
A humidade solta e pegajosa colava-se à calçada e a rua parecia uma pista de patinagem traiçoeira, e brilhava sob os frágeis raios de sol que se conseguiam escapar por entre as nuvens, tão escuras e pesadas, que pareciam dizer que estavam prestes a desfazer-se em chuva intensa. E no entanto, o ar mantinha-se frio, a brisa cortante como uma lâmina afiada. O rio só se adivinhava para lá do arco que, ao fundo, unia as duas margens da rua.
Parou a meio, soltando-se dos seus pensamentos. Uma figura irresistivelmente branca, uma alvura de casa alentejana acabada de caiar, chamara-lhe a atenção. Vestia uma espécie de túnica atada na cintura, como a dos tuaregues, e nem lhe faltava o turbante na cabeça. Tudo imaculado. Nem a cara escapara ao impiedoso pincel. Só os olhos e a boca se distinguiam naquela monotonia de neve, mas mesmos esses só ligeiramente, eram umas nesgas escuras, irregulares, rasgadas a canivete. A particularidade que os tornava notados, os cantos dos olhos e a comissura dos lábios apontavam ao chão como que atraídos pela força de gravidade. Mas não, via-se que era o peso da vida que assim lhe traçara quase cruelmente a face. Olhou mais atentamente e aquela cara cada vez mais se lhe parecia com uma das máscaras simbólicas do teatro, a trágica.
O homem estava em cima de um banco também caiado e mantinha-se, na maior parte do tempo impassível, como uma estátua, que pretendia ser. Mas por vezes executava uns gestos estranhos, maquinais, como se fosse um boneco articulado. Só nessas alturas se lhe detectava vida. Não. Também quando alguém deixava cair descuidado, uma moeda na pequena caixa de cartão que tinha à sua frente, a cabeça curvava-se levemente e os olhos brilhavam ligeiramente em sinal de agradecimento ao acidental mecenas.
Deitou-lhe, ele também, duas moedas para a caixinha e afastou-se um pouco, deixando-se ficar encostado à esquina mais próxima a observar atentamente a figura, como que hipnotizado. A humidade que a parede transpirava, trespassava-lhe o casaco grosso, e um arrepio percorreu-o, mas deixou-se ficar, a curiosidade era grande. Sabia que aquela era uma intervenção que tinha intenções pretensamente lúdicas, como os malabaristas, ou outra semelhante, mas não lha conseguia valorar. Dera-lhe as moedas por bondade, não como retribuição de uns momentos de prazer. Interrogava-se sobre as motivações que levavam um homem a permanecer assim, estático, alvo de olhares de comiseração quando não de desprezo ou chacota, sujeito à má catadura do tempo, como naquele dia em que o céu parecia chumbo. Sabia da dureza da vida, das opções, tanta vez, quase absurdas que somos obrigados a tomar, mas não conseguia entender aquela.
Foi quando aconteceu algo inesperado: rompendo pelo meio das pernas dos adultos que passavam acotovelando-se, mal dispensando um olhar ao “artista”, um rapazinho de cabelo claro e olhos brilhantes, estacou diante do homem e mirou-o, um olhar intenso de curiosidade, vigiado dois passos atrás pela mãe atenta, uma senhora nova e bonita. O garoto esboçava um ligeiro sorriso. Nessa altura, o homem decidiu fazer aquela sucessão de movimentos maquinais e a face do menino abriu-se num sorriso de um brilho tão vincado - um daqueles sorrisos que os olhos acompanham, denunciador de uma alegria, uma chama vinda da alma, do coração ingénuo - que aquela canto da rua pareceu tomar luz própria.
Assim ficou o rapazinho, com aquele ar extasiado e o homem pareceu esmerar-se na perfeição dos gestos, até que voltou à sua posição estática. O menino denotou uma muito breve decepção, mas voltou a sorrir. Meteu então a mão direita ao bolso das calças e tirou uma nota e duas moedas, que passou para a outra mão. Voltou a introduzir a mão no bolso, e puxou-lhe o forro para fora. Nada mais lá havia. Dessa vez sim, a decepção perdurou. Mas depois de olhar com ar triste para a mão que segurava o dinheiro, abrindo-a e conferindo-o de novo, conformou-se, devolveu o forro ao seu lugar, e dirigindo-se ao homem, deixou-lhe cair a nota e as moedas na caixinha. A mãe sorriu, pegou-lhe na mão e seguiram caminho.
Só então saiu da estupefacção que a atitude lhe tinha provocado e olhou o contemplado. O homem tinha deixado descair levemente o queixo, e uma lágrima bem visível, ameaçava soltar-se-lhe. Ficou assim longos segundos, nessa altura possuído de uma paralisia involuntária, e depois desceu do banquinho, meteu-o debaixo do braço, guardou a caixinha e o dinheiro, e seguiu rua fora ligeiramente curvado. A face suavizara-se e não parecia a figura rígida de há minutos atrás.
Meteu as mãos nos bolsos largos do casaco na tentativa de as aquecer. E pensou com os seus botões que a idade não lhe tinha ensinado quase nada. Num breve lapso de tempo, aquele menino dera-lhe uma lição de generosidade e dissera-lhe, sem ter articulado palavra, que a sua ingenuidade há muito se tinha perdido em qualquer esquina da vida, aquela inocência que permite a magnanimidade de gestos que só as crianças são capazes e a capacidade de ver para além do que está à superfície.
Aos que aqui me deixaram expresso tanto afecto no post anterior e no qual considerei inadequado dar respostas individuais que não se coadunariam com o carácter do mesmo, a renovação da minha imensa gratidão e o reafirmar, que sem vocês pouco faria sentido.
A todos o meu carinho