adolescentes a pararem às 4 da manhã em frente à praça de touros do Campo Pequeno, e, alheios ao perigo da presença por perto de dois polícias zelosos, ensaiarem uma mija simultânea, só com o propósito de comemorar uns exames bem sucedidos?
Depois, foi o tempo dos namoros, e mesmo então conciliávamos bailes, cinemas, passeios pelos recantos mais escondidos dos jardins. Nunca me esqueci da vez que fomos a uma festa de aniversário com baile, em Algés, em que tu levado pelas hormonas e pela música, encostaste tanto a R a um cortinado escuro que descia do tecto e que pensavas que cobria uma janela, que se embrulharam os dois nele e caíram, porque afinal se tratava de uma mera separação de dois espaços numa mesma sala. E depois do riso generalizado, como foi difícil a explicação dada à avó da aniversariante, que servia de pau-de-cabeleira no baile.
Houve tantos episódios, mais complicados uns, quase inocentes e muitas vezes hilariantes, outros. Mas sempre marcados pela fidelidade canina que parecia forjada num juramento de sangue como nós líamos no Cavaleiro Andante.
Mais tarde, foi o esboroar da crença dos “amigos e irmãos para sempre”, partiste para o outro lado do mundo, seguiste os teus e logo naquele momento eu senti que nunca mais nos veríamos.
Afinal, talvez não tivesse sido o tornozelo torcido e sim o impacto doloroso e que me deixou quase sem respirar, que a notícia e a consequência que previ, me causou então, que hoje me fez lembrar de ti quando aquela dor aguda me atingiu como uma lâmina fina na coluna.

Fotos de Doisneau

Escrito por: VdeAlmeida, em 10/30/2005 12:01:00 da manhã | Permalink | |


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